segunda-feira, 30 de julho de 2012

SUNSET CULTURAL inicia cadastro de projetos culturais aprovados pela Lei Rouanet

A SUNSET CULTURAL iniciou o cadastramento de projetos culturais já aprovados pela LEI ROUANET (dentro do Artigo 18o.) para integrar portfólio de projetos da empresa em Curitiba.

A SUNSET atua em todo o território nacional com CAPTAÇÃO junto a potenciais e grandes patrocinadores culturais brasileiros.

Poderão ser cadastrados projetos de todas as áreas: teatro, música instrumental, dança, cinema, literatura, circo, artes plásticas etc.

Os projetos terão - necessariamente - estarem em vigor para este ano e que possam ser prorrogados para o ano fiscal de 2013.

Informações e cadastro diretamente no site da SUNSET CULTURAL.

Galpão Cine Horto de BH abre Núcleo de Pesquisa em Dramaturgia

A partir do desejo de promover encontros com dramaturgos contemporâneos em destaque na cena teatral brasileira, o Galpão Cine Horto abre inscrições para o Núcleo de Pesquisa em Dramaturgia, que, este ano, assume novo formato. Sob coordenação de Camila Morena e orientação do dramaturgo mineiro Julio Vianna, o Núcleo se organiza em cinco módulos, onde os alunos-pesquisadores terão contato com diferentes processos de criação e metodologias de trabalho. Em cada módulo, um dramaturgo convidado compartilhará seus processos e pesquisas com os participantes, entre eles: Grace Passô (MG), Márcio Abreu (PR), Roberto Alvim (SP), Newton Moreno (SP) e Jô Bilac (RJ).

* O Núcleo de Pesquisa em Dramaturgia do Galpão Cine Horto é oferecido gratuitamente, sendo cobrada apenas uma taxa de matrícula (R$ 100) no ato da inscrição.

* Os interessados deverão encaminhar carta de intenção e currículo para o email cursos@galpaocinehorto.com.br , até o dia 07 de agosto de 2012.

PROGRAMAÇÃO
Encontros aos sábados e domingos | 10h às 13h e 14h às 17h
Módulo 01 | 18 e 19 AGO | Grace Passô (MG)
Módulo 02 | 22 e 23 SET | Márcio Abreu (PR)
Módulo 03 | 27 e 28 OUT | Roberto Alvim (SP)
Módulo 04 | 10 e 11 NOV | Newton Moreno (SP)
Módulo 05 | 24 e 25 NOV | Jô Bilac (RJ)

* Público alvo: atores, diretores, dramaturgos, estudantes de Artes Cênicas e Letras, escritores, poetas e interessados na escrita teatral
* Vagas: 30
* Carga horária: 60h/aula
* Envio de currículos e carta de intenção: 02 de julho a 07 de agosto para o email cursos@galpaocinehorto.com.br
* Divulgação dos selecionados: 09 de agosto
* Matrículas: 10 a 14 de agosto (currículos aprovados) e 15 a 17 de agosto (excedentes)

Oportunidade imperdível!

quinta-feira, 26 de julho de 2012

O olhar de Nelson Rodrigues pelo "Buraco da Fechadura"



Buraco da Fechadura
De Nelson Rodrigues

Montagem dirigida por Rafael Camargo resgata a obra do dramaturgo para falar do humano e suas contradições


“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino).”
Nelson Rodrigues


Para comemorar os 100 anos de Nelson Rodrigues, um dos mais importantes ícones da dramaturgia brasileira e universal, surge Buraco da fechadura. A peça, com direção de Rafael Camargo, estreia no dia 1º de agosto e faz parte de uma série de eventos que estão sendo programados para a abertura do Portão Cultural, antigo Centro Cultural do Portão. O projeto é resultado da parceria entre as companhias Rumo e Coletivo Portátil do Theatro de Alumínio.

Da força natural, bruta e viva da obra do mais influente dramaturgo do Brasil, a montagem emerge a partir da compilação de alguns contos de “A vida como ele é”: O MonstroA dama do Lotação, Caça Dotes, Missa de Sangue,Veneno e Unidos na Vida e na Morte. Unindo fragmentados diálogos e as mais inusitadas situações, o diretor paranaense desenha através de um olhar particular o universo rodriguiano.

Limite, doença, paixão, força vital, sexo, culpa e medo. Na montagem, o humano e suas contradições convivem simultaneamente num caleidoscópio de experiências que traduzem o que somos capazes de ser, revelando o que não é permitido revelar. Tomados por sentimentos potencialmente incontroláveis, em estado febril, os personagens assumem o papel de pessoas próximas. Somos nós mesmos em situações limite, socialmente repreensíveis.

Como moldura, o buraco da fechadura. O silêncio e o respirar anônimo e ofegante do lado de cá inquieta tanto quanto o que acontece lá dentro. Em vários depoimentos, Nelson Rodrigues fala sobre este olhar: algo como espreitar, ver sem ser visto. O que não era para ser visto, o que era pra ficar entre quatro paredes, ou no máximo em família. Afinal, é sempre bom lembrar: às vezes estamos aqui, outras estamos lá.

FICHA TÉCNICA:
Da obra de Nelson Rodrigues - Adaptação, Dramaturgia e Direção| Rafael Camargo  Elenco| Adriano Petermann, Diego Marchioro, Marcel Gritten, Martina Gallarza, Rosana Stavis e Pagu Leal. Cenografia| Maria Baptista e Gabriel Gallarza  Cenotécnico| Alfredo Gomes Figurino| Paulo Vinícius Direção Musical| Leonardo Pimentel Arranjos| Leonardo Pimentel, Guilherme Miúdo e Lucas Melo lluminação| Beto Bruel  Realização| Rumo e Coletivo Portátil do Theatro de Alumínio.

SERVIÇO: 
Teatro Antonio Carlos Kraide - Portão Cultural
Avenida República Argentina, 3430, Água Verde - Telefone: 41. 3229 4458 e 41. 9876 3596
De 1º a 26 de agosto
Quarta-feira às 17h e 20h
Quinta a sábado às 20h e domingo às 18h
Ingressos: Quartas – 1 kg de alimento não perecível
Quinta a domingo – R$ 10 e R$ 5

terça-feira, 24 de julho de 2012

Imprecações: três textos inéditos de Michel Deutsch


Diego Duda, Mazé Portugal, Thadeu Peronne e Ludmila Nascarella, do elenco de Imprecações
(foto de Cayo Vieira)


             A Lei Municipal de Incentivo à Cultura, a Caixa Econômica Federal e o Grupo Positivo apresentam a estreia da peça Imprecações, da companhia Serial Cômicos dia 2 de agosto (5ª feira), às 20h, no Teatro José Maria Santos.
A montagem reúne três textos do francês Michel Deutsch entitulados As Despedidas (Les Adieux), Os Beijos (Les Baises) e Audição (L’Audition) com direção de Márcio Mattana e foi idealizada quando Thadeu Peronne participou da Oficina de Teatro Francês Contemporâneo (2002) com o autor. Peronne atua na peça e faz parte da linha de frente da Serial Cômicos junto com Mazé Portugal.
Organizado em torno do processo de colagem, o espetáculo mistura materiais contrastantes para produzir uma comédia crítica e repleta de cinismo, na qual o retrato da vida cotidiana convive com a farsa e a paródia.
A encenação de Márcio Mattana aposta no contraste entre uma elocução verbal rigorosamente realista e composições claramente artificiais, buscando sempre uma sensação de estranheza por detrás do humor. Nas palavras do diretor, “os materiais de Michel Deutsch, embora divertidos, têm um sentido político. Não se trata de simples matéria de diversão: trata-se de revelar a estranheza da vida ordinária para, por meio da paródia, criticá-la”.

O diretor
Professor de teatro na FAP – Faculdade de Artes do Paraná há quase uma década e mestrando em Literatura pela UFPR, Márcio Mattana foi o responsável pela primeira encenação brasileira de dramaturgos como Mark Harvey Levine (EUA) e Martin Crimp (Inglaterra).

O autor
O dramaturgo francês Michel Deutsch é, juntamente com Jean-Paul Wenzel, um dos criadores do Teatro do Cotidiano, movimento que promoveu importante renovação na dramaturgia francesa das últimas décadas. Sua obra extensa e heterogênea reúne desde grandes dramas de fundo histórico, como A Década Vermelha (La Decenie Rouge) até coletâneas de comédias curtas como John Lear e Imprecação 36 (Imprécation 36). Sobre o trabalho de Deutsch, o professor de estudos teatrais da Universidade de Paris, Jean-Pierre Ryngaert diz que “o humor cria um efeito de surpresa e propõe, de saída, um vínculo particular, "ativo", com o leitor, que se sente como convidado a participar de um trabalho de decifração do que está sendo escrito”. (Ler o Teatro Contemporâneo, Martins Fontes, 1998).

Serial Cômicos
A companhia é formada por atores-comediantes-criadores e vem desenvolvendo trabalhos de experimentação e busca de linguagens e técnicas teatrais diversas. Possui núcleos de trabalho em Curitiba e São Paulo e busca não apenas entreter, mas também provocar reflexões acerca do mundo em que vivemos. Segundo Mazé Portugal, atriz, produtora e também diretora da Serial Cômicos “o convite de diretores renomados faz parte da estratégia de pesquisa da companhia que está sempre buscando aprimoramento do seu trabalho.”
Dentre as principais obras, destacam-se: Cold Meat Party (Brad Fraser), Um Lugar Perfeito (Phillip Ridley), A Farsa do Boi (Adriano Barroso) e Os Bobos de Shakespeare.

FICHA TÉCNICA

Autor: Michel Deutsch
Tradução: Cynthia Becker e Marcelo Bourscheid
Direção geral: Márcio Mattana
Elenco: Diego Duda, Ludmila Nascarella, Mazé Portugal e Thadeu Peronne
Criação de Luz: Beto Bruel
Figurinos/Adereços: Paulo Vinícius
Trilha Sonora: Vadeco
Direção de Produção: Mazé Portugal e Thadeu Peronne
Design Gráfico: Aurélio Dominoni
Fotografia: David D’Visant

Serviço:

Imprecações
Comédia (duração: 60 min.)
Data: 2 a 19 de agosto
Horário: 20h (5ª feira a sábado) e 19h (domingo)
Telefone: (41) 3322-7150
Local: Teatro José Maria Santos I Rua 13 de maio, 655 I Curitiba-PR
(Possui estacionamento e acessibilidade)
Ingresso: R$10 e R$5 (estudantes, idosos, Grupo Positivo, clientes Caixa Econômica Federal)

Informações:  http://serialcomicos.blogspot.com

Márcio Mattana (ao fundo) com Thadeu Peronne,
Ludmila Nascarella, Diego Duda e Mazé Portugal.
(foto divulgação)

domingo, 8 de julho de 2012

IUNA promove Ciclo de Leituras Públicas em Buenos Aires

Teatro pela identidade, no Ciclo de Leituras Públicas do IUNA
O Departamento de Artes Dramáticas e a Secretaria de Pesquisa e Pós-gradução em Dramaturgia do Departamento de Artes Dramáticas do IUNA – Instituto Universitário Nacional de Arte, de Buenos Aires, vai promover, este ano, o III Ciclo de Leituras Públicas, dentro da temática do “Teatro pela Identidade” e em consonância com a posição do IUNA em relação aos direitos humanos. O III Ciclo de Leituras Públicas acontecerá em diversos locais de Buenos Aires durante o mês de setembro.

O evento argentino vai acontecer em face da ótima repercussão que teve no ano passado e que contou com a organização da diretora e autora Patrícia Zangaro, que dirige a secretaria de pesquisa e pós-graduação em Dramaturgia do IUNA, que tem dedicado atenção especial à nova dramaturgia latinoamericana, com textos de autores de vários países. No ano passado os diretores e apresentadores Gisel Sparza, José Enrique Escobar Klose, André Felipe, Fernanda del Monte, Nadia Rosero e Lore Díaz juntamente com Jenny Cuervo permitiram que se conhecesse a dramaturgia de Luis Barrales Guzmán (Chile), Diego Aramburo (Bolivia), Rubens Rewald (Brasil), Édgar Chías (México), Peky Andino (Ecuador) e Carolina Vivas Ferreira (Colombia).

A promoção do IUNA se contrapõe, de algum modo, às expressões dramatúrgicas com um olhar eurocêntrico, que demonstra sua força e hegemonia e que desestimulam e até inviabilizam a produção dramatúrgica de textos de autores da dramaturgia contemporânea da América Latina.

Informações sobre o III Ciclo de Leituras Públicas do IUNA

Secretaria de Investigação e Pós-graduação
French 3614 – Ciudad Autónoma de Buenos Aires
(5411) 4804.9743
Atendimento de segunda a sexta-feira das 10 às 16h.

dramaticas.investigacion@iuna.edu.ar
Visite o site da Secretaria de Pesquisa e Pós-graduação do IUNA, aqui

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Um Eco tardio...

Umberto Eco na ilustração que fiz.
Descobri Umberto Eco muito tardiamente, embora tenha lido seu famoso romance "O nome da rosa", pouco sabia de seu trabalho como ensaísta, como semiólogo. Em 2010, descobri (de novo nas Livrarias Curitiba) seu livro "Sobre a Literatura", com ensaios. É um livro que tenho relido sempre. Quase em cada uma de suas páginas tem um monte de anotações que tenho feito, sempre descobrindo alguma coisa que liga a outra. Quando fui escrever a peça "O dia em que morreu Leminski", fiquei bastante atento a alguns comentários que Eco havia feito na questão das remissões, da intertextualidade, das conversas que os livros, segundo ele, tem entre si nas prateleiras das bibliotecas. O último - e pequeno texto - publicado por Umberto Eco no livro "Sobre a Literatura" (páginas 304 e 305) é o que reproduzo abaixo:

O ESCRITOR E O LEITOR

Porém, não gostaria que estas últimas afirmações encorajassem logo uma outra, comum aos maus escritores: que você escreve apenas para você mesmo. Desconfiem de quem diz isso, é um narcisista desonesto e mendaz.
Só existe uma coisa que se escreve apenas para si mesmo, e é a lista das compras. Serve para lembrar o que você tem que comprar, e quando as compras foram feitas pode ser destruídas, pois não serve para mais ninguém. Qualquer outra coisa que se escreve, se escreve para dizer alguma coisa a alguém.


Tenho me perguntado muitas vezes: escreveria ainda se me dissessem, hoje, que amanhã uma catástrofe cósmica destruirá o universo, de modo que ninguém poderá ler aquilo que hoje escrevo?


Em primeira instância a resposta é não. Por que escrever se ninguém vai poder ler? Em segunda instância, a resposta é sim, mas somente porque nutro a desesperada esperança de que, na catástrofe das galáxias, alguma estrela possa sobreviver e amanhã alguém possa decifrar os meus signos. Então escrever, mesmo na véspera do Apocalipse, ainda teria um sentido.


Só se escreve para um Leitor. Quem diz que escreve apenas para si mesmo não é que minta. É assustadoramente ateu. Até mesmo de um ponto de vista rigorosamente laico.


Infeliz e desesperado aquele que não sabe se dirigir a um Leitor futuro.

Umberto Eco

Pois é... Eu tenho escrito bastante. E não faço apenas para manter meus dedos - ainda - ágeis. Nem minha cabeça em movimento no balanço de boas ou de más palavras. Tenho escrito com a mesma esperança de Eco: um dia alguém vai ler e dar uma mínima atenção ao que tenho escrito e registrado um pouco aqui, um pouco ali... neste mundão virtual que existe nas nuvens... E sempre tenho em mente a frase final de Eco: Infeliz e desesperado aquele que não sabe se dirigir a um Leitor futuro.

E para mostrar meu agradecimento ao grande escritor italiano, desenhei-o e mostro aqui, como homenagem a ele.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Um encontro com Júlio Cortázar

Ilustração de Júlio Cortázar que fiz.

Em fevereiro de 2010 traduzi o monólogo "Noite de verão bem longe dos Andes... ou diálogo com meu dentista", da autora argentina Susana Lastreto que mora em Paris. No texto ela relata um encontro que teve com o escritor Júlio Cortázar num teatro periférico de Paris. A ilustração de Cortázar é minha.


(...)

Terra de asilo dos mais brilhantes e eficazes intelectuais e terroristas do planeta. Digno de Shakespeare. E como já era viciada em Shakespeare, decidi fazer teatro, como Shakespeare! E assim foi quando conheci o Júlio (breve pausa) Júlio... sim, esse Júlio, o que escreveu a “A auto estrada do Sul” e os engarrafamentos, o que brincava de “ jogo de amarelinha”... agora não me recordo do seu sobrenome, porém é muito conhecido, vivia bem pertinho daqui.

(pausa)

O palco de um pequeno teatro no Bairro Latino: fazia parte de um elenco teatral ao lado do Negrito Wladimir – um cantor cubano que pode escapar de seu pais com as cordas vocais intactas -, Beba, que passou tanto tempo escondida que já não sabe falar porém é uma mímica genial -, Jean-François, - um francês desertor do Conservatório porque quer fazer teatro corporal e com os versos de Racine não consegue – e João, brasileiro especialista em capoeira e da venda de droga para financiar os espetáculos.

Havíamos montado um espetáculo musical-revolucionário- bilingue. Cantávamos : “Romper as cercas... romper as cercas” e... de repente, numanoite, entra Júlio e se senta na primeira fila, imenso, os olhos como imensas janelas negras, as mãos de gigante, um monumento de livros, de poemas, de cronópios, de jogos de armar, ali sentado na penumbra... Romper as cercas, romper as cercas... Porém, sim é ele... Sim, sim... não, Negro não... não pode ser, sim, sim... que qui? C´este qui, c´est qui, c´est qui, um producteur? Pergunta Jean-François, que sonha em ser um astro de cinema. Que ignorante! Canta, canta, concentre-se ou vai desafinar... Romper as cercas, romper as cercas... É apoteótico! Apó... o quê? Pergunta João. Que analfabeto, parece mentira! O momento, digo o momento é apoteótico, é um monumento da literatura mundial, não se dá conta, aí sentadinho neste teatrinho. E terá pago a entrada? Pergunta Negrito Wladimir, eterno morto de fome. A romper as cercas, romper as cercas.

Espero que não saia em seguida, espero encontrá-lo na saída, concentre-se que poderá desafinar, espero que me veja... porém o que lhe direi, Deus o que lhe direi? Sabe, eu queria ser escritora, me daria um conselho? Parece-me que uso adjetivos em demasia... O que opinará sobre apoteótico? Não estaria um pouco enfático? Romper as cercas, romper as cercas, agradeça imbecil não vê que estão aplaudindo, há quatro gatos pingados, porém aplaudem e teu monumento também aplaude...

Saio correndo do palco, camarim, calça boca de sino, bata indiana, o hall minúsculo do teatro.
Aí está, imenso, a cabeça roçando as nuvens. Não foi embora, está conversando com dois espectadores... de repente... olha para mim. Olha para mim! E sorri. Nas minhas costas surge todo o elenco – João, o Negrito Wladimir, Jean-François, Beba. Se aproximam, o rodeiam, perguntam que tal lhe pareceu a obra musical-revolucionario-bilingue, lhe pedem autógrafos!
Que desavergonhados, que atrevidos! Que desgraça é a timidez, sinto-me uma anã frente a esse corpo maciço que cresce e cresce, ocupa todo o espaço e transborda de outros céus. Eu me perguntei muitas vezes durante o espetáculo se você é de lá e fala perfeita francês ou se é daqui e fala perfeitamente o castelhano, senhorita? Eh? (para ela mesma) Fala comigo? Sorri: me interessa saber... tenho curiosidade... De onde é, de lá ou daqui? (emocionada, não lhe sai a voz e balbucia algo com os lábios, muda) Eu a parabenizo, você é perfeitamente bilingue... (ela agradece, muda) Agradeceu, sorriu, seguiu rua abaixo pela Mouffetard.
Viu só, disse Negrito Wladimir, foi uma boa ideia fazer um espetáculo musical-revolucionário-bilingue. Até temos autógrafos para vender, se a droga está sendo difícil colocá-la para a venda, disse João, prático. E eu contemplo Júlio seguir rua abaixo e fico aquí, paralisada, sem nada dizer, sem ter podido perguntar-lhe se o apoteótico era demasiado enfático, nem como se diz nostalgia em francês, nem em que idioma é menos doloroso viver.

(solo de bandoneon)