sexta-feira, 18 de novembro de 2011

As teorias selvagens - Crítica de Juan Martins


Pola Olaixarac, autora de "As teorias selvagens"

O autor, professor e crítico venezuelano Juan Martins, do qual traduzi o texto teatral "Caramelo de nova york", publica na Venezuela alguns blogs. Em um deles faz críticas a peças de teatro e a livros, embora o blog tenha o título de "Crítica Teatral" apenas. Esta semana Juan Martins enviou-me a crítica que fez do livro "Las teorias salvajes", da escritora argentina Pola Oloixarac, publicado pela Editorial Entropía, de Buenos Aires e que no Brasil foi publicada, recentemente, pela Editora Benvirá, com o título de "As teorias selvagens".

Como ultimamente tenho lido vários textos de autores argentinos, de teatro, de literatura e de críticas a teatro e a obras literárias, e como o livro de Pola Oloixarac (que participou do FLIP este ano) foi bem recebido no Brasil e em vários países, decidi traduzir a crítica de Martins e publicar no meu blog, já que um dos temas do livro são os blogs e o ciberespaço. A autora argentina é chamada de Musa Nerd. Talvez por sua beleza (ela lembra a atriz espanhola Penélope Cruz), mas por ser muito ligada em tecnologia a apelidaram de "musa" e de "nerd" pela conotação óbvia.

Quem se interessar por conhecer mais sobre o livro "As teorias selvagens", podem acessar os links que aparecem aqui e nesta pesquisa maior do Google.

No site da Saraiva Livraria há uma apresentação do livro de Oloixarac que diz: 

As teorias selvagens é uma sátira da vida intelectual na era dos blogs, da pornografia virtual, do videogame, das pílulas coloridas e da junk food. É uma compilação de histórias cheias de referências por todos os lados - um gato chamado Yorick, uma militante de esquerda que escreve cartas para Mao, uma estudante de filosofia que persegue o professor pela universidade. É um compilado de histórias sempre esclarecidas por teorias que explicam tudo, ao menos aos olhos dos jovens contemporâneos, que viajam pelo mundo do ciberespaço.

Mas o livro não é apenas isso, o que o resumo apresentou. Como a própria Pola é, aos meus olhos, uma personagem fascinante, fiz a tradução da crítica de Juan Martins, mas indico, também outra crítica feita por Carla Fátima Cordeiro, da Unesp, que pode ser lida aqui, em formato PDF.

As teorias selvagens

Juan Martins

Tradução de Rogério Viana


“As teorias selvagens” (*) de Pola Oloixarac, editado por “Editorial Entropía”, 2008, Buenos Aires, deixou de ser em mim uma simples curiosidade ao afirmar-se como um romance divertido, convocado para conquistar leitores e outras coisas boas que dizem sobre ele: fluidez narrativa, solidez e irrupção literária. Quer dizer, sabemos que toda estrutura narrativa conduz um mecanismo de abstração por parte do autor: esse evoca seu próprio universo para significar por meio das palavras e seu leitor interpretará tal universo. A relação que se estabelece então entre um e outro estará significando por sua vez que simbolizando este entorno que se expressa no romance (já veremos mais adiante a importância da simbolização e interpretação que é adquirida por parte do leitor). O que para uns serão referentes próximos (toda vez que este significando na escrita do romance), para outros, terá aspectos de simbolização, de interpretação mais geral por estar distante do contexto, desses referentes e da cotidianidade dessa realidade que vai se construindo ao leitor: a realidade política da Argentina nos anos 1970: significa, mas também simboliza finalmente para o leitor. Terá que ler as condições dessa realidade. E o fazemos até o final do romance já que nos leva a divertirmos. Obterá esses instantes seus leitores. A autora faz que o contexto dos personagens nos pertença a partir de uma “realidade” (re) criada naqueles novos significantes para este leitor. Oloixarac compõe, o faz junto com o leitor, posto que o processo dê lugar na recepção do romance. Tudo devem no leitor, para seu gosto e prazer, com certeza. Aqui haveria que destacar a frase do texto narrativo, dado que sua representação vai entre o uso do gênero e a possibilidade de transferir esse gênero em outro: os momentos narrativos relacionam-se com outros ensaísticos, em que o mediador é o leitor. Criando a eventualidade de que este se conduza pela voz narradora, ensaie seu encontro com o narrado, como se o narrado fosse de construindo no achado conceitual do romance. O leitor, quem sabe, queira deter-se, deixar de pensar, de abrir-se à alternativa conceitual e reflexiva, a que dá lugar este constructo narrativo. É constructo narrativo posto que a escrita se faça no leitor. As cenas, o nível pragmático em que se estabelece o narrado, poderia ou não ser um referente para esse leitor: o idiossincrático, as ideias e a noção do amor colocadas em um contexto político e, por demais, ideológico. Aquilo que é ideológico é também o tempo do narrado, de uma realidade da política, portanto será ao mesmo tempo realidade do ficcionado, como se o ideológico funcionara de identidade diante a presença dos personagens que existem, existiram ou não, para o contexto políticos dos anos 1970 na Argentina: uma complexa relação de vítimas, desaparecidos e torturados com seus algozes. Todos aprisionados nesta realidade do romance com o mesmo caráter de responsabilidade. O interessante é que nos oferece a oportunidade de imaginarmo-nos neste contexto representado tão distante por sua vez da história como seja possível. Prevalece o inventado. Porque não interessa a Oloixarac escrever o que a história já escreveu. Prefiro dizer que a história fica “transparente” de seus aspectos ideológicos. Mas o que pode interessar-nos é o meio com que o romance inventa uma época, seu tecido e uma realidade que se transfere para outra para filtrar seus significados. Em primeiro lugar se instaura a possibilidade de que a linguagem se representa a si mesma, como se sua lógica designara outra natureza das coisas: sucede em significações. Quer dizer, tudo aquilo que se relata é a demarcação de algo que se representa enquanto seja realidade para o romance. Insisto, a época se recria: as significações estarão criando seu sentindo dentro do narrado mediante a amarração de diferentes histórias, da combinação simétrica de outras vozes, descrevendo a visão emocional de um país e de um momento político: o texto é uma unidade maior de signos para identificar o eu que anuncia, mas que também evoca e, por sua vez, no leitor se simboliza. O abstrato, penso agora, dialoga com os personagens: o cotidiano se introduz em outros discursos desiguais entre si: o antropológico se tece de realidades descasadas sobre o pensamento de ditos personagens e consegue unificar-se com a voz narradora do que sucede no relato. Uma postura de reconstrução, uma postura do discurso. Dito de outro jeito, o simulacro do ideológico representado naquele lugar pragmático da linguagem, no que os signos (a unidade do narrado) criaram outras unidades de significação, ao tempo que este discurso se introduz em outro. Uma ideia superposta como uma imagem mental de realidades que são autônomas entre si e que também serão para o leitor,

Difícil é, se sabe, dissociar sensatez e sentimentos de um contemporâneo, mas se o contemporâneo em questão nos parece primeiro de alguma espécie secundária de Tyrannosaurus rex (...) minha mente presenteava-se com um descanso. Fora desses intervalos, minhas unhas não cresciam: o constante tec-tec do teclado as corroia...

em seu ínterim este leitor flui com o pensamento da voz narradora. Tal intertextualidade manifesta no corpo escrito. Isto é, o signo – a sintaxe do relato – o qual se organiza de maneira tal que aquelas ideias vão sendo conduzidas na mesma continuidade da escritura quando uma ideia filosófica se introduz no contexto político do romance e, este, no entendimento do leitor. A autora, mediante a voz narradora, não anuncia o que já registrou a história oficial. Não quer, ao contrário, montar-se em uma espécie de remake literário e muito menos sociológico. Senão que o sociológico não é mais que uma postura do personagem o qual é expresso em primeira pessoa pela voz narradora com a intenção de simbolizar essa realidade para o leitor. Ao tempo que esta se distancia do contexto do narrado ao unificar segmentos de outros discursos e, com ele, realidades que convergem por suas diferenças no texto do romance. Do conceitual ao lúdico, do lúdico ao grotesco e do erótico ao divertimento. A ponte desse nível discursivo será a sintaxe com a que se organiza este corpus ideológico no que, como disse, se representa a linguagem: Já! Os telefones públicos são bons aliados da filosofia... E o que se representa? A modernidade do homem, seus mundos e as ideias que o compõem. E a representação está dada como forma de comédia através do lúdico: submeter o rigor do pensamento a sua absoluta liberdade. Liberdade que lhe confere esta forma expressiva do discurso,
Devo dizer que me encontro muito impressionado porque reconheceste essa referência perdida da ideologia alemã de Marx. Não acredito que pessoas de sua idade – e passou a língua por seus lábios – lesse estas coisas hoje em dia...

permitindo que a cotidianidade do(s) personagem(ns) – necessário para qualquer romance que como tal a qualifique seu leitor – se acomode em outro plano expressivo para o uso literário das ideias. A partir deste mecanismo de imbricar realidades diferentes se consolida o ficcional e se estabelece o nexo subjetivo do leitor – em lugar da interpretação – com as realidades subscritas sobre o relato. Esta modalidade subjetiva dialoga com o mundo do racional. É também uma distância visível, uma transparência da natureza humana, de seu contexto social e das diferentes reações individuais que produzem o entorno nos personagens: o amoroso e o erótico situado para transcender sobre a cotidianidade. Assim “Kamtchowsky” é um significante, um nome, mas também um vocábulo. Este, sendo uma unidade mínima de significado, por sua vez se contém de definição humana e, sobretudo, do que acaba simbolizando, sem embargo, esta definição se dê no escrito desta personalidade. O personagem nos introduz nesse conjunto de significações as quais se movem em diferentes contextos: uma história na outra, permitindo que o epistemológico tome lugar na mesma formalidade da escritura. A contingência política é somente um argumento para Oloixarac como se a presença do pensamento tomasse lugar na memória do leitor: todos nós ficamos retidos neste estado do epistemológico: Borges, Cortázar, a literatura e o marxismo funcionando neste significante “Kamtchowsky”, referente-significado na estrutura do relato, e sem/sentido transgredindo a lógica da comunicação para sua alteridade. E se acaso o acento da ideais é agregado em um mesmo nível, então, o lúdico se constitui na irreverência do discurso. A escritura como simulacro donde se reúnem qualquer modo expressivo do discurso: ensaio, romance e crítica. O diálogo é a forma com a que se apresenta, mas tudo converge em ficcional-ideia-divertimento. “Kamtchowsky” é a postura desse discurso. De modo que o sintático se organiza sobre o pragmático da linguagem. Tudo se dilui nesta dialética do romance. Um simulacro, sim, também, uma ordem do discurso político. O que quer Pola Oloixarac para seu leitor, como se o mundo se explicasse por meio da lógica, da sintaxe. E sabemos que além do mais há outras coisas para que a vida seja vida. Dali ao cinismo e o divertimento, porque tudo vai contradizer-se no final das contas.
Não estamos falando de qualquer leitor para ele, terá este que acercar-se por meio do constructo que faça da leitura. O escatológico, o emocional e o erótico funcionando nestas condições para o leitor. O divertimento está dado: as anedotas e o meta-literário introduzindo-se com jeito de comédia. Assim o divertimento se dá na possibilidade de situar o mundo da ideias em um posicionamento bizarro de ruptura até a desmistificação do pensamento, da militância política. Instalando-se em seu lugar o gosto pela leitura. Quem sabe seja um fluido de relatos onde parecera que o mundo se unificara. Fluidez de vontade, de paixões e frustrações. Identificando-nos com a dor dos “desaparecidos” na Argentina. Núcleo de pessoas que se agrupam na história do relato. A memória de um país vem de identificar a linguagem que o representa. Por exemplo, o discurso da militância política dos anos 1970 alienando o aparato ideológico do poder quando antes eram vítimas de um discurso antagônico mas simétrico, no exercício desse poder. Os torturadores serão vítimas desta alienação. Uma “matriz” de ideias bifurcando-se nas emoções de seus espectadores. Os espectadores de um país que se definem por seu imaginário, por seus escritores. E que estão escrevendo bem.

(*)As teorias selvagens – Editora Benvirá – 2011

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O ceguinho da esquina - um exercício de criação

Rodrigo Luciani e Ana Júlia
A quarta dupla de alunos do curso de Letras da UTFPR enviou-me o texto que produziu no nosso encontro do dia 01 de novembro, durante a aula com a professora Maurini Souza.

O texto tinha que conter detalhes fornecidos pelos outros colegas com relação a personagens, situações, locais, temas, objetos, ações. E o texto, é óbvio, tinha que sair com uma certa dose de "non-sense". O politicamente correto, é claro, não poderia ser considerado. Mas alguém escreve literatura ou dramaturgia com boas intenções?

O texto é dos alunos Rodrigo Luciani e Ana Júlia:

Em um banheiro químico, numa micareta, numa tarde chuvosa a moça está presa lá dentro, gritando por socorro.
Quando por ali passa um menino correndo e ouve o pranto da garota. Ele, percebendo o que se passava, tenta deseperadamente abrir a porta, mas não consegue.
Então ele corre para buscar ajuda.
A única pessoa que encontra é Nabuco Silveira, o ceguinho da esquina, baixo e forte, na altura dos 35 anos, belo e ajeitado.
O cego e o menino tentam abrir a pora, mas não conseguem. O menino revoltado grita: "Seu cego inútil, volta pra sua esquina engraxar sapatos, nem pra abrir uma porta você serve!", ao que o cego responde "Vai se foder, moleque mal educado" e vai embora.
De repente, a gritaria no banheiro silencia enquanto a chuva ainda caía lá fora. E a menina agora estava em um jardim bem cuidado, com roseiras, azaleias, uma cadeira de balanço quebrada e um banco de braça ao lado. A garota trajava um vestido branco e tinha um fio de nylon decorado com miçangas no pescoço. Mas, antes de dar seu último suspiro, ainda ouve o garoto gritar: "Esqueceu os óculos escuros, seu cego viado!"



terça-feira, 8 de novembro de 2011

As sementes de girassol - Um exercício de escrita

Felipe Benvenutti e Roberta Oliveira, da UTFPR
Os estudantes Felipe Benvenutti e Roberta Oliveira, do curso de Letras, da UTFPR de Curitiba, escreveram o seguinte texto dentro da atividade que realizamos lá no dia 1 de novembro, na aula da professora Maurini Souza.


O texto que produziram é o que segue:

José, um operário trabalhador explorado por seu patrão, resolve mudar de vida e começa a estudar com o intuito de passar em um concurso para obter uma renda melhor.
Certa vez, dentro de sala de aula, ele observa uma moça e declara mentalmente um amor a primeira vista e a manda um bilhete.
Ela corresponde e os dois iniciam uma conversa:
- O que você vai fazer hoje à noite, querido?
- Eu pretendia comprar sementes de girassol para o meu papagaio.
- Sério? Mas eu amo sementes de girassol. Eu tenho fantasias com sementes de girassol. Eu fantasio em comprar sementes de girassol, depois sair roubando flores e distribuindo as sementes por onde eu passo.
Os dois saem de madrugada então, roubam flores e distribuem sementes de girassol pelo chão. Quando passavam pelo rio a mulher, acidentalmente, deixa cair duas sementes no chão. Com isso o rapaz é corrompido por um ódio imenso e retira do bolso um pequeno machado, bradando:
- Isso é por todos os papagaios que ficaram sem ter o prazer de alimentar-se por sua causa, sua puta!
Em um gesto épico, arranca-lhe a cabeça com o machado , como um nato defensor da natureza.
Para ninguém desconfiar, o garoto retira a chave do bolso, que seu avô havia lhe dado antes de morrer, e a tranca em um banheiro de posto desabitado.
Arranca-lhe os olhos e os veste com óculos escuros. 

Vai embora, para alimentar o seu papagaio com o que restaram das sementes de girassol, como se nada tivesse acontecido.

A ideia do encontro era que os alunos produzissem textos com os elementos iniciais propostos na troca de personagens, de ações, de temas, de locais, de situações, de objetos, os que cada aluno criou e que foram misturados para proporcionar misturas insólitas, quase impossíveis mesmo.

sábado, 5 de novembro de 2011

Semear é falar com as mãos, com ações, não com palavras


Meu pai, homem simples, morreu aos 49 anos num pequeno e despreparado hospital do interior paranaense nos idos de 1971. Foi um infarto, não uma doença que o tenha levado a ficar na cama, ou sofrido. Antes de ser levado ao hospital, momentos antes, depois de brincar com minha filha, havia pedido para que eu lesse para ele um dos belíssimos Sermões do padre Antonio Vieira. Ele estava com um avançado estágio de catarata nos dois olhos e já não conseguia mais ler. Peguei um dos livros da bela coleção de capa de couro (edição do Porto do início dos anos 1950) e que está ainda hoje na casa de minha mãe na cidade de Paranavaí. 

Abri aleatoriamente e li para ele esta lição que cabe bem hoje nesta questão da doença do Lula, da doença terrível do petismo e do que de efeitos colaterais provoca em seus seguidores.

O semeador
Padre Antonio Vieira

Será porventura o não fazer fruto hoje a palavra de Deus, pela circunstância da pessoa? Será porque antigamente os pregadores eram santos eram varões apostólicos e exemplares, e hoje os pregadores são eu e outros como eu?
Boa razão é esta. A definição do pregador é a vida e o exemplo. Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai. Não diz Cristo: saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia: Ecce exiit, qui seminat, seminare.

Entre o semeador e o que semeia há muita diferença.

O semeador e o pregador é nome; o que semeia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador. Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o Mundo.

O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito, qual cuidais que é? – o conceito que de sua vida têm os ouvintes.
Antigamente convertia-se o Mundo, hoje porque se não converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem. A funda de David derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra: Infixus est lápis in fronte ejus.

As vozes da harpa de David lançavam fora os demônios do corpo de Saul, mas não eram vozes pronunciadas com a boca, eram vozes formadas com a mão: David tollebat citharam, et percutiebat manu sua. Por isso Cristo comparou o pregador ao semeador. 

O pregar que é falar faz-se com a boca; o pregar que é semear, faz-se com a mão. 

Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras.

(o texto continua e volto a ele em outra ocasião)

Estou citando este fato real para reforçar a tese de que quem escreve (para teatro, cinema, contos, romances) deve utilizar de registros vividos ou observados ao longo de sua vida e fazer deles matéria prima para seu trabalho de escritor, roteirista. Mas há motivações e inspirações que vão além de questões e fatos graves. A leitura de uma simples nota no jornal, ou o ouvido atento a uma frase dita na mesa ao lado num restaurante ou café, tudo isso é combustível para uma escrita que saia forte e verdadeira.

Alguém já disse que "ninguém faz literatura com boas intenções". Concordo. Para escrever é preciso despir-se de boas intenções. E entrar num terreno onde a palavra surja com a força que tem, não com o que pretendemos tirar de certas palavras fáceis ou edulcoradas. 

Nestes tempos em que parte da população brasileira esquece as ações e fica apenas na palavra - de promessas, de enganos, de traição ou mesmo de conversa mole pra boi dormir - é bom esquecer mesmo as palavras vãs e concentrar-se no que, de fato, os homens que comandam a vida deste nosso país insano tem feito. Fazer não é falar. Fazer é agir. É esculpir com as mãos, com trabalho, com suor, o nosso futuro, de nossos filhos, netos, netos de nossos netos. De gente real, de carne e osso e não de mistificadores que vestem capas de santos e que desejam apenas nos iludir com truques verbais e algumas jogadas mesquinhas e corruptas.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Um exercício de escrita - o diálogo teatral

Alunos da UTFPR (curso de Letras) comigo e com a professora Maurini Souza

Na tarde de terça feira, dia 1 de novembro de 2011, fui convidado pela professora Maurini Souza para participar de um encontro com alunos do 4o. período do curso de Letras da UTFPR - Universidade Tecnológica do Paraná, em Curitiba. No encontro abordei alguns aspectos da construção de diálogos no teatro contemporâneo. Em seguida, os 11 alunos presentes fizeram a leitura de páginas iniciais de alguns dos meus textos de teatro. Para finalizar o encontro, foi proposta a seguinte atividade a eles. Todos deveriam preencher fichas contendo uma Ação, um Objeto, um Personagem, uma Situação e um Tema. Os alunos, em duplas, escolheriam, então, cinco fichas e, sobre o que estas indicassem deveriam escrever um texto livre, no formato de texto teatral ou não.

Os textos apresentam temas, personagens, ações, situações e objetos absurdos, mas essa era mesmo a ideia, afinal cada dupla trabalhou com uma mistura de sugestões que deveriam seguir à risca.

A primeira dupla que me enviou o texto finalizado e que foi lido no final do encontro na UTFPR foi a composta por Felipe Souto Maior (aluno) e Maurini Souza (professora).

Felipe Souto Maior e a professora Maurini Souza


Texto I


(voz anunciando nos alto-falantes do aeroporto)

-  O Aeroporto Internacional de Munique informa aos passageiros do vôo 3557 com destino a Veneza que prossigam ao portão LH para embarque imediato.

(mulher está na fila do check-in e se aproxima do homem que está na sua frente, interpelando-o)

-  Desculpe senhor, mas você está chamando atenção na fila! Por um acaso aconteceu algo sério para o senhor se encontrar nesse estado precário? O senhor está com um cheiro peculiar!
-  Ah!, liga não, é só vômito! Ruim mesmo é o que a megera me fez! Que coragem me trair na nossa cama!
-  Mas o senhor vai mesmo viajar assim desse jeito?
-  O quêeee! Dez anos juntos, inseparáveis como a pimenta e o acarajé! Que ousadia descarada!
-  Mas é importante esse vôo?
-  Mas claro! É um almoço de domingo em família! Tomara que a gente se sente junto pra eu te contar tudo!
-  Licença senhor, vou ali comprar um sorvete e já volto!

(ela segura a ânsia de vômito e dirige-se à sorveteria)

-  A senhora não me parece bem, vou acompanhá-la! Eu to vendo a senhora sozinha, por acaso é solteira, ou desiludida como eu?
-  Solteira, empresária dedicada ao trabalho e felizmente jovem! Estou quase nos 40!
-  Sério, mas nem parece! Qual a idade da moça?
-  Só vou dizer por que o senhor me parece simpático e está passando por uma crise!

(ela sussura no ouvido dele)

-35!

(ela dirige-se ao atendente da sorveteria)

-  Moço, me vê uma bola de morango com calda de caramelo por favor!

(ela paga e começa a lamber o sorvete)

(toca o celular dele)

-  Desculpa, esse Motorola é de 2002 e me enche o saco com tantos problemas, ainda mais que deve ser a bendita, mas tenho que atender! O pior é que a amo mesmo assim!

(ele põe seus óculos escuros e atende a ligação com uma expressão nervosa no rosto)


Robinson Kremer e Maria Moraes
O segundo texto é da dupla Robinson Kremer e Maria Moraes. Eles se divertiram muito na brincadeira de criar. A Maria Moraes até disse que não queria aparecer com seu verdadeiro nome, mas o jogo da criação tem dessas coisas. É preciso arriscar-se e sair do lugar comum e não abordar as questões sobre um senso comum. 


Texto 2


Maria Moraes e Robinson Kremer (alunos)


(Mulher de 40 anos, jovial, morena, usando jeans e camiseta e com uma bolsa grande, sai do seu lugar dentro do ônibus biarticulado e começa a apalpar o motorista. Os dois começam uma discussão.)
- Ô dona, o que é isso?
- Eu tô procurando alguma coisa que eu acho que você de ter...
(O motorista olha para ela. Está confuso.)
(A mulher continua apalpando.)
- Tira a mão daí, dona! Tô dirigindo.
- Eu tô muito necessitada. Me dá agora!
- Você não pode esperar?
- Mas é urgente! (enquanto fala, coloca as mãos sobre os peitos)
(O motorista para o ônibus, completamente irritado. Fica em pé e vira-se para ela)
- Chega! Do que você precisa?
- Já achei o que eu preciso.
(Cara de felicidade. Ela leva uma das mãos como se fosse pegar entre as pernas do motorista, mas enfia a mão no bolso dele e tira de lá uma caneta Bic.)
- Ah, era isso?! (Ele levanta os braços, um pouco ressentido pois achava que ela procurava por outra coisa. Ele deixa à mostra o relógio)
(A mulher olha fixamente para o pulso do motorista, faz cara de surpresa e pega no pulso dele.)
- Esté é muito melhor, será o fecho perfeito.
(Enquanto o motorista observa, completamente estupefato,  ela retira o relógio de seu pulso e volta a sentar-se.)
- Estou indo me encontrar com um rapaz e meu sutiã arrebenta! Muito azar.
(De repente as luzes se apagam. A voz do diretor a traz de volta à realidade)
- Vamos ensaiar pessoal!
(Ela sai correndo da coxia e toma o seu lugar no palco.)

Os textos dos demais alunos (em duplas) serão publicados na sequência, aqui.

O que Molière tem com a doença do Lula?

Esta batalha de opiniões sobre a doença de Lula me faz lembrar - e citar aqui - o que aconteceu na França na época de Molière. Sim, aquele comediógrafo. Para os petistas que vão ler este comentário, busquem no Google quem foi Molière e o que é comediógrafo, ok?

Recapitulando a história recente: Lula, homem do povo, se tornou "nobre" pelo voto do povo. Mas em seu discurso sempre enfatiza que ele seja povo, do povo e pelo povo, embora viva como um "burguês", sem muita fidalguia, claro! Ou não? Sendo homem do povo, Lula, o "operário-burguês" elevado à nobreza, agora não pode mais ser levado a um hospital popular. Seus gostos e gastos mudaram de patamar. Embora o hospital escolhido também atenda pelo SUS, lá ele não será tratado pelo SUS, mas, acredito, pelo plano de saúde vitalício que tenha adquirido por ter sido Presidente do Brasil. Ou está sendo atendido por algum plano de saúde particular e estrelado? Qual plano de saúde, então, está financiando o tratamento "cinco estrelas" de Lula? Não me refiro às estrelas - ou à estrela - petista. Mas às que apareciam na frente de hotéis suntuosos mundo afora e com alguns - bem poucos - neste Brasil de meu deus. 

Pois bem, voltando a Molière. O autor francês criticava, na época (século XVII), o surgimento de uma "burguesia" que queria ser considerada "nobre". E como? Pelo dinheiro. Não pelo refinamento. Nem pelo conhecimento adquirido ao longo da história de suas famílias. Só pelo dinheiro. E pela vontade que o personagem sempre teve de ser "nobre" - e se manter "nobre" - a todo custo. A crítica de Molière era sutil - para sua época - mas pegava pesado, principalmente em certos detalhes. E como ele podia, então, criticar, pegar pesado? Fazia com que "assuntos sérios" fossem tratados como comédia, como brincadeira, ou indo para nossa expressão popular atual - pela gozação, sim por pura gozação. 

Em "O Burguês Fidalgo" - uma de suas mais emblemáticas comédias - Molière faz uma gozação com o que acontecia na vida francesa e o surgimento de uma burguesia ridícula em tudo e que de tudo fazia para ser considerada e tratada como integrante daquela nobreza falida, mas refinada, e próxima do rei (e os reinados) que todos nós sabemos que fim levou. Então, por pura gozação, Molière coloca a personagem Lucile conversando com seu pai - Jourdain (o burguês fidaldo).

Lucile - Como, meu pai? Como fazeis isso? É uma comédia que jogais?

Jourdain - Não, não! Não é uma comédia! É um assunto muito sério!

Meus caros, minhas caras... Lula escreve pelas mãos de comediógrafos atuais pagos pelo dinheiro público sua trágica comédia. Não se trata de uma simples comédia, ou de uma tragicomédia, longe disso, é um assunto muito sério o que se tornou a discussão da doença do ex-presidente popular, esse que sempre mandou ver contra "azelite". Se ele sempre foi contra "azelite" não pode, agora, sendo da "zelite" criticado pelo tratamento diferenciado e especial que está recebendo? Não pode? Ué... Mas eu, como "filho" do Lula (na verdade nunca fui, que fique bem claro), como brasileiro (já que ele é o pai dos pobres e eu sou pobre) não posso perguntar ao senhor Jourdain/Lula: 

"Como, meu pai? Como fazeis isso? É uma comédia que jogais?" 

Os críticos pagos que se manifestam contrários a quem sugere para o Lula/Jourdain se tratar num bom hospital credenciado pelo SUS, vão responder o quê? 

Vão ter a coragem de responder, "Não, não. Não é uma comédia. É um assunto muito sério!" 

Assim, deixem que nós, do povo, que fomos atendidos em hospitais do SUS (e eu fui) sugerirmos ao Lula que percorra os mesmos prazos, protocolos, filas, horários e aqueles corredores e portarias que mais parecem o "inferno" descrito por Dante, que o jogo crítico apresentado por Molière. 

A doença de Lula não é uma comédia. É um assunto muito sério. E por ser sério, e grave, e vital para todos nós brasileiros, pode e deve, sim, ser tratado de forma crítica, com humor, como comédia que já é. Ao estilo de Molière, se preciso for. Ou ao estilo do Reinaldo Azevedo (da revista VEJA), o que não brinca em serviço. Que fique bem claro!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Oficina Presente de Palhaço


Uma oficina de palhaço para novos e velhos parceiros de Guerra.Cheia de novos olhares, exercícios, fórmulas, com uma grande pincelada da Escola de Palhaços de Barcelona e as anotações das mais belas observações sobre clown coletadas diretamente de Philippe Gaulier. Um convite a redescoberta...a reciclagem...e aos encantos do seu palhaço.

Conteúdo: Muitos novos jogos e estudos da técnica do palhaço.

De 22 de novembro (terça-feira) a 03 de dezembro das 19h as 22h30.
( sábados das 10h as 13h30- 15h as 18h, domingo livre), 45hs aulas.

Numero de vagas: 20

Local : Rua Pres. Carlos Cavalcante, 1227 São Francisco - Espaço Casa da Flor.

Valor da oficina: 250,00 reais, a vista ou 2 vezes.
Promoção para inscrição a vista: 220 reais para os 5 primeiros que se inscreverem, 230 para os 5 próximos, 240 para os 5 seguintes e 250 para os 5 mais atrasados.
Inscrição a vista significa um depósito de 100,00 para garantir a vaga e o restante no primeiro dia da Oficina.

Inscrição, duvidas e informações por email:

kaluodara@hotmail.com ou facebook: Karina Pereira

Esta oficina esta indicada a palhaços , estudantes de palhaços e iniciantes ao palhaço.

Garanta sua vaga!!! Venha, vai ser muito bão!!!

Abraço de Palhaça, Karina Pereira.
Karina Pereira fazendo das suas... "palhaçadas"