Logo que eu nasci morria minha prima Berenice. Não é ficção é mesmo verdade. A morte daquela minha prima que eu não conheci - nem foto dela eu vi - sempre, para mim, foi envolta num mistério. Filha mais velha de uma das irmãs mais velhas de minha mãe - essa tia ainda é viva, tem mais de 90 anos e mora em Santos - Berenice sempre foi um nome que, vez ou outra, aparecia. Não sei por que razão, sempre, sem eu perceber, o nome dela surgia. Conheci algumas Berenices. Uma delas, nos anos 70, em Piracicaba, era uma coreógrafa e atriz. Uma mulher com uma beleza misteriosa. Um tipo pálido, frágil. Mas ela era uma coreógrafa com umas ideias bem interessantes. Pude acompanhar alguns dos seus trabalhos. Mas há anos não tenho notícias dela. Outras Berenices passaram por minha vida, mas nenhuma deixou lembranças mais fortes.
Em 2010, tive contato pela primeira vez com o conto BERENICE, de Edgar Allan Poe. Aqui, abaixo, dois links onde o conto pode ser lido. Poe, fez sua Berenice - ela e seu primo - personagens muito especiais por terem vivido algo muito assustador.
Berenice, para quem for um leitor atento, andou "assustando" muito seriamente a uma certa pessoa do meio teatral de Curitiba. E essa mesma pessoa não gosta - pelo que percebi - nem de ouvir o nome Berenice. A mim, também, essa prima que morreu criança e a quem não conheci, sempre me provocou sentimentos estranhos. Difíceis de explicar. Se é possível explicar sentimentos estranhos.
Bem... Em um episódio que encerrei esta semana, até por força de ter-me referido a alguém com mais veemência, falando de um tipo de omissão que esse alguém praticou, eu escrevi que não era a Berenice e que não podia "assustar" ou "aterrorizar" alguém. Eu não sou Berenice, sou apenas o seu primo. Não aquele do conto, mas o primo da Berenice real que, sentindo-se ferido por uma omissão imperdoável - num jogo de cena digno de um folhetim barato e mal escrito - como tal tinha que dar um ponto final numa pendência.
E, agora, com a publicação de parte desse conto, considero terminada o que estava pendente. Coloco o acontecido numa conta de "perdas", vai para o prego do "prejuízo". E, aqui, termina essa história. E cujo conto tem como início o seguinte:
BERENICE - Edgar Allan Poe
Desgraça é variada. O infortúnio da terra é multiforme. Estendendo-se pelo vasto horizonte, como o arco-íris, suas cores são como as deste, variadas, distintas e, contudo, intimamente misturadas. Estendendo-se pelo vasto horizonte, como o arco-íris! Como é que, da beleza, derivei eu um exemplo de feiúra? Da aliança da paz, um símile de tristeza? Mas é que, assim como na ética o mal é uma conseqüência do bem, igualmente, na realidade, da alegria nasce a tristeza. Ou a lembrança da felicidade passada é a angústia de hoje, ou as agonias que existem agora têm sua origem nos êxtases que podiam ter existido
(...)
O texto completo pode ser lido em duas versões.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
domingo, 18 de dezembro de 2011
Cena Hum comemora seus 16 anos e lança livro
| Livro conta sobre os 16 anos da Cena Hum |
Inaugurada em 18 de dezembro de 1995, em Curitiba-PR, a Cena Hum – Academia de Artes Cênicas é uma empresa criada para desenvolver atividades na área das Artes Cênicas, ou seja: Teatro, Dança, Circo e Ópera. Um espaço aberto às investigações artísticas com a missão de promover e divulgar a pesquisa das artes cênicas e contribuir para uma prática ética, orientada para a transformação social através da arte e comprometida com a melhoria da qualidade de vida de nossa sociedade.
Assim, a Cena Hum revoluciona o perfil das atividades teatrais ao ser pioneira em muitos projetos:
Primeira escola particular de teatro no Paraná;
Primeira a ofertar oficinas para crianças e adolescentes;
Primeira a promover um curso visando a profissionalização do ator;
Primeira a ofertar cursos voltados para deficientes auditivos;
Produção Didática e Produção Artística
A Cena Hum vem realizando, em média, 60 espetáculos e dezenas de eventos por ano. Recebeu inúmeros prêmios e troféus em sua história, destacando-se pelaqualidade de suas montagens teatrais, como também pela especializada equipe de instrutores que desenvolve suas atividades. Desde o primeiro ano de existência a Cena Hum já realizou:
Cerca de 400 montagens teatrais (provas públicas) dos cursos de teatro;
13 espetáculos de caráter profissional da Companhia Cena Hum.
Centenas de cursos, performances, Mostras e eventos.
Assim, a Cena Hum revoluciona o perfil das atividades teatrais ao ser pioneira em muitos projetos:
Primeira escola particular de teatro no Paraná;
Primeira a ofertar oficinas para crianças e adolescentes;
Primeira a promover um curso visando a profissionalização do ator;
Primeira a ofertar cursos voltados para deficientes auditivos;
Produção Didática e Produção Artística
A Cena Hum vem realizando, em média, 60 espetáculos e dezenas de eventos por ano. Recebeu inúmeros prêmios e troféus em sua história, destacando-se pelaqualidade de suas montagens teatrais, como também pela especializada equipe de instrutores que desenvolve suas atividades. Desde o primeiro ano de existência a Cena Hum já realizou:
Cerca de 400 montagens teatrais (provas públicas) dos cursos de teatro;
13 espetáculos de caráter profissional da Companhia Cena Hum.
Centenas de cursos, performances, Mostras e eventos.
O lançamento do livro será no Espaço Cult, à rua Dr. Claudino dos Santos, 72, São Francisco, em Curitiba - PR
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
Da "pá virada"
Há tempos eu estava querendo confirmar se o autor do livro encomendado “A Privataria Tucana” era filho de um antigo conhecido meu - nos idos de 1968-69. Hoje, finalmente, confirmei.
Sim, é filho de um ex-professor e ex-delegado de Ensino na cidade de Loanda, interior do Paraná. Eu conheci o Júnior, em 1968, quando ele era um menino de seis anos. Em 1969, acompanhei seu pai numa viagem a Londrina para ver uma feira agropecuária. Antes, passamos por Cambé, onde morava seu avô, pai de sua mãe. Hoje, vendo as fotos do Amaury Ribeiro Junior, lembrou-me muito seu pai, Amaury Martins Ribeiro.
Na época a família morava na cidade de Santa Cruz do Monte Castelo, vizinha a Loanda, no noroeste do Estado do Paraná, muito próximo do rio Paraná e o Mato Grosso do Sul. A família Martins Ribeiro, no final dos anos 70 mudou-se para Campo Grande, onde montaram um restaurante. Não tive mais contato com o Amaury pai, mas seu filho é muito parecido com ele naqueles idos do final dos anos 1960.
Estou escrevendo isso apenas para informar sobre as origens familiares desse jornalista que, acredito, infelizmente, não deve agradar, com seu comportamento e as escolhas que tem feito, à sua família. Sim, ele é um premiado jornalista, ganhador de dois prêmio Esso. Sim, investigou crimes e até foi baleado num episódio no entorno de Brasília.
Mas pelos caminhos que ultimamente ele tem trilhado, pelas confusões em que se meteu, pela gente com a qual ele trabalha e defende e pelo modo como faz acusações, infelizmente eu não reconheceria nele, a figura do seu pai, um homem afável, um pouco agitado eu me lembro, mas como a gente diria à época, um “boa praça”.
Como jornalista e como pessoa a gente sempre faz escolhas. Mas já faz tempo em que ser isento, não tomar partido, era típico no comportamento dos jornalistas. Claro, não falo na postura dos donos de jornais, mas dos jornalistas mesmo. Aqui, lembrando o pai do autor desse livro polêmico, por ter cara de ter sido não só encomendado, mas financiado por aliados e pelo próprio PT, lamento muito que ele tenha feito escolhas que eu, como jornalista, como pai, como cidadão não teria coragem de fazer. Que me desculpe o pai dele, mas o Júnior não é um “boa praça”. Como dizíamos também naquela época, o Júnior é da “pá virada”.
Reconheço, também, que na política não há "santos". Mas os pecados cometidos pelo pessoal do PT e sua base aliada, meu Deus do Céu! Infelizmente aquele menino moreninho e meio gordinho que eu conheci, há mais de 40 anos, bandeou-se para um lado não muito "santo" de nossa política. Infelizmente.
Aqui, retorno, como jornalista, como escritor, para relatar um causo. O causo de um menino, do menino que conheci, que, hoje, aos meus olhos, é um menino da "pá virada".
Uma roda, uma ciranda de mal entendidos.
Alguns personagens, ao seu tempo, antecipam certas falas que, em um outro momento, num tempo futuro - o futuro é hoje onde vivo - são réplicas necessárias, mesmo quando foram declaradas em um tempo já passado. Em abril de 2010, num final de semana, surgiram os personagens Anália, Matheus e Ricardo. Eles estão na peça "Da palavra não dita à palavra mal dita". Não são apenas um jogo dramatúrgico. Poderiam ser - quem sabe - a expressão de algo verdadeiro e real. Mas não era, nem foram assim. Poderia ter sido e são, hoje, nesta manhã, neste começo de um novo fim de semana, a condição que tenho para responder a personagens reais usando a boca, a expressão e a alma de personagens que esses - sim, esses mesmos inspiradores personagens reais - inspiraram de fato.
Vale aqui citar uma frase de Jorge Luis Borges e que, talvez, adaptando o termo "conto" por ele usado por "teatro" poderemos brincar com essa mistura de realidade e ficção, de verdade e mentira. Diz Borges:
"Se os personagens de um conto (teatro) podem ser leitores ou espectadores, então nós, seus leitores e espectadores, podemos ser fictícios".
Muitas vezes a voz que narra não é a voz do autor. Pode ser que a voz do autor seja, de verdade, a voz do personagem que narra. Mas até que ponto a voz do personagem atinge (e contamina, influencia) a voz do autor? Ou a voz do personagem já sai marcada por uma influência que o autor, por sua vez, não identifica em si próprio de onde e porque ela sai assim.
Em "Da palavra não dita à palavra mal dita", Anália, Matheus e Ricardo, instâncias de si mesmos em expressões de possíveis seres reais, exercitam uma troca de vozes. Uma quase suruba verbal, numa roda, ciranda de mal entendidos. De agressões, provocações, dedo na cara, repulsa e atração. Há vozes neles que aparecem contaminando (desvirtuando, comprometendo, interferindo) suas próprias vozes, ao passado que outras vozes também sofrem um desvirtuamento comprometedor. Mas, no resumo, na síntese de tudo isso, vozes que são o que não aparentam ser, são apenas vozes e nada mais. Ou seriam algo mais? Vejamos então:
Na cena A IMPROVÁVEL TROCA, está assim:
(...)
Matheus – Sua voz é sua mesmo, ou é de quem?
Anália – Acha justo falar pelos outros, ou com a voz dos outros, não evidenciando sua própria voz?
Ricardo – Aqui quem faz perguntas sou eu...
Matheus – É sua voz agora?
Anália – Está se escondendo. Ocultando sua própria voz?
Ricardo – Aqui quem pergunta sou eu... Que voz? Vocês estão ouvindo alguma outra voz que não a minha? Naquele lugar distante ele olhou para seu próprio umbigo e queixou-se: ainda aqui? Por onde você tem andado? Precisa se apressar. Já é quase de manhã...
Matheus – Dito e feito. Mudou de voz. Mudou, claro que mudou. Uso indevido de outra voz.
Anália – Não tem o mesmo timbre que a sua voz. Outro feitio, outro timbre, tom, cor. Você atravessa assim, sempre?
Matheus – Como permite isso? Como usa uma voz proibida? Aqui, no processo, é algo muito grave.
Ricardo – A voz que fala não é a voz que pensa. A que pensa é muda. A que vê é cega. A que fala, não ouve. A que comanda, está surda. Cegos, surdos e mudos. Em cada vez, em cada ação. Pensar é agir? Não! Falar é agir? Ação é palavra? E a palavra, onde fica? Respondam! Ainda bem que você me acordou. Tinha perdido completamente a noção do tempo. Foi tão bom estar aqui. Vendo seu corpo, sentindo seu perfume. A maciez de sua pele. Sua bunda...
Matheus – Mesmo assim, é uma afronta confundir isso aqui. Você não tem o direito de se por em defesa de quem não pediu sua ajuda. É uma intromissão inominável.
Anália – É um total descaramento, usar essa máscara... Ainda mais com tantas vozes diferentes.
Ricardo – Quero que vocês respondam. Ninguém aqui, agora, aqui, no presente instante, pode furtar-se a não ser o que é, nem a falar o que não deve, e não deve, em hipótese nenhuma, confundir-se com o que está bastante claro. Minha querida, minha querida. Seu cheiro está em meus dedos... Que gostoso é seu gosto.
Matheus – No primeiro depoimento você escreveu que era um rei de si mesmo, seu próprio lacaio e que se julgava Deus. Pode explicar?
Anália – Você ouve vozes? Dá ouvido a elas? Dá vez a elas? Vez e voz?
Ricardo – Cala a sua boca! Você não sabe o que diz. Como posso esquecer o que você fez a noite toda? Nem senti o tempo passar.
Matheus – Que porra de audácia é essa? Manda calar a boca assim, numa boa? Ponha-se no seu lugar, seu filho da puta bastardo!
(...)
Então tá! Fica assim, o dito pelo não dito. Mas a palavra final, não a minha, mas a que empresto do personagem Matheus é o que eu assumo e tenho dito!
Vale aqui citar uma frase de Jorge Luis Borges e que, talvez, adaptando o termo "conto" por ele usado por "teatro" poderemos brincar com essa mistura de realidade e ficção, de verdade e mentira. Diz Borges:
"Se os personagens de um conto (teatro) podem ser leitores ou espectadores, então nós, seus leitores e espectadores, podemos ser fictícios".
Muitas vezes a voz que narra não é a voz do autor. Pode ser que a voz do autor seja, de verdade, a voz do personagem que narra. Mas até que ponto a voz do personagem atinge (e contamina, influencia) a voz do autor? Ou a voz do personagem já sai marcada por uma influência que o autor, por sua vez, não identifica em si próprio de onde e porque ela sai assim.
Em "Da palavra não dita à palavra mal dita", Anália, Matheus e Ricardo, instâncias de si mesmos em expressões de possíveis seres reais, exercitam uma troca de vozes. Uma quase suruba verbal, numa roda, ciranda de mal entendidos. De agressões, provocações, dedo na cara, repulsa e atração. Há vozes neles que aparecem contaminando (desvirtuando, comprometendo, interferindo) suas próprias vozes, ao passado que outras vozes também sofrem um desvirtuamento comprometedor. Mas, no resumo, na síntese de tudo isso, vozes que são o que não aparentam ser, são apenas vozes e nada mais. Ou seriam algo mais? Vejamos então:
Na cena A IMPROVÁVEL TROCA, está assim:
(...)
Matheus – Sua voz é sua mesmo, ou é de quem?
Anália – Acha justo falar pelos outros, ou com a voz dos outros, não evidenciando sua própria voz?
Ricardo – Aqui quem faz perguntas sou eu...
Matheus – É sua voz agora?
Anália – Está se escondendo. Ocultando sua própria voz?
Ricardo – Aqui quem pergunta sou eu... Que voz? Vocês estão ouvindo alguma outra voz que não a minha? Naquele lugar distante ele olhou para seu próprio umbigo e queixou-se: ainda aqui? Por onde você tem andado? Precisa se apressar. Já é quase de manhã...
Matheus – Dito e feito. Mudou de voz. Mudou, claro que mudou. Uso indevido de outra voz.
Anália – Não tem o mesmo timbre que a sua voz. Outro feitio, outro timbre, tom, cor. Você atravessa assim, sempre?
Matheus – Como permite isso? Como usa uma voz proibida? Aqui, no processo, é algo muito grave.
Ricardo – A voz que fala não é a voz que pensa. A que pensa é muda. A que vê é cega. A que fala, não ouve. A que comanda, está surda. Cegos, surdos e mudos. Em cada vez, em cada ação. Pensar é agir? Não! Falar é agir? Ação é palavra? E a palavra, onde fica? Respondam! Ainda bem que você me acordou. Tinha perdido completamente a noção do tempo. Foi tão bom estar aqui. Vendo seu corpo, sentindo seu perfume. A maciez de sua pele. Sua bunda...
Matheus – Mesmo assim, é uma afronta confundir isso aqui. Você não tem o direito de se por em defesa de quem não pediu sua ajuda. É uma intromissão inominável.
Anália – É um total descaramento, usar essa máscara... Ainda mais com tantas vozes diferentes.
Ricardo – Quero que vocês respondam. Ninguém aqui, agora, aqui, no presente instante, pode furtar-se a não ser o que é, nem a falar o que não deve, e não deve, em hipótese nenhuma, confundir-se com o que está bastante claro. Minha querida, minha querida. Seu cheiro está em meus dedos... Que gostoso é seu gosto.
Matheus – No primeiro depoimento você escreveu que era um rei de si mesmo, seu próprio lacaio e que se julgava Deus. Pode explicar?
Anália – Você ouve vozes? Dá ouvido a elas? Dá vez a elas? Vez e voz?
Ricardo – Cala a sua boca! Você não sabe o que diz. Como posso esquecer o que você fez a noite toda? Nem senti o tempo passar.
Matheus – Que porra de audácia é essa? Manda calar a boca assim, numa boa? Ponha-se no seu lugar, seu filho da puta bastardo!
(...)
Então tá! Fica assim, o dito pelo não dito. Mas a palavra final, não a minha, mas a que empresto do personagem Matheus é o que eu assumo e tenho dito!
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
O dedo de Deus
![]() |
| Serve o dedo de Deus? |
No meu texto "Da palavra não dita à palavra mal dita", na sua parte final, os três personagens Anália, Matheus e Ricardo travam um diálogo que tem um interesse bem particular, hoje, para mim. Eles foram inspirados em personagens reais - muito reais, com certeza - e refletem um pouco de uma certa controvérsia acerca da palavra. De palavras que não foram ditas, pronunciadas e de palavras, malditas, que foram proferidas a despeito de serem ou não agradáveis ao senso comum.
(...)
Anália – O quê? Vida e morte, como assim?
Matheus – Sim, minha vida. Sua morte. Meu ganha pão, seu ocaso. Meu prazer, a sua dor...
Anália – Não... Não... Agora eu tinha que estar gozando... Aproveitando essa turbulência toda e gritar, gritar, gemer de prazer... Cade o seu dedo me tocando? Onde está o seu dedo?
Matheus – Você acha que eu me prestaria a tocá-la com meu dedo? Acreditou mesmo que seria possível eu tocá-la?
Ricardo – Será que podemos arriscar e trocarmos de lugar?
Anália – Trocar como? Tocar, é isso que você está dizendo?
Matheus – Eu não vou tocá-la mesmo que isso signifique a minha salvação...
Anália – Mas o que você está dizendo? Quer me tocar ou quer trocar de lugar comigo?
Ricardo – Eu não tenho muita habilidade com essa mão. Preciso estar no seu lugar para poder tocá-la com o dedo da mão certa.
Anália – Que dedo? Que dedo?
Matheus – Não há nenhum dedo...
Ricardo – Troque de lugar, vamos...
Anália – É preciso tudo isso para gozar?
Matheus – Gozar? Você acha que vai gozar?
Anália – Que confusão... Antes eram apenas as vozes, agora, tudo ganhou corpo, voz e corpo. É chegada a hora? É a minha vez de gozar?
Matheus – Não. Você não tem mais vez nessa brincadeira.
Anália – Vamos, quero que me toquem.. Estou mandando.
Ricardo – Com que dedo?
Matheus – Com que dedo?
Anália – Um dedo qualquer...
Ricardo – Então ouça essa derradeira voz. Serve o dedo de Deus?
Anália – Que Deus? Que dedo?
Matheus – O meu...
O legado, o delegado e o negado
“Não tenho medo de lutar, mas temo as regras que não conheço.”
Fala do personagem O C L I E NTE em
“Na Solidão dos Campos de Algodão”, de Bernard-Marie Koltès
Iniciado
em março de 2009, o Núcleo de Dramaturgia SESI Paraná foi lançado – com pompa e
circunstância – com alguns objetivos e, dentre eles, pode-se destacar o que
aparece em primeiro lugar: “Criar um núcleo de desenvolvimento e
aperfeiçoamento de dramaturgos, que se torne referência na área teatral
brasileira”. O núcleo paranaense nasceu dois anos depois do núcleo paulista,
surgido em outubro de 2007, também do SESI, e contando com o mesmo apoio do
British Council.
Com
objetivos similares ao do núcleo paulista, o lançado no Paraná, no entanto, excluiu
um dos objetivos originais propostos por São Paulo. E, talvez, ali, nesta omissão,
esteja a origem de um problema que, ao longo dos últimos três anos – de março
de 2009 a dezembro de 2011 – o Núcleo de Dramaturgia SESI Paraná tenha
projetado e, por consequência, consolidado.
O
que dizem os cinco objetivos do núcleo paulista?
Objetivos principais (São Paulo)
·
criação de um núcleo de descoberta e
desenvolvimento de novos textos para as artes cênicas que seja referência
nacional para novos autores;
·
oferecer um processo de excelência de longo
prazo focado no aprimoramento da escrita de novos talentos em dramaturgia e
outros textos criativos para artes cênicas;
·
incentivar a criação de dramaturgias que
expressem novas visões de mundo, linguagens e experimentações estéticas;
·
promover oportunidade para que se desenvolvam e
tornem-se conhecidos textos oriundos de talentos de comunidades que têm pouca
expressão midiática;
·
estabelecer um intercâmbio dos autores
brasileiros com dramaturgos internacionais.
Quais
seriam os objetivos similares (o do Paraná se inspirou no de São Paulo, claro)
do Núcleo de Dramaturgia do SESI Paraná?
São
estes:
Objetivos principais (Paraná)
·
Criar um núcleo de desenvolvimento e
aperfeiçoamento de dramaturgos, que se torne referência na área teatral
brasileira;
·
Oferecer um processo de excelência de longo
prazo focado no aprimoramento de talentos em dramaturgia e outros textos
criativos para artes cênicas;
·
Incentivar a criação de dramaturgias que
expressem novas visões de mundo, linguagens e experimentações estéticas;
·
Estabelecer um intercâmbio dos autores locais
com dramaturgos de destaque no cenário nacional e internacional.
Está
lá, no quarto item dos objetivos estabelecidos pelos paulistas aparece:
“Promover
oportunidade para que se desenvolvam e tornem-se conhecidos textos oriundos de
talentos de comunidades que têm pouca expressão midiática”.
Claro
está que, para os idealizadores do núcleo de São Paulo, a promoção de
oportunidades para que se desenvolvam e tornem-se conhecidos textos oriundos de
talentos “de comunidades que têm pouca expressão midiática”, a generalização
com o uso do termo “comunidades” poderá ser entendida por “grupos, coletivos,
aglomerados” de teatro e similares, mas, também, por alguma entidade solitária
ou individual que, não estando nem em um grupo, nem num coletivo teatral, tenha
muitas dificuldades de poder mostrar, expor ou tornar acessível o seu trabalho
dramatúrgico, no caso, um texto teatral mesmo, visto que possui “pouca
expressão midiática”, ou seja, que não tem facilidades nem está acessível ou
disponível junto aos vários veículos de comunicação.
De
março a dezembro de 2009, o primeiro grupo de participantes “iniciantes” do
Núcleo de Dramaturgia do Paraná – eram cerca de 38 inscritos – e que foram
distribuídos em duas turmas – da tarde e da noite, participaram de encontros
quinzenais (foram de 16 reuniões) sob a orientação do autor e diretor Roberto
Alvim, que foi contratado para comandar as atividades dos interessados em
desenvolverem seus dotes dramatúrgicos.
Há
que se destacar, também, que uma comparação entre os dois conjuntos de
objetivos dos dois núcleos (de SP e do PR), logo no primeiro, observa-se um
pequeno desvio no do seu similar paranaense. Se no núcleo paulista,
privilegiava-se a “descoberta e desenvolvimento de novos textos para as artes
cênicas” as quais passariam a ser uma “referência nacional para novos autores”,
o do Paraná, talvez mais ousado – e o foi mesmo, em várias oportunidades – não
se daria atenção para a “descoberta e desenvolvimento”, mas para o “desenvolvimento
e aperfeiçoamento”, aquele de São Paulo voltado para “texto”, o do Paraná, para
dramaturgos. Vai além. O núcleo paulista propunha tornar-se “referência
nacional para novos autores”. O similar paranaense queria mais e propunha atingir
posições mais arrojadas, ou seja, que se tornasse “referência na área teatral
brasileira”.
Enquanto
os paulistas tratavam especificamente de “textos” dramatúrgicos, os paranaense desejam ir além, já que se propunham a trabalhar
não com meros textos, mas com personificações, com seres, com gente, com
pessoas, com “dramaturgos”. Em São Paulo, descobrir e desenvolver textos para
as artes cênicas. No Paraná, para desenvolver e aperfeiçoar escritores de
textos dramatúrgicos. Uma diferença fundamental de objetivos. Um, o de São
Paulo, com foco no texto – o produto autoral, as peças teatrais, as
experimentações; o outro, o do Paraná, com foco claramente personalista, no
autor, no escritor, no dramaturgo, não no seu texto, não na sua pesquisa, não nos
seus estudos, mas no autor com foco em si mesmo.
Há
de se notar, também, que nos segundos objetivos – não menos importantes nesta
análise e que corroboram e comprovam as sutis diferenças entre os dois núcleos
de dramaturgia focalizados, onde um queria chegar e onde o outro também queria
e, por estar mais perto da minha visão e crítica, chegou efetivamente.
Está
lá, então, o que aparece no segundo objetivo. Diz o de São Paulo: “Oferecer um
processo de excelência de longo prazo focado no aprimoramento da escrita de
novos talentos em dramaturgia e outros textos criativos para artes cênicas”.
Focado, como enfatiza o texto, no “aprimoramento da escrita de novos talentos”.
E o que diz e onde se acentua, talvez não tão sutilmente, mas claramente, o
segundo objetivo do Núcleo paranaense?
Vejamos.
Aparece assim: “Oferecer um processo de excelência de longo prazo focado no
aprimoramento de talentos em dramaturgia e outros textos criativos para artes
cênicas”.
Bem,
os demais objetivos comparativamente entre os de São Paulo e os do Paraná, são
iguais. E prestam-se a dar aquela aura de sonho aos dois projetos em seus
respectivos objetivos.
Ao
longo do processo de trabalho desenvolvido por Roberto Alvim nos encontros
quinzenais que ele comandava junto a suas duas turmas – a da tarde e a da noite
– foi-se estabelecendo uma divisão, a princípio sutil, mas, com o passar do
tempo, acentuou-se a ponto de serem duas turmas distintas, muito distintas
mesmo. Na preferência, como se verificou no final do ano de trabalho, de uma em
detrimento a outra, tanto por parte do Roberto Alvim, como pelo então coordenador
do Núcleo, o também autor e diretor Marcos Damaceno, o que fazia a ponte, o
intercâmbio entre o que de prático acontecia nas atividades da Oficina, do
Núcleo, portanto, com a direção, com a política estabelecida – via objetivos do
Núcleo, claro – pela Anna Zétola, a responsável pelo projeto junto ao SESI PR.
Não
vale a pena repetir o que ficou claro, quando, no final do ano de 2009, foram
escolhidos os textos dos dramaturgos participantes a serem publicados e os que
passariam por uma pequena prova de palco, com suas leituras dramatizadas e com
um, apenas um, a ser encenado. Houve uma inequívoca preferência pelos textos
dos autores da “turma da noite”. Quem se der ao trabalho, vai poder conferir e
comprovar em termos numéricos, quais foram os autores publicados e quantos
desses eram da “turma da noite” e quantos eram da “turma da tarde”. O que
poderíamos chamar de “filé mignon” ficou para a “turma da noite”. Para a “turma
da tarde”, depois de algumas sutis cobranças que andei fazendo à época, as respostas
foram minimamente ampliadas.
Ative-me,
no entanto, a comentar apenas e mais detalhadamente sobre os primórdios do
Núcleo de Dramaturgia, da efetiva participação que tive nos encontros da
Oficina de Dramaturgia com Roberto Alvim, no ano de 2009, com alguns eventos transitados
nos primeiros meses de 2010, quando, por força de minha exclusão – fui defenestrado
mesmo – do grupo de participantes do Núcleo de Dramaturgia por vontade e
decisão conjunta do Marcos Damaceno, da sua chefe Anna Zétola e, por tabela, pelo
que considero gesto de omissão, típico papel de Pôncio Pilatos, que o Alvim
teria praticado. Isso ainda não está claro para mim, completamente. Mas,
minimamente, Alvim absteve-se de manifestar-se, no começo de 2010, quando uma
lista de inscritos para o segundo ano de atividades da Oficina de Dramaturgia
foi construída e onde, nela, aparecia, pelo menos, um nome que não viria a
participar e que foi, este nome, a desculpa para que minha participação não
pudesse ter continuidade no trabalho de estudo e de dedicação à escrita
dramatúrgica dentro do Núcleo de Dramaturgia SESI Paraná.
Quero
aqui destacar e aproveito para também cobrar algumas explicações que a
diretoria do SESI Paraná – a antiga não poderá, é claro se manifestar – mas a
atual, a que sucedeu a anterior e vinculada ao ex-presidente da FIEP, Rocha
Loures, poderá, caso julgue necessário esclarecer algumas coisas e faço com
base no que estava e está escrito numa minuta, depois transformada em contrato
de cessão de direitos sobre textos dramatúrgicos escritos durante a Oficina de
Dramaturgia do SESI Paraná em 2009.
Para
tanto, vou colar abaixo parte do texto do CONTRATO que o SESI Paraná
estabeleceu com os autores que integraram o Núcleo e a Oficina de Dramaturgia
por ele patrocinado.
Entenda-se
como CEDENTE, os autores. Como CESSIONÁRIO, o SESI Paraná.
Vai,
aqui:
CLÁUSULA PRIMEIRA – Do objeto
O presente contrato tem por objeto a cessão dos
direitos patrimoniais de autor, pelo Cedente ao Cessionário,
referentes à obra acima citada.
Parágrafo Primeiro: O CEDENTE declara expressamente que a
cessão dos direitos patrimoniais de autor prevista no caput desta cláusula é efetuada sem caráter de exclusividade e por prazo determinado, não sendo
imposta ao CESSIONÁRIO qualquer
restrição de uso, podendo este utilizar o material objeto do presente
instrumento em sua integridade, isolada ou em conjunto com outros cujos
direitos patrimoniais de autor sejam de propriedade do CESSIONÁRIO, incluindo os direitos
de edição, tradução, publicação, reprodução por qualquer processo ou técnica,
distribuição, utilização direta ou indireta da obra por
meio de representação, recitação ou declamação, radiodifusão sonora
ou televisiva,
exibição audiovisual, cinematográfica ou por processo
assemelhado, e inclusão em base de dados, armazenamento em computador,
microfilmagem e demais formas de arquivamento do gênero.
Parágrafo Segundo: O
CESSIONÁRIO poderá disponibilizar o conteúdo do trabalho referido na
cláusula primeira, caput deste instrumento, de forma total ou parcial, no
site www.sesipr.org.br,
aos seus próprios funcionários e também a terceiros, seja para consulta, download
e/ou impressão para uso privado, sempre sem intuito de lucro, sendo vedada sua
utilização para qualquer outra finalidade, como por exemplo, reprodução,
distribuição, edição, comunicação ao público e comercialização.
Parágrafo Terceiro: O CEDENTE
se compromete a não divulgar, de forma total ou parcial, a obra objeto deste
contrato antes do seu lançamento oficial pelo Núcleo de Dramaturgia do SESI/PR,
previsto para ocorrer no Festival de Teatro de Curitiba, edição 2010, e, também
se compromete a utilizar a seguinte frase de crédito ao Núcleo de Dramaturgia
do SESI/PR, pela produção da obra, no material de divulgação, toda vez que for
publicada, lida ou encenada: “Peça escrita durante a Oficina Regular do
Núcleo de Dramaturgia SESI Paraná, sob orientação de Roberto Alvim, no ano de
2009”.
Parágrafo Quarto: A presente cessão abrange os territórios
nacional e internacional.
Vale
agora perguntar, se é que alguém vai se dispor a responder minhas indagações.
Vamos
às perguntas:
1
– O que o SESI Paraná fez e o que fará com os textos produzidos pelos
integrantes da Oficina de Dramaturgia que não foram nem publicados, nem
encenados, nem participaram de leituras dramáticas?
2
– Por que o SESI Paraná, até agora, não apresentou, nem publicou, nem tornou
pública e acessível em seu site – ou no site do Núcleo de Dramaturgia – TODOS os
textos produzidos na oficina de dramaturgia do ano de 2009, 2010 e os de 2011?
3
– Porque o SESI Paraná, em 2009 e começo de 2010, omitiu a totalidade de textos
produzidos na referida Oficina de Dramaturgia, não citando nem autores, nem os
títulos das peças (textos dramatúrgicos) que eles produziram?
4
– Quais foram os critérios adotados, à época, para que mais textos da turma da
noite fossem publicados, lidos e encenado, e não, de forma justa e equilibrada,
para atender, também aos textos produzidos pela turma da tarde da referida
Oficina de Dramaturgia?
5
– A quem coube a palavra final para a escolha dos textos a serem publicados à
época? O Roberto Alvim indicou os textos, o Marcos Damaceno aprovou e a Anna
Zétola deu a autorização final? Ou a ordem, na cadeia de aprovação, foi outra?
6
– Por que motivos que até agora não se publicaram – de forma impressa, em
livros – os demais textos produzidos durante a oficina de 2010?
7
– O SESI Paraná poderá divulgar a lista completa de todos os participantes e
quais foram as contribuições efetivas que cada um dos integrantes das oficinas
e suas turmas – da tarde, da noite, de iniciantes e de avançados, em 2009 e
2010, e agora os de 2011 – tiveram. Quem foram os participantes e quais os
trabalhos efetivamente realizados por cada um?
8
– O SESI Paraná, por ser uma entidade que recebe verba oriunda de receitas de
sindicatos e, estes, por tabela, recebem dinheiro público de contribuintes,
assalariados, deve ou não deve tornar pública e transparente as informações
sobre as atividades do seu Núcleo de Dramaturgia, com relatórios precisos e
completos sobre o que efetivamente aconteceu em seus encontros a partir de
março de 2009 e até este dia 13 de dezembro, quando se encerrou o terceiro ano de suas atividades?
9
– A Anna Zétola poderá explicar quais foram os reais motivos que fizeram com
que Marcos Damaceno, até então coordenador do Núcleo e da Oficina de
Dramaturgia patrocinada pelo SESI Paraná, anunciasse sua saída?
10
– Quais serão os caminhos, quais serão os objetivos específicos, não apenas
gerais, do Núcleo de Dramaturgia SESI Paraná para os próximos anos? Quais serão
as ações a serem empreendidas a partir de janeiro de 2012?
11
– Quem vai responder pela coordenação do Núcleo de Dramaturgia e quem será o
coordenador da Oficina de Dramaturgia em 2012?
12
– O SESI Paraná consultou, pesquisou ou entrevistou os seus integrantes para
avaliar, com cada um, de forma individual e numa análise coletiva, quais os
resultados que foram verificados e percebidos ao longo dos três anos de atividades
em que o Núcleo de Dramaturgia e sua oficina de dramaturgia tiveram sob o
comando do Roberto Alvim e do Marcos Damaceno?
13
– O Núcleo de Dramaturgia SESI Paraná vai continuar atuando de forma a
privilegiar pessoas (dramaturgos) ou vai privilegiar o efetivo trabalho destes,
ou seja, seus textos, suas peças teatrais, seus textos e contribuições para as
artes cênicas?
14
– O contrato que eu assinei com o SESI Paraná, com relação ao trabalho que fiz
em 2009 na Oficina de Dramaturgia poderá me ser entregue e assinado para que eu
guarde entre minhas memórias – legais e afetivas – de minha participação no
Núcleo de Dramaturgia?
Assim,
com o exposto acima, espero que os interessados e a opinião pública possam
conhecer um pouco da minha inquietação sobre “O legado, o delegado e o negado” dentro
das atividades do Núcleo de Dramaturgia SESI Paraná e sua Oficina de
Dramaturgia.
Rogério Viana
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