quarta-feira, 4 de julho de 2012

Um Eco tardio...

Umberto Eco na ilustração que fiz.
Descobri Umberto Eco muito tardiamente, embora tenha lido seu famoso romance "O nome da rosa", pouco sabia de seu trabalho como ensaísta, como semiólogo. Em 2010, descobri (de novo nas Livrarias Curitiba) seu livro "Sobre a Literatura", com ensaios. É um livro que tenho relido sempre. Quase em cada uma de suas páginas tem um monte de anotações que tenho feito, sempre descobrindo alguma coisa que liga a outra. Quando fui escrever a peça "O dia em que morreu Leminski", fiquei bastante atento a alguns comentários que Eco havia feito na questão das remissões, da intertextualidade, das conversas que os livros, segundo ele, tem entre si nas prateleiras das bibliotecas. O último - e pequeno texto - publicado por Umberto Eco no livro "Sobre a Literatura" (páginas 304 e 305) é o que reproduzo abaixo:

O ESCRITOR E O LEITOR

Porém, não gostaria que estas últimas afirmações encorajassem logo uma outra, comum aos maus escritores: que você escreve apenas para você mesmo. Desconfiem de quem diz isso, é um narcisista desonesto e mendaz.
Só existe uma coisa que se escreve apenas para si mesmo, e é a lista das compras. Serve para lembrar o que você tem que comprar, e quando as compras foram feitas pode ser destruídas, pois não serve para mais ninguém. Qualquer outra coisa que se escreve, se escreve para dizer alguma coisa a alguém.


Tenho me perguntado muitas vezes: escreveria ainda se me dissessem, hoje, que amanhã uma catástrofe cósmica destruirá o universo, de modo que ninguém poderá ler aquilo que hoje escrevo?


Em primeira instância a resposta é não. Por que escrever se ninguém vai poder ler? Em segunda instância, a resposta é sim, mas somente porque nutro a desesperada esperança de que, na catástrofe das galáxias, alguma estrela possa sobreviver e amanhã alguém possa decifrar os meus signos. Então escrever, mesmo na véspera do Apocalipse, ainda teria um sentido.


Só se escreve para um Leitor. Quem diz que escreve apenas para si mesmo não é que minta. É assustadoramente ateu. Até mesmo de um ponto de vista rigorosamente laico.


Infeliz e desesperado aquele que não sabe se dirigir a um Leitor futuro.

Umberto Eco

Pois é... Eu tenho escrito bastante. E não faço apenas para manter meus dedos - ainda - ágeis. Nem minha cabeça em movimento no balanço de boas ou de más palavras. Tenho escrito com a mesma esperança de Eco: um dia alguém vai ler e dar uma mínima atenção ao que tenho escrito e registrado um pouco aqui, um pouco ali... neste mundão virtual que existe nas nuvens... E sempre tenho em mente a frase final de Eco: Infeliz e desesperado aquele que não sabe se dirigir a um Leitor futuro.

E para mostrar meu agradecimento ao grande escritor italiano, desenhei-o e mostro aqui, como homenagem a ele.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Um encontro com Júlio Cortázar

Ilustração de Júlio Cortázar que fiz.

Em fevereiro de 2010 traduzi o monólogo "Noite de verão bem longe dos Andes... ou diálogo com meu dentista", da autora argentina Susana Lastreto que mora em Paris. No texto ela relata um encontro que teve com o escritor Júlio Cortázar num teatro periférico de Paris. A ilustração de Cortázar é minha.


(...)

Terra de asilo dos mais brilhantes e eficazes intelectuais e terroristas do planeta. Digno de Shakespeare. E como já era viciada em Shakespeare, decidi fazer teatro, como Shakespeare! E assim foi quando conheci o Júlio (breve pausa) Júlio... sim, esse Júlio, o que escreveu a “A auto estrada do Sul” e os engarrafamentos, o que brincava de “ jogo de amarelinha”... agora não me recordo do seu sobrenome, porém é muito conhecido, vivia bem pertinho daqui.

(pausa)

O palco de um pequeno teatro no Bairro Latino: fazia parte de um elenco teatral ao lado do Negrito Wladimir – um cantor cubano que pode escapar de seu pais com as cordas vocais intactas -, Beba, que passou tanto tempo escondida que já não sabe falar porém é uma mímica genial -, Jean-François, - um francês desertor do Conservatório porque quer fazer teatro corporal e com os versos de Racine não consegue – e João, brasileiro especialista em capoeira e da venda de droga para financiar os espetáculos.

Havíamos montado um espetáculo musical-revolucionário- bilingue. Cantávamos : “Romper as cercas... romper as cercas” e... de repente, numanoite, entra Júlio e se senta na primeira fila, imenso, os olhos como imensas janelas negras, as mãos de gigante, um monumento de livros, de poemas, de cronópios, de jogos de armar, ali sentado na penumbra... Romper as cercas, romper as cercas... Porém, sim é ele... Sim, sim... não, Negro não... não pode ser, sim, sim... que qui? C´este qui, c´est qui, c´est qui, um producteur? Pergunta Jean-François, que sonha em ser um astro de cinema. Que ignorante! Canta, canta, concentre-se ou vai desafinar... Romper as cercas, romper as cercas... É apoteótico! Apó... o quê? Pergunta João. Que analfabeto, parece mentira! O momento, digo o momento é apoteótico, é um monumento da literatura mundial, não se dá conta, aí sentadinho neste teatrinho. E terá pago a entrada? Pergunta Negrito Wladimir, eterno morto de fome. A romper as cercas, romper as cercas.

Espero que não saia em seguida, espero encontrá-lo na saída, concentre-se que poderá desafinar, espero que me veja... porém o que lhe direi, Deus o que lhe direi? Sabe, eu queria ser escritora, me daria um conselho? Parece-me que uso adjetivos em demasia... O que opinará sobre apoteótico? Não estaria um pouco enfático? Romper as cercas, romper as cercas, agradeça imbecil não vê que estão aplaudindo, há quatro gatos pingados, porém aplaudem e teu monumento também aplaude...

Saio correndo do palco, camarim, calça boca de sino, bata indiana, o hall minúsculo do teatro.
Aí está, imenso, a cabeça roçando as nuvens. Não foi embora, está conversando com dois espectadores... de repente... olha para mim. Olha para mim! E sorri. Nas minhas costas surge todo o elenco – João, o Negrito Wladimir, Jean-François, Beba. Se aproximam, o rodeiam, perguntam que tal lhe pareceu a obra musical-revolucionario-bilingue, lhe pedem autógrafos!
Que desavergonhados, que atrevidos! Que desgraça é a timidez, sinto-me uma anã frente a esse corpo maciço que cresce e cresce, ocupa todo o espaço e transborda de outros céus. Eu me perguntei muitas vezes durante o espetáculo se você é de lá e fala perfeita francês ou se é daqui e fala perfeitamente o castelhano, senhorita? Eh? (para ela mesma) Fala comigo? Sorri: me interessa saber... tenho curiosidade... De onde é, de lá ou daqui? (emocionada, não lhe sai a voz e balbucia algo com os lábios, muda) Eu a parabenizo, você é perfeitamente bilingue... (ela agradece, muda) Agradeceu, sorriu, seguiu rua abaixo pela Mouffetard.
Viu só, disse Negrito Wladimir, foi uma boa ideia fazer um espetáculo musical-revolucionário-bilingue. Até temos autógrafos para vender, se a droga está sendo difícil colocá-la para a venda, disse João, prático. E eu contemplo Júlio seguir rua abaixo e fico aquí, paralisada, sem nada dizer, sem ter podido perguntar-lhe se o apoteótico era demasiado enfático, nem como se diz nostalgia em francês, nem em que idioma é menos doloroso viver.

(solo de bandoneon)

domingo, 22 de abril de 2012

Um monólogo inspirado em Shakespeare

Escrevi em dezembro de 2010 a peça A ARTE DO MONÓLOGO - são vários monólogos na peça - e um deles inspirei-me numa das cenas de Romeu e Julieta.

Saiu assim:

Inspirado na Cena 2 - Jardim dos Capuleto – de Romeu e Julieta – William Shakespeare

(entra Romeu e deita na mesa. Uma luz azulada forte ilumina a mesa onde está o homem. Ela faz as duas vozes – de Romeu e Julieta)

Romeu - Só ri dos meus piercings quem nunca foi ferido por eles...ou com eles...
Silêncio, porra! Que merda de farol é este na janela? É a luz de uma sala de cirurgia, mais forte que a luz do sol? Cadê meus óculos escuros? Onde colocaram o meu colírio? Apaguem esta luz forte, seus merdas! Tá me dando uma zonzeira. Parece que estou vendo meu amor. O piercing dela em minha boca. O meu em sua boca. É minha dama, é o meu amor. Se ela ao menos soubesse que estou aqui, zoado com esta puta luz forte na minha cara! Estou sonhando com minha amada ou é uma puta de um trip animal? Alguém me diz umas coisas! Respondo ou não? Sou muito ousado... tenho pra lá de trinta piercings, não é a mim que ela fala. O brilho vem de seus olhos, minha amada? Como ela apóia seu rosto na mão! Como eu queria ser uma luva em sua mão, para poder tocar aquela face! Mas que porra! Essa mulher com uma luz tão forte atrás está de luva. Eu é que queria ser uma luva em sua mão. Mas ela está de luva... parece que usa uma máscara!
(Julieta usa uma meia máscara fixada numa haste)
Julieta – Ai de mim!
Romeu – Ela está falando! Fale de novo, anjo brilhante, anjo glorioso no alto dessa noite, com essa puta luz forte, mas bonita em sua cabeça. Estou vendo a luz e será que pobres mortais arregalam os olhos e enxergam luz tão bonita? Ou devo torcer o pescoço dos que também enxergam esta puta de uma luz bonita pra caralho? Você está envolta numa luz bonita, agora parece cavalgar em nuvens, que vão preguiçosas no céu. Você cavalga ou veleja nas nuvens, minha amada?
(Julieta usa uma meia máscara fixada numa haste)
Julieta – Romeu! Romeu! Porque você é Romeu? Será que você ainda não adormeceu de vez? Eu sou sua médica, tentando aplicar-lhe uma anestesia geral, mas você não para de falar! Não negue receber a anestesia, Romeu. Nem renuncie aos nossos procedimentos cirúrgicos. Se a cirurgia não for bem sucedida eu poderei deixar de ser médica e terei meu registro cassado no CRM...
Romeu (à parte, meio sonolento) – Devo ouvir mais ou devo responder?
(Julieta usa uma meia máscara fixada numa haste)
Julieta – Não você, mas apenas seu nome poderá ser meu inimigo num processo judicial, caso esta cirurgia não dê certo! Você continuaria sendo meu paciente, mas, agora, me parece que você não é mais, está deixando de ser. Não é na mão, nem no pé, nem no braço ou no rosto que você tem esses piercings. Você tem em toda parte do corpo. Tem até aqui, na parte inferior de sua glande – que é grande, Romeu! Assim, Romeu, se você não tivesse tantos piercings até que poderia ser um homem interessante. Poderia ter conservado sua beleza, sem essas centenas de pedaços de aço e de prata, espetando todo o seu corpo. Romeu jogue fora os seus medos, digo, os seus piercings que não são parte de você mesmo e fique comigo, aqui, inteiro!
Romeu – Peguei você pela palavra! Deu-me o nome de coisa simples, uma simples pequena cirurgia, sem complicações. Será que serei eu mesmo depois que você terminar essa porra dessa cirurgia? Ou nunca mais serei Romeu? O Romeu, o príncipe dos piercings?
(Julieta usa uma meia máscara fixada numa haste)
Julieta – Quem é você que foi escondido na noite lá no meu consultório e que, agora, aqui, não adormece para eu concluir o procedimento cirúrgico? Quem é você que quis que eu resolvesse seu problema com este maldito piercing e que me disse, quase chorando, quando você tirar esta porra do meu pau, eu quero penetra-la inteirinho?

Romeu – Estou zuado e nem sei mais quem sou eu e muito menos quem é você, mulher da luz forte! Meu nome, minha cara santa, digo doutora da Santa Casa, por que está me tratando como seu inimigo? Será que terei que rasgar a autorização que lhe dei por escrito?
(Julieta usa uma meia máscara fixada numa haste)
Julieta – Ainda não ouvi sequer cem palavras de sua boca, mas ainda sei que você não está completamente anestesiado e continua semi consciente. Você ainda sabe que é Romeu, o príncipe dos piercings? Ou você é outro Romeu, quando está chapado?
Romeu – Nem um nem outro, se lhe desagradam.
(Julieta usa uma meia máscara fixada numa haste)
Julieta – Como chegou aqui, diga-me, por onde veio? Os muros da Santa Casa não são fáceis de escalar, e o lugar é mortal para você. Vai que você caísse lá de cima. Ainda mais, subiu pelo lado de fora do prédio e teve a coragem de pichar uma frase de amor lá no alto. Se o diretor do hospital souber que a frase é para mim, estou ferrada. Digo, serei admoestada por ele!
Romeu – Eu subi lá com as asas do amor, voei sobre eles; não há muros de pedra para o meu amor, nem seus parentes ou o diretor da Santa Casa poderia me encontrar lá em cima.
(Julieta usa uma meia máscara fixada numa haste)
Julieta – Se eles o tivessem pegado lá em cima, eles o matariam, digo, o processariam, se o vissem.
Romeu – Ai de mim! Há mais risco eu ficar com este soro enfiado no braço e esta máscara de oxigênio na cara que enfrentar o tal diretor. Este soro é muito doce? Pois nem mais sinto aquela larica crônica que sentia antes de aqui chegar.
(Julieta usa uma meia máscara fixada numa haste)
Julieta – Por nada deste mundo quero que o vejam aqui, nesta sala de cirurgia que arrumei às pressas para atendê-lo.
Romeu – Tenho o manto da noite para ocultar-me em minhas andanças quando estou com minhas latas de tinta spray. Não me importo quando me enxergam. Prefiro a morte rápida pelo ódio que todos sentem por mim quando dou uma pichada bem feita em qualquer prédio. Mas estou falando cada merda, agora! Que zoeira estou sentindo, porra!
(Julieta usa uma meia máscara fixada numa haste)
Julieta – Quem foi que lhe ensinou este caminho?
Romeu – Foi o amor, digo, foi essa puta dor que estou sentindo que me obrigou e me encorajou. Deu-me conselhos, eu sei, mas fiquei com olhos e ouvidos tapados. Não acreditei que pudesse ficar com um puta de um problema, aqui no meu bilau! Mas eu a encontraria mesmo na mais longínqua praia, digo, cidade, melhor dizendo, hospital, clínica ou pet shop. O que estou falando mesmo? Será que corro risco de perder o pau, o meu bilau, o meu cacete, só por causa desse maldito piercing que enroscou na sua boca, no seu dente, no seu aparelho de ortodontia?
(apaga a luz)
(pausa)

Tem início amanhã o "Abril de Shakespeare VI"



O evento “ABRIL DE SHAKESPEARE VI”, tem início amanhã, dia 23 e será realizado até 27 de abril de 2012, objetivando, principalmente, divulgar e popularizar a obra de Shakespeare e introduzir o público participante no universo multifacetado do autor sob uma ótica contemporânea. 


Após o sucesso das cinco edições do "ABRIL DE SHAKESPEARE" (2006, 2007, 2008, 2009 e 2010), tradicionalmente realizadas na semana do dia 23 de abril, data do aniversário de nascimento e morte de William Shakespeare, o evento, que passou a ser bienal a partir de 2010, já se tornou um marco no calendário cultural de nossa cidade que vem sendo apontada como uma das principais cidades de nosso país que cultivam a arte e a cultura. 

A coordenação do evento está a cargo das professoras Dra. Liana de Camargo Leão (UFPR), Dra. Célia Arns de Miranda (UFPR) e Dra. Anna Stegh Camati (UNIANDRADE) que organizam e coordenam esse evento inter-institucional desde a sua criação em 2006.


Com entrada franca, é dirigido não apenas ao meio acadêmico, professores, alunos de graduação e pós-graduação, mas à comunidade curitibana como um todo e, neste ano de 2012, contará com o apoio e a colaboração das seguintes universidades, instituições culturais e outras: Universidade Federal do Paraná (UFPR), Centro Universitário Campos de Andrade (UNIANDRADE), Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Cultura Inglesa, Solar do Rosário, Casillo Advogados e Country Clube. 


A programação, que incluirá um mini-curso e palestras seguidas de debates, será desenvolvida por renomados especialistas shakespearianos, respeitados no Brasil e no exterior, oriundos de vários estados brasileiros.


Informações pelo fone 3015-5005 - ramal 1335

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Levar Flores sem lhe ver

Uma tragicomédia de humor patético é a peça "Levar Flores sem lhe ver".
Estreia amanhã, às 21h00, no Mini auditório do Teatro Guaira a peça "Levar flores sem lhe ver", escrita, dirigida e coreografada por Cleide Piasecki. O espetáculo será apresentado de 5a. feira a sábado, às 21 horas e domingos, às 19h00 e ficará em cartaz até o dia 22 de abril, na semana que vem. 


É uma tragicomédia apresentando três personagens e suas histórias de um humor patético, que através de uma infeliz coincidência acabam saindo do anonimato. O título também se refere a uma imagem recorrente na mídia, as pessoas levando flores as embaixadas e monumentos em homenagem aos "mortos do dia".

Três mulheres encontram-se ao acaso viajando clandestinamente no compartimento de bagagem de um avião. Três Marias: Maria Ana, uma bibliotecária que sonha em ser compositora; Maria da Graça, maquiadora de funerária que sonha em ser atriz e Maria Suzete, uma taxidermista que sonha em ser cantora.

Seus objetivos, tentar a vida em outro país. O avião, um Boeing da United States Airlines com sessenta e cinco passageiros e, segundo nossa história, três clandestinas que acabarão realizando seus sonhos de uma forma inusitada.

FICHA TÉCNICA

Maria Ana: Cleide Piasecki
Maria Suzete: Fernando Bachstein
Maria da Graça: Marcia Gomes
: Melissa Giowanella

Produção: Melissa Giowanella e Joseph Fragerri
Iluminação: Victor Sabbag
Sonoplastia: Cleide Piasecki
Coreografia: Cleide PIasecki
Operador de sonoplastia: Geff Gonzalez
Operador de iluminação: Guerreiro
Foto e vídeo: Lincoln Barela


De 12 a 22 de abril no Mini Auditório do Teatro Guaíra. 
De 5ª a sábado às 21h e domingos às 19h.

Ingressos: R$20,00 inteira - R$10,00 meia


Mini Auditório do Teatro Guaira

R. Amintas de Barros, s/n, Centro - Curitiba - PR
Fone 3304-7982

www.teatroguaira.pr.gov.br

Cleide Piasecki é a autora, diretora e coreógrafa da montagem

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Ana, amanhã no teatro Londrina: as faces de uma rainha, amante, mulher


A história ficcional dos “momentos de morte” de Ana Bolena, rainha da Inglaterra executada, em 1536, por ordem de seu marido, Henrique VIII, será contada no monólogo “Ana”, adaptada, produzida, dirigida e interpretada por Márcia Mendonça que será apresentado na Sala Londrina, amanhã, dia 6,  sábado e domingo (dias 7 e 8 de abril), na programação do Fringe, no Festival de Curitiba. 

Acusada de adultério, incesto e bruxaria, Ana empreende uma viagem por sua pequena vida mergulhando nas profundezas de sua alma, imersa no medo do desconhecido que a espera. O último suspiro. A última palavra. O último pensamento. Não há tempo para frente. Não há mudanças para trás. Ser o “SER” que se constata a cada instante, que se desvenda que se quer, ou não, “SER”. Na eminência, no medo da morte, a resistência à inércia, a luta pelo pensar contra o instinto de desistir. A Bruxa? A Santa? Quem você poderá encontrar? 

“Ana” foi adaptada por Márcia Mendonça a partir do original “Ann”, de David Turner. A atriz e produtora dirigiu, entre 1997 e 2002, em São Paulo, a Cia. CincoINCena e retoma a cena, a pesquisa e, sobretudo, o estudo da integração entre as ciências humanas e todas as dimensões do Teatro. “Ana” é um relato humano sobre a morte, a vida e o feminino. 


Questões do “ser” e de ser mulher 


Ancestralidade, astros, arquétipos, complexos, educação, ambiente, cartadas da vida? Tudo isso junto? 

“Pode ser, porém, o fato é que muitas de nós temos facilmente nos deixado “coroar pelo animus”. Então nos figuramos das mais diversas formas para não enfrentar a difícil missão de não nos deixarmos dominar por ele. Vestimo-nos de mães, de amantes, de executivas, de militantes, de ecologistas, de naturalistas, de intelectuais, e tudo isso parece ser mais interessante e indiscutivelmente mais fácil de ser, do que ser Mulher. Estamos sempre insatisfeitas, pela metade, sempre está faltando uma parte de nós, ou em nós”, revela Márcia Mendonça. 

A produtora, que dirige e interpreta fala sobre o “ser” e ser mulher. Diz ela: “Talvez porque não haja ciência, nem tão pouca direção para isso. Somos multifacetadas, confusas, sentimentais, guerreiras, frágeis, resistentes, somos dialéticas, mesmo em momentos de aparente equilíbrio. Um vale a ser preenchido, um espaço oco que ressoa em nossa alma em forma de ilusão, mágoa e ansiedade, enquanto esperamos que nossa Mulher seja desvendada pelo outro”. 


Um presente na forma de descoberta 


A diretora conta que o desafio de produzir e interpretar Ana Bolena no monólogo “Ana” surgiu no ano passado quando ela completou 40 anos. E diz: 

“Este trabalho é um dos meus presentes de aniversário. Voltar a estudar é outro. Coisas que tem a ver com a metade da vida e a revisão que muitos de nós costumamos fazer neste momento. Afinal, para que jogar uma vida toda na mão de um só se somos muitos, e podemos vivê-los em ascensão, até minimamente nos aproximarmos de um rascunho de totalidade ou individuação?” 

Márcia Mendonça comenta que aceitou para si o desafio de buscar entender “esta misteriosa coisa que é a vida” e tentar descobrir no mistério “onde estaria a minha Mulher”? Para ela, de repente, o que antes era um orgulho, dizer que “eu era quase um homem passou-me causar angústia, vergonha e aprisionamento”. 

Foi assim que buscou o desafio de entender-se um pouco mais e viu na personagem histórica de Ana Bolena, a oportunidade de pesquisar a psique da rainha que foi decapitada, e transformar toda esta matéria prima em obra teatral. Isso, segundo comentou, a fez promover a descoberta de sua “própria Mulher, mais do que com o meu retorno ao Teatro, que é apenas um tentáculo de tudo isso”. 

Segundo Márcia Mendonça, “Ana Bolena, foi uma contraditória, pois bem, foi essencialmente Mulher. Viveu suas contradições plenamente. Uma mulher poderosa, num mundo de Homens. Ela teve sede como qualquer uma de nós e se perdeu. Mas, se há algo em comum entre todas nós, é que sede. E tomando a liberdade do plágio: - Você! Tem sede de que?” 

A história ficcional de Ana Bolena se dá, no palco, em três planos: Tomada de Consciência (Inconsciente), jornada ao self; Presente (véspera de sua morte na Torre de Londres) e o Passado (as lembranças). “Ana”, como conta a diretora e atriz, é o resultado de uma experiência de 18 anos de teatro, no palco, na direção, em pesquisas e estudos diversos. 

Ficha técnica 

Texto Original: David Turner
Tradução: Lhoyane Oliveira
Outras Traduções: Silvia M. Bellintani.
Adaptação Dramaturgia: Márcia Mendonça
Direção e Interpretação: Márcia Mendonça
Iluminação: Eduardo Albergaria
Designer Gráfico: David Galasse
Designer de som: Paulo Marquezini
Figurino: Márcia Mendonça e Maria Célia Matt
Cenografia: Márcia Mendonça
Apoio na produção local e assessoria de imprensa: Rogério Viana


Sala Londrina – Memorial de Curitiba

Dia 6 de abril, às 16h00; 7 de abril, às 19h00 e 8 de abril, às 16h00.

Disponho de alguns ingressos gratuitos. Os interessados poderão ligar para meu número 41 8803 7626 para reservar.
 

quinta-feira, 29 de março de 2012

A visão de mundo de Millôr Fernandes em "É..."

"É...", peça de Millôr Fernandes.

Segundo o autor: "Baseado num fato verídico que apenas ainda não aconteceu".


Aimar Labaki, na apresentação do texto de Millôr Fernandes, diz: "Um dos maiores autores da língua portuguesa, ele é também dramaturgo de primeira. Apesar de não ser ainda reconhecido como tal. Isso se explica pelo exíguo espaço para a reflexão, quer na imprensa, quer na academia. (Não confundir resenha com crítica, nem carreira universitária com atividade intelectual. As exceções só fazem sublinha a regra.) Para Labaki, "É..." foi o maior sucesso de público das peças de Millôr, e é "o texto que talvez melhor traduza sua visão de mundo".

Para quem ainda não leu um texto teatral do grande Millôr Fernandes, vai aqui, um pequeno trecho da Cena 1 - Prendas do Lar - da comédia "É..." de 1977, com Fernanda Montenegro e Fernando Torres. 

A personagem é VERA TOLEDO (vivida por Fernanda Montenegro) descrita assim pelo autor: Casada com Mário (vivido por Fernando Torres). Quarenta e cinco anos. Elegante. Refinada. Parece mais jovem. Ainda bonita. Formada num antigo curso de secretariado. Cultura atualizada sobretudo através dos contatos universitários do marido. Prendas do lar. Com pequena economia própria, venda da família.

(...)

VERA - (sem interrupção) Você sabe que de vez em quando eu tenho a sensação de que sou um escravo a quem tentam impor uma liberdade? Estão querendo que eu assine uma carta de alforria que não pedi, não procurei, nem sei pra que serve. Estou bem na minha senzala, ela é ampla, limpa. Meu patrão não me espanca, de vez em quando fica inexplicavelmente de mau humor, passa dois ou três dias sem falar comigo, é tudo. Em troca eu não penso na minha subsistência, ele pensa por mim, paga minhas contas, mata o javali. Que é que estão querendo? Me dar liberdade pra morrer de fome? Trocar uma escravidão apenas nominal por uma escravidão real? Concessão todos fazem, todos fizeram, todos farão, sempre. Um dia eu vi uma fotografia de Onassis, rico e poderoso, ajoelhado humildemente aos pés de Paul Getty, mais rico e mais poderoso. Era de brincadeira, eu sei, mas ele estava ajoelhado. Quando eu tenho que me ajoelhar faço como se fosse brincadeira. Não dói nada.

(...)

(extraído do livro OS GRANDES DRAMATURGOS - Millôr Fernandes - Editora Peixoto Neto - São Paulo - 2008)