segunda-feira, 31 de maio de 2010

Cia. do Abração ganha crítica no Jornal do Brasil

O Trenzinho do Caipira em crítica do Jornal do Brasil (RJ)

O jornalista Ricardo Schöpke, do Caderno B do Jornal do Brasil (RJ), publicou no sábado, 29 de maio de 2010, crítica sobre o espetáculo de teatro infantil "O Trenzinho do Caipira" da Cia. do Abração, de Curitiba (PR), que se apresentou dois finais de semana seguidos no teatro da Caixa Cultural, no centro do Rio de Janeiro.

O título da crítica: Encantadora homenagem ao maestro - Riquíssimo universo musical de Villa-Lobos inspira peça que retrata diversidade brasileira.

A matéria foi assim publicada:

O Brasil pode se orgulhar de ser a pátria do maestro e compositor Heitor Villa-Lobos, u8m dos maiores nomes de todos os tempos na música erudita mundial e brasileira. Banhando-se em seu riquíssimo universo, a diretora Letícia Guimarães coordenou cada um dos seus atores/vagões em busca de um trem especialíssimo, sem chances remotas de descarrilhamento.

No roteiro da peça escrito em processo colaborativo - no qual os atores (conduzidos por Letícia) vão descobrindo os caminhos a serem trilhados na encenação durante o processo de criação - seis personagens de diferentes regiões do Brasil recebem uma misteriosa carta de Villa-Lobos , convidando-os para uma viagem de trem. Juntos, descobrem novos sentidos para as suas vidas e decidem então construir o seu próprio trem. Uma grande colcha de retalhos de sons, luzes, quinquilharias e muita poesia e lirismo. Quem assina a cenografia e figurino é Cristine Conde. No cenário são utilizados um grande arco frontal com vários objetos pendurados, brinquedos infantis de várias regiões do país. A base de todo o trabalho são os singelos e funcionais caixotes de madeira pintados com várias cores e que se desdobram em cena. A cena final dos caixotes se transformando em vagões de trem, composto pela fumaça que sai de um bule que vira chaminé, é um dos pontos altos do espetáculo.

A composição de cores da iluminação de Anry Aider colabora com a criação de uma atmosfera reinante nas regiões por onde as personagens viaja. Na direção musical Octávio Camargo e na sonoplastia de Maurício Vogue, ouvimos o melhor de Villa-Lobos - dentre eles as Bachianas Brasileiras no. 5 - e a sua primorosa composição que dá nome ao espetáculo: O trenzinho do caipira. Sons são extraídos de materiais reciclados, como garrafas de plástico, e também do corpo humano. Assim, como uma verdadeira sinônica natural, Villa-Lobos gravava os sons dos pássaros e da natureza. Baseada neste contexto a poética direção de Letícia busca a aproximação com este universo.

Todos os atores cantam, dançam uma bem marca coreografia de Fabiana Ferreira, e interpretam tipos de várias regiões do Brasil. Cleo Cavalcantty, Paulo Matos,Moira albuquerque, Felipe Custódio, Aline da Silva e Simão Cunha estão encantadores, na medida certa para nos contar uma história de homenagem a um personagem tão rico e fascinante da arte nacional.

Revogado Edital do "Novelas Curitibanas"


EDITAL Nº 109/10

REGOVAÇÃO DO EDITAL Nº 043/10 – SELEÇÃO DE PROJETOS

“TEATRO NOVELAS CURITIBANAS -TEMPORADA 2011”

A Fundação Cultural de Curitiba, tendo em vista a deliberação havida pela Comissão do Fundo Municipal da Cultura - CFMC, consoante Ata nº 258, de 26/05/2010, e com fundamento no disposto no item 7.9 do Edital nº 043/10, torna público, para conhecimento dos interessados, o presente Edital que REVOGA o Edital nº 043/10, publicado em 30/03/2010, em sua íntegra.

Informamos que novo Edital com objeto semelhante e que contemple as modificações decididas pela CFMC será lançado.

Os proponentes que já hajam enviado seus projetos para o processo de seleção ora revogado deverão retirá-los na Diretoria responsável pelo Programa de Apoio e Incentivo à Cultura – PAIC, no prazo de 15 (quinze) dias contados da publicação do presente, para futura reapresentação no âmbito do novo Edital a ser publicado, se assim for de seu interesse.

Os projetos não retirados no prazo acima estabelecidos serão eliminados pela Diretoria competente.

Curitiba, 27 de maio de 2010.

PAULINO VIAPIANA

Presidente da Fundação Cultural de Curitiba

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O QUE DIZ O ITEM 7.9?

(...)

7.9 - A FCC, havendo razões superiores que justifiquem, poderá revogar este Edital a qualquer momento, sem que tal fato permita alegação de prejuízo aos interessados, ou a terceiros, sob qualquer fundamento de direito.

(...)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O menino que sonhou voar: Albertinho e o céu de Paris

O figurino de "Sobrevoar" é criação de Maureen Miranda
(foto de Lauro Borges)

Atores, diretora e equipe técnica de "Sobrevoar"
(foto de Lauro Borges)

Simão Cunha, Moira Albuquerque, Negra Silva e Felipe Custódio
(foto de Lauro Borges)

Felipe Custódio, Negra Silva, Simão Cunha e Moira Albuquerque
(foto de Lauro Borges)

A Cia. do Abração, de Curitiba, estreará em 12 de junho de 2010, às 20h00, em sua sede, “SobreVoar”, sua nova montagem teatral que fala do menino Albertinho, seus sonhos, medos, desafios, obstáculos, persistência, coragem e as realizações que o levaram ao céu de Paris, cidade que o reconheceu como Santos Dumont, um brasileiro inventivo e destemido. O espetáculo será apresentado na sede da Cia. do Abração, no Bacacheri, aos sábados e domingos até o dia 8 de agosto. Durante este período, em dias e horários letivos, o espetáculo será apresentado conforme agendamento prévio, com escolas de Curitiba e foi produzido com o apoio do PAIC - Programa de Apoio e Incentivo à Cultura, da Fundação Cultural de Curitiba, da Prefeitura de Curitiba.

“SobreVoar” mostra Santos Dumont criança, na figura do menino Albertinho Dumundo. Ele, como tantas outras crianças, é apresentado como um menino que vive numa dimensão atemporal onde os desafios e os obstáculos aparecem em sonhos que se tornaram realidade após muitas tentativas, quedas e a coragem de recomeçar e de persistir. De acreditar que sempre é possível realizar seus sonhos mesmo quando as dificuldades aparecem instransponíveis ou irrealizáveis.

Os personagens habitam um espaço imaginário que pode ser, ao mesmo tempo, um hangar, uma oficina de criação, uma sala de estudos, em que se transformou o quarto do imaginativo menino Albertinho, sempre cercado por livros, dúvidas, sonhos e maravilhosas idéias em projetos mirabolantes.

Entre travesseiros, edredons, chapéus, abajur e uma mágica cama, o menino recebe a visita e dialoga com instigantes personagens: os “Engenheiros do Sonho”, uma improvável lagarta que sonha voar até a lua e as figuras desafiadoras da “Dúvida”, da “Curiosidade”, da “Auto Estima” e da “Coragem”, além de incrédulos franceses que se curvaram, depois, diante do que ele mostrou ao redor da Torre Eiffel e no céu de Paris.

O tempo é assinalado por um relógio “maluco” que pontua as ações dos personagens e dá saltos atemporais e inusitados nas descobertas que Albertinho faz e que revelam como ele conseguiu transformar a vaidade em um instrumento de improvisações e de inventividade. Todos os atores, em momentos especiais da montagem, vivem a experiência de serem Albertinho Dumundo.

“SobreVoar” é o sexto espetáculo montado pela Cia. do Abração para crianças de todas as idades e se realiza com a parceria da Abração Filmes e da Céu Vermelho Produções. A direção é de Letícia Guimarães e tem no elenco Felipe Custódio, Moira Albuquerque, Negra Silva e Simão Cunha. O texto foi produzido em processo colaborativo pelos atores com supervisão de dramaturgia de Letícia Guimarães.

Ficha técnica

Direção: Letícia Guimarães

Produção executiva: Fabiana Ferreira

Coreografia: Fabiana Ferreira

Cenografia: Marcelo Scalzo

Figurinos: Maureen Miranda

Adereços: Marcelo Scalzo e Maureen Miranda

Iluminação: Anry Aider

Sonoplastia: Karla Izidro

Arte gráfica: Blas Torres

Elenco: Felipe Custódio, Moira Albuquerque, Negra Silva e Simão Cunha.

Oficina espaço, corpo e som: Eliane Campelli

Preparação vocal: Alysson Siqueira e Karla Izidro

Preparação corporal: Fabiana Ferreira

Preparação de animação de objetos: Renato Perré


Serviço


SobreVoar – espetáculo teatral para crianças de todas as idades

Temporada: de 12 de junho a 8 de agosto de 2010

Horário: sábados, às 18:00 horas e domingos às 16:00 horas

Local: Sala Raul Cruz, sede da Cia. do Abração. Rua Paulo Ildefonso Assumpção, 725. Bacacheri

Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$10,00 (meia)

Telefone: (41) 3362 9438

Capacidade: 60 pessoas

Duração: 50 minutos

Classificação indicativa: Livre, especialmente recomendada para crianças.

domingo, 23 de maio de 2010

La Traviata, em um mercado na Filadélfia

Recebi de Alice Fontana, minha amiga que mora em Milão, o e-mail com o seguinte texto e com o vídeo do YouTube que pode ser visto aqui. Clique no título do "post" e assista ao vídeo. Imperdível!


O texto do e-mail:


Imagine você no mercado público por exemplo, muito barulho, aquela confusão de gente pra todo lado e de repente alguém começa a cantar uma música completamente contagiante ...


Agora veja mais de 30 membros da Companhia de Ópera da Filadélfia, no meio do povo, em um local público - Reading Terminal Market Italian Festival (foi no dia 24 de abril de 2010) e, passando-se por transeuntes comuns, de repente começam a cantar La Traviata!


Pensa, trovarsi in un mercato, in una fiera e, al'improvviso sentire "la traviata", cantata da persone supostamente comuni, tra la gente....!!!!!


Baci


Alice Fontana

 


"Vida", o haicai e o performático

Um "haiga" - foto com haicai

O jornalista e crítico teatral Valmir Santos publicou em seu site "Teatro Jornal" uma crítica, a meu ver, bem estruturada, sobre o espetáculo "Vida", da CBT e dirigida por Márcio Abreu. O título do texto é tão provocativo quanto quem inspirou "Vida": Haicai performático.

Não vou falar sobre o que seja haicai - para uns haikai, para vários lugares do mundo haiku - mas pego a provocação do Valmir sobre o uso do "haicai" no título da crítica. Uma poesia sintética, de três versos apenas, 17 sílabas poéticas, uma métrica restrita, uma forma muito difícil de construção, não poderia nunca, em hipótese nenhuma, servir de referência para o que "Vida" tem e apresenta. Escrevi "poderia". Não poderia, em sã consciência, não poderia mesmo. Mas a "Vida", que se refere ao universo de Paulo Leminski, sem ser sobre Leminski ou sua obra, pode ser e é mesmo um "haicai" e um "haicai performático" como indicou Valmir sobre o espetáculo de Márcio Abreu, Nadja Naira, Ranieri Gonzales, Giovana Soar e Rodrigo Ferrarini, com a contribuição de outros profissionais talentosos e argutos como Fernando Marés e André Abujamra, esse a quem um dia eu terei que escrever algo para esclarecer uma inusitada pendência entre nós. Minha para com ele, com certeza, mas também, dele para mim. Tudo a seu tempo, porém.

Agora eu trato apenas de "Vida", um inusitado e inesperado haicai performático. E não vou além do que, para mim, agora, até parece óbvio: "Vida" sendo um haikai, Leminski é seu "kigo" e, para mim, um "kigo" que representa toda a dimensão da palavra "outono". Para se entender o que seja "kigo", uma comparação bem didática, rasa mesmo: verão é sol (calor, chuva), primavera é flores (perfume, cores), inverno é frio (agasalho, sopa), outono é Leminski. Mas o "haicai" é "performático", daí o "kigo" outonal daquele polaco fiodaputa ser/ter o contraponto da luz difusa que invoca, do cheiro incômodo que exala, do som estranho que propicia, do gosto acre que sugere, e do toque áspero de um bigode numa boca que emite um estranho lamento da mais profunda alma feminina. Leminski, em vida, escreveu sobre haicai e kigos. Sendo homenageado, Leminski é teatro, é explosão de vida em "Vida" e é o outonal ocaso de quem agora vira seu próprio "kigo". Coisas mesmo dignas de Leminski.

Para quem se interessar no texto crítico de Valmir Santos, um trecho do que ele escreveu sobre "Vida", que esta semana encerrou sua participação no Teatro Tom Jobim, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro.


(...)

Vida é justo um exemplo. Não há Paulo Leminski e há todo o Paulo Leminski em Vida, a visita da Companhia Brasileira de Teatro, de Curitiba, ao universo do conterrâneo mais varrido das letras paranaenses, para espanto e deleite da cidade – agora é que são eles – e do Brasil.

Assim como a palavra não constitui signo absoluto na escrita do autor de Catatau – ela é sempre entranhada a outras pontes imaginárias, mesmo quando no osso -, o texto do diretor Marcio Abreu e a dramaturgia que assina com as atrizes Giovana Soar e Nadja Naira encerram desvios para alcançar o seu próprio objeto de desejo. Apropriam-se da liberdade de linguagem que caracterizou a existência e a produção literária desse artista para construir uma galáxia particular no palco.

O espírito é libertário, primo do literário. Lançando mão da fábula e da fantasia, Vida ergue-se sem dependência biográfica, sem a promissória estilística do poeta. A Companhia Brasileira de Teatro afirma ter investido mais de ano e meio em pesquisa de campo, bibliografia, experimentos. O espetáculo pode ser lido como um haicai performático em suas estruturas e conteúdos livres e inerentes à cena contemporânea. Descama expectativas dramáticas padrões para incorporar à narrativa procedimentos sintéticos mais evidentes da performance, das artes visuais e da música. E sem jamais ostentá-los. Um projeto afinado à trajetória de quem o move – o luminescente Leminski - e radica o ato criador à condição sem a qual não se respira.


(...)

Para quem ficou curioso sobre "kigo" e "haicai", visite o que escreveu o mestre Edson Kenji Iura.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Autor por Autor - das coisas do inconsciente coletivo

O e-mail que encaminhei à TVE Bahia em junho de 2003

Nos últimos seis anos tive pouca - ou nenhuma - oportunidade de assistir a programas da sempre especial TV Cultura de São Paulo. Uns até que eu tive muita vontade, mas estava impedido, por ser então um assinante da NET, a TV por assinatura que não transmitia para Curitiba a programação da TV paulistana. E também não podia assistir na TV Educativa paranaense, porque o então governador Requião usava e abusava do direito de completar a grade da nossa emissora com seus implacáveis programas de cunho eminentemente político, com um disfarce de aula. Em resumo: passei batido por muitos programas que me interessavam.

Em novembro passado troquei de operadora de TV por assinatura e passei para a Sky, aquela da parabólica. E, graças a Deus, tem na sua programação a TV Cultura de São Paulo. Assim, posso contar uma história interessante.

Autor por autor - uma ideia sobre literatura, teatro, televisão

Foi apresentado ontem, na TV Cultura paulista o segundo programa da série "Autor Por Autor", que é, segundo matéria publicada pelo jornal O Estado de São Paulo - edição de 19 de maio, por Flávia Guerra - "um misto de TV, teatro e literatura aplicada" e que tem a "missão de vencer, não com palmatória, mas, com criatividade, a difícil e recompensadora tarefa de criar no espectador a vontade de ler (mais) sobre a vida e a obra dos grandes escritores contemporâneos brasileiros".

O primeiro programa, em 2009, foi com Lygia Fagundes Telles. O segundo, de ontem, com o imortal João Ubaldo Ribeiro, autor de "Viva o Povo Brasileiro", "Deus é Brasileiro", "Sargento Getúlio", "A Casa dos Budas Ditosos", dentre outros intermináveis "best-sellers". João Ubaldo foi vivido no programa pelo ator baiano Othon Bastos.

O programa foi concebido por Paulo Markun, jornalista que dirigiu a emissora até pouco tempo. A direção geral é de Ricardo Elias e teve a co-produção da SescTV, também de São Paulo. Na matéria publicada pelo "Estadão", o diretor Elias disse que para "este primeiro, passamos muito tempo concebendo a ideia do programa, que é a de contar como um autor se tornou o escritor que é hoje. O que ele viveu e leu que foi decisivo em sua formação". O programa "mistura de tudo um pouco para compor um romance de formação da vida de um autor como o Ubaldo. Mesclamos entrevistas do próprio escritor com dramatização e, por fim, aplicamos o cenário por computação gráfica". O cenário, segundo a reportagem do "Estadão" foi uma biblioteca imensa que fez fundo para as aparições de Othon Bastos como João Ubaldo Ribeiro.

Do inconsciente coletivo e de sua ampliação e melhoria

Em junho de 2003 eu estava passando meus últimos dias dos longos meses que morei e trabalhei na Bahia. Depois de ter trabalhado numa editora universitária ligada a uma universidade particular na cidade de Lauro de Freitas (que é vizinha do aeroporto de Salvador, como aqui é São José dos Pinhais), fiz uns free-lances e andei criando alguns projetos editoriais, dramatúrgicos e propus, para a TV Educativa da Bahia, uma série de programas, sendo que, um deles ensejaria uma série. O tema dessa série se vinculava a literatura, o conto na Bahia, vida e obras dos autores (baianos).

Ao assistir as chamadas do programa "Autor por Autor" notei algumas semelhanças no formato daquele programa com minha idéia do programa que propus à TVE baiana. Semelhanças que atribuo ao inconsciente coletivo e que somente herr Jung poderia dar uma explicação mais abalizada. Mas ele já morreu e, talvez, algum dos seus discípulos possa explicar como é que as idéias aparecem aqui e ali, muitas vezes espalhadas pelo tempo, não no mesmo espaço, mas que trafegam por uma temática semelhante e, vejam só, por um mesmo tipo de autor, no caso da TV Cultura, o baiano João Ubaldo Ribeiro, e no que a mim tem ligação, o autor e crítico literário Hélio Pólvora, que foi amigo de Jorge Amado (ele é de Itabuna, vizinha a Ilhéus) e de Clarice Lispector, dentre outros autores brasileiros de renome.

Reproduzo, aqui, a proposta que encaminhei para a TVE Bahia (na imagem acima tem a cópia da cabeça do e-mail que encaminhei à época para pessoas daquela emissora) com data de 16 de junho de 2003.

PROJETO DE PROGRAMA PARA A TVE-BAHIA

Temática

Literatura - O conto na Bahia – Vida e Obras dos autores

Marco conceitual

O povo e, em particular, o estudante baiano conhecem (bem) a literatura baiana e os autores contemporâneos da Bahia? Conhecem seus principais poetas, romancistas, cronistas e contistas? E as obras desses escritores são difundidas e conhecidas aqui na Bahia, na dimensão de suas importâncias dentro da Literatura Brasileira?

No processo formal do ensino da Língua Portuguesa e da Literatura Brasileira, na Bahia, onde e como são destacados os grandes autores que aqui sempre produziram inesquecíveis obras? Que instrumentos além das classes e da leitura de livros, dos grupos de estudos, das palestras, dos seminários e da discussão acadêmica, são democraticamente acessíveis aos baianos?

Estas indagações suscitam outras abordagens sobre a questão e ensejam a proposição de um programa de televisão para ser veiculado na TVE - Bahia cujo principal objetivo é o de revelar quem são os principais e mais ativos escritores baianos de contos da atualidade, qual é o conjunto de suas obras, suas características principais e o que têm contribuído para a Literatura Brasileira, dando instrumentos para que os telespectadores possam refletir sobre suas próprias vidas e estabelecer as relações pertinentes sobre as obras narradas por autores tão criativos e competentes.

Formato

O programa que está sendo proposto vai adotar, em seu formato, uma apresentação do perfil de um escritor, mostrando sua história, suas origens, a cidade e região onde ele nasceu, suas influências, seus contemporâneos, suas principais obras, seus prêmios. As imagens serão feitas na casa do autor e em outros locais que revelem o ambiente onde ele vive e trabalha. O programa vai mostrar uma análise de algumas de suas obras em depoimentos de críticos, professores de literatura, personalidades e leitores. Na parte final do programa, o autor focalizado inicia a leitura de um de seus contos dentro de um ambiente onde vai se desenvolver a ação de uma de suas histórias, num trabalho de adaptação de teledramaturgia de um de seus contos, ou da passagem de um deles, por um grupo teatral baiano.

Produção, direção e captação de patrocínio

O programa será produzido num sistema de co-produção com a TVE Bahia por uma conceituada produtora de vídeo de Salvador, em padrão digital e com as demais características técnicas que se encaixem dentro da programação daquela emissora educativa.

O programa será dirigido pelo jornalista Rogério Viana, que também será o autor do roteiro.

Obedecendo-se as determinações legais que vigem sobre a matéria, o programa será produzido com o patrocínio de uma ou mais empresas do setor privado, na forma de cotas de patrocínio e de apoio. O trabalho de captação do patrocínio será desenvolvido pelo próprio proponente.

Sinopse do primeiro programa

O baú de Pólvora

O focalizado no primeiro programa será o jornalista, crítico literário, romancista e contista Hélio Pólvora, baiano de Itabuna e que foi contemporâneo e amigo de Clarice Lispector quando trabalhava em grandes jornais no Rio de Janeiro.

O programa vai contar a história de Hélio Pólvora com imagens de antigas fotos, filmes, se houver, e quando é que surgiu o gosto pela literatura, sua entrada no jornalismo e as influências que recebeu para escrever seus primeiros trabalhos como contista, os prêmios que conquistou e sua atuação como crítico literário. A infância, os primeiros contatos com a literatura, os amigos, Jorge Amado, Jorge Medauar (recém-falecido), Clarice Lispector, a vida em Salvador, no Rio de Janeiro, o retorno a Salvador e a Ilhéus, onde ele é o diretor da Fundação Cultural de Ilhéus. Críticos, outros escritores, professores de Literatura de escolas e de universidades baianas, bem como leitores (personalidades ou gente do povo), comentarão sobre a obra de Pólvora.

Um grupo de teatro de Salvador vai adaptar um dos contos de Hélio Pólvora que será apresentado na forma de uma narrativa feita pelo próprio autor, integrando-se como espectador privilegiado da obra a ser mostrada em algumas cenas.

Autor do projeto

Jornalista e redator de publicidade Rogério Viana, autor de contos, do roteiro de cinema “Caculé”, da peça teatral “O medo de te perder” e do livro de poemas e haikais “Trinta toques”.

Salvador, 16 de junho de 2003.

Rogério Viana

71 9995 4XXX (meu telefone de Salvador, na época)

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Quem assistir - e recomendo que assistam os próximos episódios de "Autor por Autor" - vai notar que há, mesmo, algumas semelhanças no formato do programa da TV Cultura de São Paulo com o que propus em 2003 para a TV Educativa da Bahia.

Está no meu projeto:

O programa que está sendo proposto vai adotar, em seu formato, uma apresentação do perfil de um escritor, mostrando sua história, suas origens, a cidade e região onde ele nasceu, suas influências, seus contemporâneos, suas principais obras, seus prêmios. As imagens serão feitas na casa do autor e em outros locais que revelem o ambiente onde ele vive e trabalha. O programa vai mostrar uma análise de algumas de suas obras em depoimentos de críticos, professores de literatura, personalidades e leitores. Na parte final do programa, o autor focalizado inicia a leitura de um de seus contos dentro de um ambiente onde vai se desenvolver a ação de uma de suas histórias, num trabalho de adaptação de teledramaturgia de um de seus contos, ou da passagem de um deles, por um grupo teatral baiano.

No programa da TV Cultura, o ator Othon Bastos aparece narrando um depoimento de João Ubaldo Ribeiro sobre a relação desse com seu pai. E, aos poucos, vai se formando no fundo, o cenário de uma imensa biblioteca e, entra em cena, no papel do pai de Ribeiro, o ator Milhem Cortaz, que olha para Othon e fala como se ele fosse o menino João Ubaldo. Em seguida, a cena é da visita da avó do autor baiano à casa do pai dele. O programa segue com fatos da vida de João Ubaldo narrados por ele e ilustrados por fotos e imagens de vídeo de sua amizade com o cineasta Glauber Rocha. Tudo muito bem feito, com o uso do recurso da tela azul (antes chamada de cromaqui).

No que eu propus sobre outro baiano, "um grupo de teatro de Salvador vai adaptar um dos contos de Hélio Pólvora que será apresentado na forma de uma narrativa feita pelo próprio autor, integrando-se como espectador privilegiada da obra a ser mostrada em algumas cenas". Mais ou menos o que fez a TV Cultura de São Paulo, no belo trabalho do diretor Ricardo Elias.

Concluindo

As ideias nascem assim. Umas são apresentadas e vingam. Outras são apresentadas e deixadas de lado, não levadas a sério. Algumas até podem servir de inspiração, tempos depois, para uma adaptação. Na verdade as ideias estão aí. Perambulando esse espaço tão cheio de oportunidades. Foi uma pena que a TVE baiana não tenha aceitado minha proposta do tal programa. E foi uma sorte, alguém, sete anos depois, ter tido uma ideia semelhante que pode ser produzida e resultado num excelente programa. As duas ideias, a do Markun e a minha tem algo em comum, felizmente: as duas ideias trabalham com a difusão do hábito da leitura e a valorização dos nossos escritores. O resto, bem, o resto é coisa que só Jung poderia explicar. E para quem não acreditar que isso possa mesmo ter acontecido, junto algumas imagens. Assim ninguém vai achar que, nesse caso, nem Freud explicaria...



terça-feira, 18 de maio de 2010

O comércio do tempo, teatro e personagens

Esta semana li um texto do professor pernambucano Elton Bruno Soares de Siqueira sobre o diálogo no teatro contemporâneo com sua análise sobre a obra "Na solidão dos campos de algodão" de Bernard-Marie Koltès. O texto tem como objetivo analisar "a estrutura complexa do diálogo" na peça de Koltès, com "a finalidade de caracterizar a relação que se estabelece, pelo texto dramático contemporâneo, entre autor-público". O texto integral pode ser lido no link.

Na parte que antecede o final do texto, Siqueira destaca o trecho em que Koltès se refere ao ato de diplomacia. Segundo ele, "a visão que o autor tem das relações humanas é muito existencial. A diplomacia é entendida como o comércio do tempo, uma forma de retardar a violência que está latente nas relações entre homens. A troca de palavras, sintoma da diplomacia, é uma forma de ganhar tempo". Para Koltès, conforme assinala Siqueira, "não existe tolerância entre os homens, não existe comunicação efetiva, não existe nada senão a hostilidade".

Aquele diálogo aparentemente sem sentido que "Na solidão dos campos de algodão" apresenta entre o "Cliente" e o "Negociante", os personagens da peça de Koltès, me fez imaginar o que pode ter acontecido de real no recente "diálogo" entre Lula e o "presidente" Mahmoud Ahmadinejad, na recém e super festejada visita ao Irã pelo presidente brasileiro.

O Irã, que tem feito de tudo para manter seu programa nuclear em atividade, é um dos personagens de um diálogo que parece não ter sentido - e, para mim, não tem mesmo - quando quer dar caráter pacífico para o que, no fundo, tem fins bélicos, puramente hostis. Do outro lado, o restante do mundo, que defende a tese de que seria catastrófico para o mundo - o mundo todo, nós inclusive aqui no Brasil - o Irã dominar a tecnologia para fabricar armas nucleares.

Na representação teatral da semana passada, Ahmadinejad e Lula, com a co-participação do presidente turco, assinaram um pretenso acordo de que a tecnologia nuclear iraniana será apenas para uso pacífico. Lula, aos olhos de espectadores mais centrados na leitura do que de real existe naquele diálogo de entendimento e de paz, interferiu indevidamente no texto dramático que a história está registrando no momento. A diplomacia brasileira talvez não tenha se dado conta de que, como disse Koltès, o Irã assinou um acordo apenas para "ganhar tempo", iludir a audiência, enganar os espectadores e fazer com que o Brasil e o inoxidável presidente Lula faça apenas o único papel que lhe resta nessa trama internacional: o papel do bobo da corte. E esse papel, convenhamos, não cabe nem em tragédia, nem em drama, muito menos numa espetáculo épico.

O tal acordo que o Irã assinou e que, hoje, foi duramente criticado pela ONU que já anunciou o endurecimento nas represálias a serem feitas ao país dos aiatolás, é uma peça de teatro que, em momento nenhum, reservou sequer uma pontinha para o pretenso protagonismo de Lula e sua política externa descabida, infeliz e, por não dizer, absurda, por equivocada e sem sentido.

Para Koltès, para mim, e para o mundo todo, a posição do Irã, com seu jogo de cena, não passa de um mero artifício no seu papel de vilão, pois pregar a paz com o desejo de ter armas nucleares é montar um espetáculo falso já que "não existe tolerância entre os homens, não existe comunicação efetiva, não existe nada senão a hostilidade". E é para ser hostil que o Irã vestiu sua "pele de cordeiro". Sob os aplausos de Lula, o cara!