quarta-feira, 13 de julho de 2011

Por que o Brasil não tem indignados?

Fiz a tradução do texto oportuno do jornalista espanhol Juan Arias, correspondente no Brasil do jornal "El País" e que está sendo reproduzido por vários sites e blogs brasileiros.

A cobrança que Arias faz é legítima. Até porque ele, morando no Brasil, não aceita que nós sejamos cordeiros e cordatos com relação ao que a corrupção política tem trazido de malefícios para todos nós. Permitir que os políticos continuem a fazer o que fazem, que retirem de contratos e contas públicas o dinheiro que falta para a melhoria da saúde (abalada, sempre), transportes (deficiente), infraestrutura (precária), educação (abandonada), segurança (ineficaz), é assinar um atestado de burrice. Coisa que eu não sou e não assumo assim. Também não aceitarei ser chamado de conivente. E contra isso eu quero lutar ainda mais fortemente. Hoje, mais uma vez, estou deixando de publicar, aqui, um espaço para os estudos do teatro e da dramaturgia, para, como cidadão brasileiro, assinalar, aí sim, traduzir para o português o que escreveu com tamanha lucidez o jornalista Juan Arias. E minha tradução de um tema político, para mim se transformou num tema de consciência e de lucidez. Tudo o que um escritor, um estudioso da dramaturgia, tem que ter: consciência e lucidez. Para não permitir, sobretudo, que essa "nossa coletiva omissão" se transforme num atestado eterno de termos permitido, em nosso tempo, que os políticos fizessem de nossa história uma verdadeira e inaceitável tragédia.



Por que o Brasil não tem indignados?

Juan Arias – EL PAÍS – Espanha

O fato de que em apenas seis meses de governo a presidente Dilma Rousseff tenha demitido dois de seus principais ministros, herdados do governo de seu antecessor, Lula da Silva (o da Casa Civil da Presidência, Antonio Palocci, uma espécie de primeiro ministro, e o de Transportes, Alfredo Nascimento), demitidos sob os escombros da corrupção política, pode-se perguntar aos sociólogos por que neste país, onde a impunidade dos políticos corruptos tenha chegado a fazer extensiva a idéia de que “todos são uns ladrões” e que “ninguém vai para a cadeia”, não exista o fenômeno, hoje em voga em todo o mundo, do movimento dos indignados.
É que os brasileiros não sabem reagir diante da hipocrisia e falta de ética de muitos dos que os governam? É que não lhes importam que os políticos que os representam, no Governo, no Congresso, nos estados ou nos municípios, sejam descarados sabotadores do dinheiro público? Se perguntam, não poucos analistas e blogueiros políticos.
Nem sequer os jovens, trabalhadores ou estudantes têm apresentado até agora a menor reação diante da corrupção dos que os governam. Curiosamente, a mais irritada diante do assalto aos cofres públicos por parte dos políticos, parece ser a primeira presidente mulher, a ex guerrilheira Dilma Rousseff, que demonstrou publicamente seu desgosto pelo “descontrole” em andamento em áreas de seu governo. A presidente já retirou de seu governo – diz que ainda não terminou a limpeza – dois ministros chaves, com o agravante de que foram herdados de seu sucessor, o popular Lula da Silva, que lhe pedira para mantê-los no governo.
Hoje a imprensa diz que Dilma começou a desfazer-se de certa “herança maldita” de hábitos de corrupção do passado. E por que não provoca eco nas pessoas na rua, ressuscitando aqui também o movimento dos indignados? Por que não se mobilizam as redes sociais? O Brasil, depois da ditadura militar, saiu às ruas inspirado pela marcha das “Diretas já”, para pedir a volta das urnas, símbolo da democracia. Também o fez para obrigar ao ex presidente Collor a deixar seu cargo diante das acusações de corrupção que pesavam sobre ele. Mas hoje o país está calado diante da corrupção em andamento. As únicas causas capazes de levar para a rua até dois milhões de pessoas agora são os homossexuais, os seguidores das igrejas evangélicas na festa de Jesus e os que pedem a liberação da maconha.
Será que os jovens não têm motivos para exigir um Brasil não somente cada dia mais rico (ou menos pobre, pelo menos), mais desenvolvido, com maior força internacional, se não também menos corrupto em suas esferas políticas, mais justo, menos desigual, onde um vereador não ganhe até dez vezes mais que um professor e um deputado cem vezes mais, onde um cidadão comum, depois de 30 anos de trabalho, se aposente com 650 reais (400 euros), enquanto um funcionário público com até 30 mil reais (13 mil euros)?
Em breve o Brasil será a sexta maior potência econômica do mundo, mas no momento é o mesmo em desigualdade social e na defesa dos direitos humanos. Entretanto trata-se de um país onde não se permite à mulher abortar, o desemprego de pessoas de cor alcança uns 20% - contra 6% de brancos – e a polícia é uma das mais violentas do mundo.
Há quem justifique a apatia dos jovens pelo fato de que uma propaganda bem sucedida os convenceu de que agora o Brasil é invejado por todo o mundo (e é em outros aspectos). Ou que a saída da pobreza para 30 milhões de pessoas tem levado a acreditar que tudo está bem, sem compreender que um cidadão da classe média européia equivale mesmo hoje a um rico daqui.
Outros justificam pelo fato dos brasileiros serem gente pacífica, pouco dada a protestos, e que gosta de viver feliz com o que têm e que trabalha para viver, em vez de viver para trabalhar. Tudo isso também é certo, mas não se explica ainda por que, em um mundo globalizado, onde se conhece no mesmo instante tudo o que acontece no planeta, começando pelos movimentos de protesto de milhões de jovens que pedem democracia ou a acusam de estar degenerada, os brasileiros não lutem para que o país, apesar de ser mais rico, também seja mais justo, menos corrupto, mais igualitário e menos violento em todos os níveis. Assim é o Brasil que os honestos sonham deixar para seus filhos, um país onde as pessoas, no entanto, não perderam o gosto de desfrutar do pouco ou muito do que tem e que seria ainda melhor se surgisse um movimento de indignados, capaz de limpá-lo das sujeiras da corrupção que agridem todas as esferas do poder.


(tradução de Rogério Viana)


Leiam mais sobre o texto de Juan Arias, no blog do Reinaldo Azevedo, da revista VEJA.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

"Gargólios" de Gerald Thomas - uma crítica de Reinaldo Azevedo

Leia a crítica de Reinaldo Azevedo sobre a montagem "Gargólios" de Gerald Thomas. Leia neste link.


GARGÓLIOS


Gargólios é o espetáculo que a London Dry Opera Company apresenta em curta temporada em duas cidades paulistas. Até 24 de julho tem sessões no teatro do SESC Vila Mariana, em São Paulo e, nos dias 30 e 31 de julho, será a vez do Teatro do SESC Santos.
A história mostra um garoto cego, cujo nome tem origem muçulmana, e que busca um endereço em Nova York. Pergunta a várias pessoas e leva nas mãos um bilhete (referência a Samuel Beckett) e uma rosa morta (referência a Jean Genet). “Se Freud estivesse vivo, provavelmente diria que somos os nossos próprios ‘E’ (maiúsculo) piores inimigos”, diz Thomas.
Gargólios tem direção associada e de movimento de Daniella Visco, iluminação de Caetano Vilela, cenografia, figurino e objetos de cena de Jan-Eric Skevik, além de trilha sonora de John Paul Jones, que inclui solo de piano original composto especialmente para a encenação. A peça é encenada em Inglês, com legendas em português.
Com direção de Gerald Thomas, após três anos sem encenar no Brasil, este é seu segundo trabalho com a companhia londrina. Para o diretor, o espetáculo lida com aquilo que não queremos ver, mas também com aquilo que fomos antes da era dos atentados.
Gargólios
SESC Vila Mariana
Sexta e sábado, às 21h, e domingo, às18h
Tel.:             (11) 5080-3000          (11) 5080-3000  

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O bicho gordo seria um político guloso?

No livro-trip barrocodélico "Catatau" como definiu Haroldo de Campos, Paulo Leminski escreveu uma coisa que fica interessante se colocada dentro do contexto de nossa política (tem outra forma de escrevê-la tão pequena?).
No livro de 1975, Leminski traz Descartes na mesma nau de Nassau para o Recife daquela época. Com o calor e uma fumacinha saída de um certo cachimbo tupinambá, o pensamento cartesiano do ilustre visitante resultou em umas filosofadas bem atuais e provocativas. Está lá na página referida daquele livro emblemático:
"Todo bicho quer viver gordo. O homem é um bicho que quer viver por perto. Daqui não dá para ver bem mas é alguém matando um outro. O qual já morreu, mas vamos ao jurisconsulto, um dia, fez o projeto do juiz perfeito chegando à conclusão que o juiz seria tanto mais perfeito quanto mais se assemelhasse ao réu, para conhecê-lo e puni-lo com justiça. Ora, ninguém mais semelhante ao réu que ele mesmo. Assim o juiz e o réu são a mesma pessoa, que se absolvem e fazem as pazes". (página 77)
Pois é,todo bicho (corrupto é um bicho, não é?) ver mesmo viver gordo. O homem é um bicho que quer viver por perto. De onde? Das gorduras do poder, não é mesmo? E para isso ele, o bicho engraxado pelo "pudê", não se intimida a matar outro bicho mais guloso, gorduroso, insaciável. E apela-se, então, a quem? Seria injusto julgar mesmo que todas as aparências condenassem de imediato certas práticas. Assim, o jurisconsulto que criou um juiz com a mesma feição do réu, para nele estando e ele sendo, julgasse sem desconhecimento de causa. Ou de efeito, quem sabe. Na comparação, então, do guloso corrupto, digo bicho gordo, sem ofensas a Netos, primos, irmãos ou compadres, aparentados em geral, estes não se contentam em ser outro bicho gordo, eles querem ser mesmo é a gordura, esse tipo de poupança vitalícia que tantos bichos buscam, encontram, se empanturram e depois se matam para que comemorem o que sobrou do abate. Tenham a santa paciência!

O blog do Reinaldo Azevedo, da Revista VEJA publicou este mesmo comentário que fiz lá. Pode ser lido aqui.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Frases soltas que não podem ficar presas

Já atingi 121 páginas (de 208) lidas da edição de "Catatau" (Iluminuras). É um livro difícil, muito difícil de ser lido. Quando se começa a ler parece que estamos enfrentando uma aventura num deserto. Aquela aridez, tudo seco, tudo seco, incompreensível, tudo parece ser igual, tudo parece ser diferente, nada é do nosso conhecimento. Mas, assim, sem esperar, encontramos uns oásis. Não são oásis de miragem. Eles são mesmo reais na aridez daquele texto muito difícil de ser lido, muito difícil.

Assim, decidi pegar algumas frases soltas que fui encontrando dentro do aparente deserto. Estas frases não podem ficar presas, já que saíram da imaginação de um homem inquieto e muito criativo.

Paulo Leminski escreveu o que abaixo reproduzo:

Mudei muito. Dá para ver daí? Cuidado com o que não muda. Aqui fiquemos. (página 67)


Esse polaco cadê, desapareceu da minha impressão, pareço um homem sozinho. Nunca abro a boca e quando abro é para falar com fumaça? (página 67)


Todo bicho quer viver gordo. O homem é um bicho que quer viver por perto. Daqui não dá para ver bem mas é alguém matando um outro. O qual já morreu, mas vamos ao jurisconsulto, um dia, fez o projeto do juiz perfeito chegando à conclusão que o juiz seria tanto mais perfeito quanto mais se assemelhasse ao réu, para conhecê-lo e puni-lo com justiça. Ora, ninguém mais semelhante ao réu que ele mesmo. Assim o juiz e o réu são a mesma pessoa, que se absolvem e fazem as pazes. (página 77)


Aqui se fala muito, falar é viver: dizer pode ser um céu. Céu, poder falar e ser ouvido. Quem fala? Muitas vozes falam dentro da minha cabeça mas a voz, só minha. Quem fala é oposto na frente. Só ir falando, e vencendo. Trouxe o que pedi? Está perdido mas não veio ainda. O que quer que seja. O dia, um cego sonhando com um incêndio. (página 78)


Livro, já estiveste dentro de um sonho e te fiz despertar, poque o sol é melhor que o sonho! (página 84)


Boas estão por vir. Se bem que tentasse, mal e mal pudesse, salvo se soubesse. Um sujeito desconfiado - determinado objeto de suspeita, o indolente não sente dor, sente a terrível dúvida. Não procurei evitar o inevitável: alto está para ser, imediatamente, constado. Averigue um teatro, um pouco de gestos, um reto de palavras. Prevendo um sortilégio, um augúrio está previsto. Como se pode presumir, não se pode pressupor.
(página 95)


De tanto fazer tudo fazer tanto, fez-se como tanto faz, - de que tudo ou nada seria capaz? (página 100)


Obrigado, obrigado, eu mereço muito mais, mas por ora vou aceitando essas homenagens, até o limiar de tolerância do meu saco de paciência, capitão! (página 108)


Posso querer ir aí e falar isso, penso que sei mas falando substituo minha certeza pelos azares da comunicação. Falar é coisa de quem novidades tem, saber já é repetir. Levanta uma cabeça revoltada, sabendo tudo e furiosa por uma curiosidade! (página 108)


Altura altera largura, sei mais de mim que de outros mas tem muitos outros em mim, que eu não sei. (página 109)


Acaba a utilidade, fica a verdade, acaba a verdade, fica a beleza; não minta que bem conheço o contrário dessa história. (página 109)


Partam sossegados, intercederei por vós lá no céu, e apontou para o alto, donde em pleno gesto escorre o raio que o fulmina. Pratiquei com ele, comigo conjecturando: procurei, para desdouro do meu desdém... Vou ali, me suicido e já volto. Me acusaram da minha vida, reconheci. Dou uma chegada na vida, chefe, vejo como é e estou aqui amanhã ao meio dia sem falta para dizer como é que se mata. (página 113)


Ele, a terceira parte da trindade, hoje dupla caipira. (página 115)


Mais carinho, trata-se do mundo, uma máquina cuja peça principal é minha cabeça! (página 116)


Para cada bicho de sete cabeças, tem sete sem nenhuma, assim como lamentavelmente nenhuma à procura de um bicho. (página 117)


Inspirando-me algumas palavras, depois das palavras de Leminski, saiu esta frase, com um certo sabor de desabafo, na forma de um desafio, provocação:

Prefiro errar com minhas vírgulas, que acertar com seus pontos finais.

Pois é.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Mijando depois de ler Leminski

Tomado por uma febre, talvez um calor provocativo, fui conferir letra a letra o tal controverso "Catatau". Muitos falaram ser o livro ilegível. Não é, apresso-me a dizer. Dá para ler, sim. Afinal está escrito em português e em outras línguas, também. O latim, por exemplo. Este, claro, não consigo entender, mas há algumas frases que parecem soar conhecidas. Há outras frases em batavo antigo (o holandês de antigamente). Há frases em francês. Outras em "leminskês". Aí a gente tem que aceitar o jogo e seguir em frente. Se é para entrar no jogo, com o livro aberto, tem que ter a mente aberta para pelejar com Leminski e o desafio que ele nos impõe. É a regra não ter regra. E seguir em frente é ganhar, mesmo sentindo-se perdido entre aquela florafauna de seres que se materializam como vocábulos, as tais palavras. Junção de letras, com ou sem sentido.

Um dia destes vi, num vídeo, um programa da OTV onde o jornalista Fernando Parracho falava sobre Leminski e sua obra com Sandra Novaes, professora da UFPR, com Paulo Teixeira, músico dos grupos A Chave e Blindagem e com o livreiro Aramis Chain. A professora Sandra, que escreveu uma tese de doutorado sobre a obra de Leminski , ao começar a falar teve um branco e perdeu-se na resposta. Ela riu, ficou sem jeito. Coisas, claro, que só Leminski mesmo poderia provocar em tão douta professora. O músico, um velho roqueiro das antigas, um rólingstones curitibano, contou alguns lances do Leminski quando este fez letras para músicas para os roqueiros de sua época e para outros cantores também. Amigo do Leminski, Chain disse que conheceu o poeta num dia de grande tristeza: Miguel, filho de Leminski com Alice Ruiz estava muito doente, de câncer, aos 10 anos, no Hospital das Clínicas da UFPR. Sobre a obra "Catatau", Sandra Novaes sintetizou dizendo que era um livro de "ditados, de provérbios" onde Leminski promoveu uma releitura deles e contou qual teria sido a visão de Descartes ao visitar o país que todos conhecemos.


Sandra Novaes também disse que Leminski é um autor "ignorado pela academia" e que conhece, em 30 anos na UFPR, poucos professores que estudam ou promovem leituras de textos do autor de "Catatau". Para ela a obra de Leminski precisa ser muito mais conhecida, lida, do que falada. Fala-se mais de Leminski, do personagem que ele foi, do que das obras que efetivamente foram produzidas e publicadas, boa parte somente viraram livros depois de sua morte, prematuramente, em 7 de junho de 1989.

E mesmo sendo um livro de "frases, de ditados e provérbios", temeria dizer que  "Catatau" é um livro onde Leminski brincou com a linguagem, juntando "frases", modificando-as, criando outras em cima, invertendo, traindo versões originais, traduzindo para seu jeito frases feitas, outras não feitas como poderia ser, mas, ao final (ah, ainda estou na página 63) e até onde estou ele não narra uma fábula, mas sim, explode em mil ideias, ou reflexões, ou rumina o que poderia ter ruminado, filosoficamente, o Descartes. Tudo até onde li é desconexo, até sem nexo. Mas a sequência de frases nos faz seguir adiante - estou indo. Há, claro, quem não conseguiu ler mais que 41 linhas de uma página, todas escritas num fluxo só, sem os tradicionais parágrafos. Há muitos trocadilhos. Lemas que viram temas. Leminski adora brincar com o som das palavras e se diverte com assonâncias e aliterações. Brinca e goza com o som das palavras e se afunda na descoberta, na citação ou na invenção de termos. Daí ser muito rica sua prosa que é pura poesia, demência lúcida, e uma tresloucada aventura hipotética onde a hipotenusa nada tem a ver com o cateto, a não ser com a anta, a preguiça (o bicho), o tatu e o tamanduá, todos eles presentes no que vai desbravando da floresta tropical invadida pelos batavos em sua aventura tropicalíssima em terras pernambucanas.

Recortei algumas frases - claro, frases soltas, sem o nexo que o polaco quis dar a elas - e fui assinalando as que julguei ter algum interesse para reflexões posteriores, claro. Vai uma:

"Eu me chamo Procurado, muitos me têm procurado, poucos me têm achado. Eu estarei à sua direita, fazendo sinal. Sou o facho que atrai todos os olhares na escuridão das frases. Eu crio seres".

Não vou inferir nada sobre o que estou colando aqui. Depois, talvez eu faça um resumo do que colei (no caso, colar, de copiar, de citar). Deverá servir para alguma coisa. Ou não.

Vai outra, mas vou pegar um pouco mais, na viagem que Leminski faz:

"Letras me nutriram desde a infância, mamei nos compêndios e me abeberei das noções das nações. Consultei índices e consultei episódios. Desatei o nó das atas, manuseei manuais e vasculhei tomos. Olho no turno e diurno, palmilhei as letras em estradas: tropecei nas vírgulas, caí no abismo das reticências, jazi nos cárceres dos parênteses, rolei a mó das maiúsculas, emagreci o nó górdio das interrogações, o florete das exclamações me transpassou, enchi de calos a mão fidalga torcendo páginas. Em decifrar enigmas, fui Édipo; em rolar cogitações, Sísito (*), em multiplicar folhas pelo ar, outono. Frequentei guerras e arraiais; assíduo no adro das basílicas, cruzei mares, pisei o pau dos navios, o mármore dos paços e a cabeça das cobras. Estou com Parmênides, fluo com Heráclito, transcendo com Platão, gozo com Epicuro, privo-me estoicamente, duvido com Pirro e creio em Tertuliano, porque é mais absurdo. Lanterna à mão, bati à porta dos volumes mendigando-lhes o senso. E na noite escura das bibliotecas iluminava-me o céu a luz dos asteriscos." (...)
(página 30 da edição da Iluminuras de 2010)

Lá na página 51, perto do meio dessa, ele escreve:

"Eis o que é isso: cada eu tem jeito particular de se arranjar para não dizer nada."

Na página 60, vem Leminski com:

"Eu cometo hipóteses. Trabalho com hipóteses. Fabrico hipóteses. Façamos uma hipótese, por exemplo, este livro. Eu não estou ouvindo música, é outra coisa que está acontecendo. Signos evidentes por si mesmos, por incrível que cresça e apareça, multiplicai-vos! Creio em um sinal. Ei-lo. Não me lembro bem. Distraio-me. Perco os sentidos, ganhos os dados. Deus não já passou. Perdeu-se no fim. Aqui. Voltei. Disse que voltava pronto. Cá estou. O resto, salário do silêncio, o mistério, - um segredo óbvio. Eu, contemporâneo do meu fantasma, olho-me no espelho e vejo nada. Submeto-me a isso. A percepção. Não voltarei aqui. Me percebo. Triunfam. Tudo é claro, estou compreendendo.. Atenção. Quero a liberdade de minha linguagem. Vire-se. Independência ou silêncio. As Núpcias da Essência e da existência. Vir a ser é assim. Oração para chamar o minotauro, silogismo para pegar no sono. Que tal a fala, que tal você falando? Dizendo o que não sei, ouvindo o que estou cansado de saber? Quer ser eu? Para quê? O que é que vai fazer comigo? Ficar assim? Comunico. Vou embora. Tudo vai embora comigo. Tudo vai ficar sozinho. Mudar de rumo no meio. Alteração permitida. De novo, o espelho. A lei da atração dos espelhos me fixa aqui. Regra dos sólidos". (...)

E para finalizar, até onde estou, colo o que aparece quase no quarto final da página 61:

"Incenso nas ideias! Virtude é questão de fraqueza, forma é questão de fraqueza, a forma é a arte dos fracos."

Estou podendo perceber que entre frases, algumas soltas, aparentemente sem sentido, nexo ou consistência, Leminski provoca ao inserir na aparente balbúrdia, no palavrório aparentado da insanidade, algo com muita lucidez. Precisão. Cartesiano, como dizem alguns. Faz um corte. Cirúrgico. A homeopatia da brincadeira e gozação ele faz entre as frases, antes ou depois das vírgulas. E em tudo ele relata, cita, mostra, evidencia uma eterna preocupação: a linguagem, é a que vale. É a que ele preza e dá valor. E, na frase final, acima que citei, ele sentencia algo forte contra a forma: "a forma é a arte dos fracos". Assim, inventa um "Catatau" que ganha o apelido ou o reforço de uma explicação prévia de que se trata de um "romance-ideia". Não é romance e não é ideia, claro. E é romance e é ideia, sendo o que mesmo? Linguagem. Linguagem.

E é no campo da linguagem que, felizmente, creio eu, quis brincar e provocar com meu texto "O dia em que morreu Leminski". Sim, o dia em que morreu aquele "polaco loco paca" que deixou de ser poeta (e outras tantas coisas) para virar poesia. E dar nó (ele adorava a figura do Nó Górdio) em nossas cabeças. Na minha fez tóin... e na de vocês?

Na benevolente repugância de Leminski, ele diz e eu reforço, a seguir:

"Me nego a ministrar clareiras para a inteligência deste catatau que, por oito anos, agora, passou muito bem sem mapas. Virem-se"

O que escrevi, está escrito. Agora é com vocês. Afinal, como Leminski nos ensina, "mapa não é território" (ele escreveu isto de outro jeito) e cada um segue seu destino pelo caminho que desejar. Afinal, todos nós queremos chegar no mesmo lugar. E só a linguagem nos permitirá atingir este objetivo tão impreciso quanto necessário. A minha linguagem se completou. E vai ser mais evidente com a linguagem de cada um de vocês: o diretor Léo, os atores Felipe e Val, a atriz Nai, o cenógrafo Varlei, o iluminador Raul, o músico Gabriel. E o bando de loucos que tiver coragem de por dinheiro nesta aventura de fazer reviver, não o Leminski, mas uma ínfima parte de seu delicioso espírito.

Enquanto fazia o que vai aparecer óbvio demais nesta manhã, ocorreu-me esta frase.

Estou inchado de ideias, fedendo a novidades. O que eu faço? Mijo!


(*) Seria Sísifo? Ou foi outra brincadeira de Leminski, ou erro na digitação que também passou pelo erro da revisão. Mas como saber?

terça-feira, 28 de junho de 2011

Edifício Amor, uma comédia quase romântica

Edifício Amor, uma comédia escrita e dirigida por Pagu Leal

Danilo Avelleda apresenta “Edifício Amor”, uma comédia “quase romântica” e escrita e dirigida por Pagu Leal. Esta peça foi montada pela primeira vez em 2004 e agora conta com o incentivo do Edital de Mecenato Subsidiado de 2010. O texto tem como pano de fundo uma pesquisa realizada pela autora, Pagu Leal, sobre o amor e sua construção no Ocidente: como ele foi contado, analisado e inventado pela tradição amorosa. Um inventario que vem desde o “Banquete” de Platão, que passa pelas elegias romanas, pelas novelas de cavalaria, pelo romantismo alemão e chega aos dias de hoje, com o amor que é cantado pela nossa MPB. O amor que se construiu como um sentimento de incompletude. Este amor que vem, ao longo da história, acompanhado de dor. O amor paradoxal que nos faz feliz, e também, nos faz sofrer. Como nos explica Diotima no Banquete de Platão “O amor é filho da miséria e da fartura, está sempre com fome, mas sempre arruma o que comer.”
Essa nova montagem conta com a participação de Danilo Avelleda, que interpreta o grande arquiteto Longevo e marca o retorno de Silvia Monteiro como atriz, depois de 6 anos atuando como dramaturga e diretora. O elenco ainda conta com a interpretação de Luiz Carlos Pazello, Mevelyn Gonçalves e Juscelino Zílio.

A história da peça Edifício Amor” começa na noite da mudança de Cândida para o Amor. Nefelibata, um velho compositor aposentado, apossou-se do terraço e de lá observa atentamente os outros moradores por suas janelas íntimas, bebe whisky e fala de sua antiga paixão, Amália. Esta, uma escritora que há mais de vinte anos, pôs fim a sua vida em um dos apartamentos deste prédio. Eventualmente, o gênio da mecatrônica Gentil vai visitá-lo neste terraço e com ele, tabula conversas sobre sua platônica paixão por Solicitude, a enfermeira e esposa de Longevo, o idealizador do Amor. Nesta noite Solicitude sobe ao terraço a procura de Gentil. Está muito assustada, pois viu luz no apartamento da suicida Amália.  Solicitude ama Gentil, mas não pode abandonar seu marido Longevo, ancião doente que não fala há mais de dez anos. Enquanto isso, Pitosga, a sindica cega do prédio, procura seu cão Petit que foge do apartamento sempre que pode, com a intenção de fazer Pitosga passear.  Petit, em suas fugas, sempre acaba na lixeira do prédio, onde mora uma gata cruel, que desenvolveu com ele, ao longo de muitos anos, uma relação de amor e ódio.  A luz misteriosa no apartamento de Amália é a vela de Cândida, a nova e misteriosa moradora do Amor.  Mal sabem eles que depois desta noite, este Edifício e seus moradores, jamais serão os mesmos.


Ficha Técnica
Dramaturgia e Direção: Pagu Leal
Direção de Produção: Mevelyn Gonçalves e Juscelino Zílio
Elenco: Danilo Avelleda, Silvia Monteiro. Luiz Carlos Pazello, Mevelyn Gonçalves e Juscelino Zílio
Cenário: Cleverson Oliveira
Figurinos: Ricardo Garanhani
Iluminação: Nadja Naira
Maquiagem e caracterização: Marcelino de Miranda
Sonoplastia e trilha sonora: Cleber Hidalgo e JR Pereira

Serviço
Local: Teatro Barracão EnCena – Rua Treze de Maio, 160 – Centro (próximo ao Teatro Guaíra)
Temporada: de 01 a 31 de julho / quarta a sábado, às 21 horas e domingos, às 19 horas
Ingressos: R$ 20,00 inteira / R$ 10,00 meia entrada / R$ 5,00 preço especial para estudantes da rede pública de ensino.
Gênero: Comédia
Classificação: 14 anos
Duração: 70 minutos

Danilo Avelleda, Juscelino Zilio, Mevelyn Gonçalves, Sílvia Monteiro e
 Luiz Carlos Pazello do elenco de "Edifício Amor", de Pagu Leal

Sinopse

“Edifício Amor” é uma comédia que conta a história de um pequeno e antigo edifício chamado Amor. O Amor fica situado no coração de uma grande cidade. Foi planejado pelo grande arquiteto Longevo e teve seus áureos dias, quando tudo em volta, pessoas e cidade eram outros. Hoje, a localização é perigosa. Pressionado por prédios e arranha céus mais altos e modernos, o Amor resiste. Neste prédio habitam nove moradores que amam de maneiras específicas objetos distintos: o amor a alguém que não está, aos animais, às máquinas, a alguém impossível. Os moradores do Amor são: Nefelibata, Pitosga, Gentil, Solicitude, Longevo, Petit, Gata e Amália. Trazem em seus nomes suas qualidades e, também, o contrário destas qualidades.  Aquilo que é virtude vira defeito e vice e versa. A história se passa na noite em que Cândida muda-se para o Edifício Amor e essa nova moradora, vai mudar a vida de todos para sempre.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O direito de me sentir campeão

Em 9 de março de 2011, em frente ao estádio "Urbano Caldeira"
vestindo, pela primeira vez, uma camisa do Santos comprada de um camelô.
Ontem a noite uma alegria imensa me fez lembrar sentimentos vividos na minha infância, adolescência, quando, pelas ondas do rádio, ouvia no interior do Paraná, na cidade de Paranavaí, as vitórias e conquistas da equipe do Santos Futebol Clube e o surgimento de um ídolo imortal, um certo Edson Arantes do Nascimento, aquele que sempre foi Pelé. Ontem, vestido com a camisa do Santos, vi-me no direito de me sentir campeão. 
Ontem, com a vitória de 2 a 1 sobre o Peñarol, do Uruguai, no Pacaembu, o Santos conquistou seu terceiro título da Copa Libertadores da América. Novos ídolos estavam em campo e, distante, diante da tela de um televisor, eu vivia emoções bem maduras e tão gostosas quanto as vividas ao longo dos meus mais de 50 anos como efetivo torcedor do Santos Futebol Clube.
Minha história com o Santos
Nasci em Santos, só nasci. No ano de 1948, no dia 17 de outubro. Estive lá em Santos, na praia do Embaré, na infância e adolescência, poucas vezes, em visitas a meus avós, tias, tios e muitas primas e primos. Quando eu ia a Santos, nos idos dos anos 50 e 60, nunca consegui assistir a um jogo de futebol do Santos na famosa Vila Belmiro. Sempre era época de férias e não havia jogos de futebol. 
Só fui ver o Santos, o grande time de Pelé, quando já era adulto - no começo dos anos 70 - quando fui morar em Piracicaba. E a primeira vez que vi o Santos - em 25 de julho de 1970 - foi numa memorável partida no Pacaembu, quando a equipe santista derrotou, de virada, a equipe da Portuguesa, com um gol de Pelé, o gol de número 1034 e que está entre os mais bonitos feitos pelo nosso imortal "Rei do Futebol". Vi, já adulto, como jornalista, o Santos jogar outras vezes. E sempre foi contra a Portuguesa e sempre em São Paulo. Em Piracicaba, vi vários jogos do Santos, mas era contra o time do XV de Piracicaba, o que, este ano, conseguiu ser campeão da Série B do Campeonato Paulista e, em 2012, voltará para a chamada elite do futebol de São Paulo.
Trabalhando como jornalista e dentro do estádio do Morumbi, em 26 de agosto de 1973 (domingo), assisti ao famoso jogo da decisão do Campeonato Paulista, contra quem? Contra o Portuguesa, lógico! Foi aquele jogo que terminou empatado e que levou a decisão para os pênaltis. O Santos vencia nos pênaltis e, ao marcar o seu último gol, o árbitro Armando Marques, não contou direito os pênaltis batidos e encerrou a cobrança. Faltava mais um pênalti para a Portuguesa, mas o Santos, pela decisão do árbitro, comemorou a conquista do título. Eu estava lá, como jornalista e, óbvio, como torcedor correndo com minha máquina fotográfica para pegar os melhores ângulos da comemoração santista. Saí do estádio e, já a caminho de Piracicaba, ouvi no rádio do carro que a Federação Paulista de Futebol havia decidido declarar campeões o Santos e a Portuguesa pelo erro do árbitro Armando Rosa da Castanheira Marques. Coisas do futebol
Pela primeira vez na Vila Belmiro vendo o Santos
Atrás do gol, na Vila Belmiro, vendo dois golaços do Neymar contra a Lusa
Este ano, dia 9 de março, às 21 horas, na "quarta feira de Cinzas", estava em Santos, visitando amigos e fui, pela primeira vez, ao estádio "Urbano Caldeira",o famoso estádio da Vila Belmiro, para assistir um jogo do Santos. E, a coincidência se repetiu: de novo eu vi o Santos enfrentar, pelo campeonato paulista, o time da Portuguesa de Desportes. Claro, foi vitória do Santos por 3 a 0 e um show do Neymar com dois golaços e outro do lateral Léo. E, pela primeira vez, eu entrava, também, num estádio, para ver meu time jogar em Santos - minha cidade natal - e vestindo a camisa santista.
História do Hino:
Em toda a sua história, O Santos Futebol Clube contou com duas músicas que simbolizam o clube: a marchinha Leão do Mar (Agora quem dá a bola…) e o Hino Oficial do Clube (Sou alvinegro da Vila Belmiro,…).
A marchinha Leão do Mar foi composta por Mangeri Neto e Mangeri Sobrinho e foi cantada a primeira vez após a vitória do Campeonato Paulista de 1955, quando foi quebrado o jejum de 20 anos sem títulos do Santos FC. 
O hino do clube é de autoria de Carlos Henrique Paganeto Roma (ex-conselheiro do clube e filho do ex-presidente Modesto Roma) e foi escrito em 1957. Porém, o Conselho Deliberativo do clube só homologou o hino oficial em 11 de julho de 1996, através de propositura do conselheiro Júlio Teixeira Nunes.

Hino Popular:

Agora quem dá bola é o Santos
O Santos é o novo campeão
Glorioso alvinegro praiano
Campeão absoluto desse ano
Santos, Santos sempre Santos
Dentro ou fora do alçapão
Jogue o que jogar
És o leão do mar
Salve o nosso campeão

Hino Oficial:

Sou alvinegro da Vila Belmiro
O Santos vive no meu coração
É o motivo de todo o meu riso
De minhas lágrimas e emoção
Sua bandeira no mastro é a história
De um passado e um presente só de glórias
Nascer, viver e no Santos morrer
É um orgulho que nem todos podem ter
No Santos pratica-se o esporte
Com dignidade e com fervor
Seja qual for a sua sorte
De vencido ou vencedor
Com técnica e disciplina
Dando o sangue com amor
Pela bandeira que ensina
Lutar com fé e com ardor

O Clube:

Santos Futebol Clube
Santos – SP – Brasil
http://www.santosfc.com.br/