quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O mito de Sisifo, ou que sifo a Copel

Exercício coletivo de fragmentação / coesão

Participante : Rogério Viana


17. Rubrica – O mito de Sisifo em versão contemporânea (ou que sifo a Copel)

(no centro do palco há uma escada e sobre ela uma lâmpada. Um homem entra, olha para a lâmpada, sobe pela escada, acende a lâmpada e desce. O homem sai de cena. O homem entra, olha para a lâmpada, sobe pela escada, apaga a lâmpada e desce. Sai de cena. O homem entra, olha para a lâmpada. Sobe pela escada, acende a lâmpada e desce. Sai de cena. O homem entra, olha para a lâmpada. Sobe pela escada, apaga a lâmpada e desce. Sai de cena. Repete mais algumas vezes o mesmo movimento de subir, acender, descer; de subir, apagar e descer)

(Se a lâmpada não queimar antes, que sifo a Copel)

Oficina Regular de Dramaturgia – Núcleo de Dramaturgia SESI-PARANÁ
Roberto Alvim – Curitiba – PR – Aula de 14 de abril de 2009 – Teatro José Maria Santos

Cu-riitibanóides: homo sapiensis senza culus

Exercício coletivo de fragmentação / coesão

Participante : Rogério Viana


10.Monólogo. Um personagem mostra ao público um objeto artístico de uma cultura “primitiva”, descrevendo-o e interpretando-o.

(personagem segura um quadro onde está colado um rolo de papel higiênico de cor vermelha. Ele tem um ar professoral, com aspecto de um cientista)

Cientista (com roupa de aspecto metálico)

A história da humanidade tem sempre uma surpresa a nos revelar. Em recentes escavaçõescomandadas por humanóides nanorobotizados na província arqueológica dos Cu-riitibanóides, descobriu-se traços de uma antiga civilização que se presume, ainda possuia cu, também conhecido por ânus. Mais que isso, e que ainda aquela população, hoje extinta, limpava-se com pedaços de papel que eram retirados de rolos como este aqui mostrado e que estão fossilizados pela ação do tempo.
Os antigos habitantes da região dos Cu-riitibanóides, agora encoberta por densas camadas de poeira cósmica e restos de uma carbonizada floresta de araucária brasiliensis e outros resíduos de materiais sólidos e micropulverizados, com mais de um milhão de anos, foram a última geração da escala evolutiva antes de atingir a que se convencionou chamar de homo sapiensis senza culus, visto que a espécie humana, nos dois últimos milhões de anos já não registrou a presença do referido cu, que consistia de canal retal, do esfíncter e do anel flexível que existia nas proximidades da parte inferior da coluna espinhal e que por onde eram excretados os dejetos e resíduos da alimentação ancestral.
Este pequeno objeto arqueológico, uma verdadeira relíquia de milhões de anos, tem sido para os cientistas da atualidade, motivo até de intriga. Há uma corrente, dos nanodedacófagos, que diz que o papel higiênico tinha uma única função. Retirar daquele anel rudimentar, chamado como ânus ou comumente denominado cu, o que era definido cientificamente na época como cocô. Alguns, mais eruditos, chamavam-na de merda. Um pequeno segmento, no entanto, não tinha nenhum pudor em afirmar que era mesmo bosta!
Então, este produto, aqui mostrado em estado de fóssil, e que era feito de fibras vegetais – naquele tempo ainda existiam árvores, água e oxigênio – se originava de celulose extraída de árvores, também era feito por resíduos de outros tipos de um produto chamado comumente de papel. O processo desses materiais produzia uma massa e esta massa – esbranquiçada - espremida em enormes rolos metálicos – ainda se utilizava ferro e aço inox no processo industrial da época – e, em seguida, a tal massa era espalhada em imensas correias para secarem. O material, então, era enrolado em pequenas peças como essa e, depois, tinha o seu fim, limpando os ancestrais anéis defecativos chamados de cus.
A evolução do ser humano, a partir do homo sapiensis senza culus, em especial os da região chamada província arqueológica Cu-riitibanóides, também conhecida por província arqueológica Cu-riitibócas, teve origem quando uma parte daquela população cansada de tomar no cu – expressão que significava ser violentada literal ou figurativamente - decidiu opor-se ao regime vigente na época, manifestando-se contrária à estirpe que era comandada por antigos membros de uma casta de privilegiados membros da vigente comunidade política do Paraná – pequena região ao sul do que foi um grande país de nome Brasil - que só sentava a mandioca, o ferro, o cacete, o pau na população e, esta, sentia o quanto ardia seus cus no final de cada mês. Resumindo: de tanto levar no cu, os habitantes daquela região, agora sem registro no mapa ergomasteraquariano, acabaram perdendo a sensibilidade no dito cu e este, sem uso, perdeu a função e, sem função, deixou de ser cu, ânus ou outras denominações comuns à época focalizada em nossas pesquisas mais recentes.
Havia uma expressão popular de então que pode explicar, talvez, com uma razão simplista, surrealista e por não dizer heterotópica, o desaparecimento do cu no corpo da população ancestral da província arqueológica dos Cu-riitibanóides ou Cu-riitibócas. A expressão dizia: Quem tem cu, tem medo. Como a população focalizada em nossas pesquisas se rebelou e perdeu o medo, perdeu, portanto, o cu. A tese ainda suscita discussões acaloradas nas comunidades científicas, locais e extraespaciais que estudam com denotado interesse o fim dos homens-sem-cu.

Oficina Regular de Dramaturgia – Núcleo de Dramaturgia SESI-PARANÁ
Roberto Alvim – Curitiba – PR – Aula de 14 de abril de 2009 – Teatro José Maria Santos

Uma receita de pernil de javali - Monólogo

Exercício coletivo de fragmentação / coesão

Participante : Rogério Viana

3. Monólogo. Enunciação de uma receita de cozinha que vai derivando para a incongruência.

(Cozinheiro com chapéu típico bem alto e vermelho veste avental também vermelho. Na mão direita uma enorme - exagerada - colher de madeira também vermelha. No rosto branco destacam-se as bochechas bem vermelhas)

Cozinheiro

(bem calmo, depois vai se agitando, como se engolisse as palavras)

As carnes exóticas, de caça, possibilitam pratos supimpas, deliciosos. Por serem exóticas, essas carnes merecem tratamento especial, temperos especiais, especiarias exóticas, claro! Nada de temperar como se fosse uma galinha ao molho pardo, ou um frango a passarinho, ou uma pobre sardinha ou uma pomba rolinha. Não podemos nos esquecer que carne exótica não combina com gente comum. O paladar dos comensais deve ser também apurado. Feitas as considerações iniciais vamos aos ingredientes. Atenção aos detalhes, anotem tudo direitinho. A receita é imperdível. Pega-se um pernil de javali selvagem ainda sangrando. Deve ter sido abatido com uma certeira flechada. Se a seta não for certeira a carne pode ficar com sabor incerto. O certo é que de posse da caça o caçador não deve abster-se de terminar o abate com um preciso golpe no coração da fera. Levanta-se a perna traseira direita, aquela que fica no lado contrário da perna esquerda, a que levou o golpe fatal. Uma adaga de corte preciso deve romper a artéria femoral do javali. Depois, força, muita força para romper os ligamentos da perna com o tronco do animal. Retirada a peça, peço que fiquem atentos para a imediata retirada de uma glândula que fica escondida na virilha do bicho. É uma pequena bolsa sebácea, de cor amarela e cheiro insuportável. Lavar imediatamente as mãos e, com certeza, a adaga. Imediatamente retirar a pata fendida do animal. Fazer um corte no pelo do javali a partir do pé fendido, já retirado, e até o local de onde retirou-se aquela bolsinha escrota, escreta, escrita, descrita, dita, cuja ajuda ajudará a produzir uma peça memorável ao paladar mais exigente do comensal mais abastado.
Lave em água corrente. Calcula-se que um javali de porte médio produza um pernil de uns 5 a 7 quilos, no máximo. Para cada quilo de pernil, usa-se 100 gramas de mel, melando referida perna com um punhado de grama fresca amarrada com tomilho, coentro, unguento, rabugento, nojento, salsa, salsaparrilha, nós moscada, dill, o tal endro, mais coentro, dentro, páprica picada, esqueça as da abelha amaldiçoada, adicione, a seguir, sal a gosto, antes pergunte aos comensais quem é hipertenso ou diabético, não é ético, na cozinha, adicionar sal a gosto se o gosto do freguês não permite mais sal ou mais açúcar. Mas não faz mal, sem mel ou sem sal, esta receita não pode terminar mal, afinal, coisa e tal é você optar por uma receita que, convenhamos, para o que se propõe, agradará em muito o principal comensal, mesmo que coma sem sal, salsaparrilha, camomila, melissa, estragão, dill, o tal endro, coentro, unguento, rabugento, desse nojento eu me afugento e me arrebento em uma casquinha crocante que a partir do mel adicionado, desligue o ar condicionado e acenda o fogareiro, prepare o braseiro, coloque nele o pernil inteiro e deixe fritar, digo cozinhar, cozer, manter em banho maria, se ela não estiver disposta, alegando dor de cabeça, enxaqueca, período fértil, menstruação, use da imaginação, agite bem seu instrumento, com uma mão, depois a outra, deixe escorrer o líquido denso, esbranquiçado, o leitinho de duas latas de leite condensado, coloque tudo numa panela bem pequena, assim que começar a ferver, adicione cinco enormes colheres de chocolate em pó, não do tipo Nescau que pode ser melhor, mas faz mal, junte uma colher de manteiga, margarina não vale, nem sem sal, salsaparrilha que é bom para dor de barriga. Esparrame o resultado do cozimento numa peça, na sua mesa de mármore, não faz mal, or more, que de mal a gente não morre, mas seu brigadeiro pode ser enrolado e você, deve adicionar sobre ele pistache picado, pimenta malagueta, aniz estrelado, endro, o dito dill e, assim se prepara a grande ceia da pátria varonil, encoberta por um céu todo anil, as cores do Brasil, meu Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro, e tudo aqui vira um puteiro onde todos nós somos nossa própria sobremesa, onde nela sobrevieram os sobreviventes, os pobres viventes que ainda acreditam numa receita milagrosa para tornar a todos nós super heróis de nós mesmos ou os pobres habitantes que somente podem comer os restos da ceia dos cardeais, não aqueles de épocas ancestrais, mas de tempos atuais que lá de longe, em Brasília, Londres, Milão, Tókio, Moscou, Paris, Dacar, Shaolin, Pequin, Beijin, adicione um pouco de pequi, pedaços de caqui e é por aqui que termino e me despeço, já enfadonho. Tenham uma boa ceia, comam à vontade, saúde e, depois, não se esqueçam de arrotar que faz bem. Muito bem! Se alguém cair de quatro, cuidado. O javali ficou manco e não sabe andar de muleta ou de bengala!

(Todos em cena arrotam, felizes e satisfeitos. Vomitar não é preciso, arrotar, sim)

Oficina Regular de Dramaturgia – Núcleo de Dramaturgia SESI-PARANÁ
Roberto Alvim – Curitiba – PR – Aula de 14 de abril de 2009 – Teatro José Maria Santos


segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Uma cena de Cynthia Becker

Brigite na cena criada por Cynthia Becker

Vejam esta cena de Cynthia Becker no site Teatro Para Alguém.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Damaceno na revista BRAVO!

Marcos Damaceno e cartazes de suas peças
(foto de Patrícia Stavis)

Marcos Damaceno


Saiu na revista BRAVO! Edição de agosto de 2009.

Nossa Aposta - Marcos Damaceno

O diretor e dramaturgo se destaca em Curitiba com peça que ironiza nomes caros à cidade, como o ator Luís Melo

Por Cecilia Arbolave

A cidade de onde o ator Luís Melo e o encenador Felipe Hirsch partiram para ganhar relevância nos palcos brasileiros está gerando um novo talento. O diretor e dramaturgo Marcos Damaceno ainda colhe os frutos da ótima repercussão que obteve em março durante o Festival de Curitiba, uma das mais importantes mostras teatrais do país. Paulista de 28 anos, ele mora na capital paranaense desde a infância. Com o monólogo Árvores Abatidas ou Para Luís Melo, virou sucesso de crítica: a peça se destacou entre as 290 montagens que participaram do Fringe, o evento paralelo ao festival. Por conta do desempenho exemplar, Damaceno — que coordena o Núcleo de Dramaturgia Sesi Paraná, voltado para a formação de novos autores — vai trazer o espetáculo a São Paulo em novembro.

Não errará quem disser que suas produções devem ser vistas com os ouvidos. Na contramão do teatro tradicional, que privilegia a ação e o enredo, o diretor preocupa-se em ressaltar a palavra. Burila intensamente o texto na tentativa de encontrar uma linguagem mais adequada à oralidade e prioriza, acima de tudo, o ritmo das frases. É pela musicalidade dos diálogos que almeja fisgar a plateia. Por isso, prefere se apresentar em lugares pequenos, quase sem elementos cênicos, para que as falas do elenco estabeleçam uma relação íntima com os espectadores.

Geralmente, Damaceno exibe suas peças nos fundos da casa onde mora, em São Francisco, bairro boêmio de Curitiba. O sobrado de 70 m2 recebe entre 40 e 60 pessoas por sessão. "Para mim, a escolha do espaço é fundamental, já que o público tem de ficar na mesma pulsação dos atores", afirma. Essa comunhão com a plateia revela-se especialmente forte em Árvores Abatidas ou Para Luís Melo. Na mais recente criação do dramaturgo, baseada em livro do escritor austríaco de origem holandesa Thomas Bernhard (leia resenha sobre uma obra do autor na página 76), o elenco atua praticamente ao lado dos espectadores. A atriz Rosana Stavis — veterana com 20 anos de palco — protagoniza o monólogo. Durante um jantar com artistas para homenagear um ator famoso, sua personagem conclui estar rodeada de gente medíocre e, desapontada, dá início a uma penosa reflexão.

Oscilando entre o sombrio e o sarcástico, o texto desfere sutis estocadas em profissionais que se lançaram nacionalmente a partir de Curitiba. A protagonista imita vários dos presentes na reunião — entre eles, uma escritora que se julga sucessora de Virginia Woolf e que é chamada de Nena. Trata-se de uma alusão à diretora e produtora Nena Inoue. A atriz também arremeda o ator homenageado, um célebre intérprete do teatro nacional "que até faz telenovela", e critica sua soberba. Igualmente ferina, zomba de Felipe Hirsch. Embora o nome de Luís Melo só apareça no título da peça, fica claro que o ator da Globo, egresso da trupe de Antunes Filho, é o convidado de honra daquele jantar.

Um ataque pueril contra os que alcançaram o sucesso? "De jeito nenhum. Não desejo provocar por provocar", explica Damaceno. "Pretendo apenas refletir sobre a nossa condição de artistas e o ambiente cultural de Curitiba. Não dá para levar a sério quem não sabe rir de si mesmo." Ao menos em público, Luís Melo demonstra ter absorvido bem as provocações. Ele diz admirar a trajetória do diretor. "Seu diferencial é justamente a persistência em procurar uma nova estética. Eu acredito no Damaceno."


Cecilia Arbolave é jornalista.


Sobre Damaceno na revista BRAVO! veja o link:


Pouco amor, excesso de desejos

Assisti, ontem, no Miniauditório do Teatro Guaira a estréia da montagem "Uma História de Pouco Amor", texto de Edson Bueno, dirigida por Moacir Chaves e com Zeca Cenovicz, Laura Haddad, Sidy Correa e Patrícia Kamis.

A partir do título já dava para presumir que jogo aconteceria no palco. Onde há pouco amor, sobra espaço para tantas coisas. Se falta amor, ultrapassa o limite do que possa ser desilusão, insatisfação, solidão. Se falta amor, há um excesso de desejos, ânsia pelo que não se sabe o que possa ser. Quando falta amor, a arrogância ganha contornos insustentáveis. Onde não existe amor, aprisiona-se sentimentos mais saudáveis, a existência se limita pelo que ilimitado seja possível. Dinheiro e poder substituem o amor? O que excede, então, evidencia o que pouco existe ou se existiu minimamente, pouca semente deixou para florescer e ocupar o necessário espaço de paz e de consciência.

Moacir Chaves, nas cenas iniciais, deu o tom exagerado de tudo que equivocado e ruim havia na vida dos personagens. A voz empostada e artificial, o tom discursivo, frio, ausente, distante do que se poderia entender como real e pretensamente saudável, caracteriza não o pouco amor que possa existir entre Erik, Hilda, Max e Ana, mas o tanto de amor que não existe entre os parceiros que se formam entre tapas e beijos sem o menor sentido. O autor – Edson Bueno – escolheu bem os nomes dos personagens. Nomes curtos, minimalistas, nomes que soam duros, diretos, como tapas na cara, como beijos em si mesmos.

O cenário de Fernando Marés tem a mesma característica minimalista. O figurino, também. Os tons escuros – predomina o preto, o cinza – deixa evidente, também, que poucas luzes podem sair daquelas pessoas já sem brilho próprio e que podem fulgurar, em breves momentos, pelo falso brilho das drogas, das bebidas e do sexo inconsequente. Mesmo o “criativo e arrogante” Max, o máximo de cor que ele consegue atingir é o marrom. Uma cor muito difícil de combinar com o espírito criativo do personagem, mas, ao mesmo tempo, marrom combina com todas as cores, se a palheta deixar de simbolizar pessoas e for apenas para o vestuário, a moda, o que possa ser ou não “fashion”, passageiro, efêmero. O preto e o cinza sugam a luz, engolem a luz. Assim como são engolidos os personagens naquele ambiente de tanto desatino. E de brilhos ocasionais. O que seria sucesso para quem adora um tapão na fuça? Sexo, poder, beleza são ingredientes para a felicidade? O prazer pode ser alcançado apenas pelo que vai além da conta? Falando em conta, quanto vai custar a cada um o que cada um toma emprestado da falta de consciência ou do excesso de arrogância que, para eles, tem um sentido: para se ter prazer, vale tudo.

Ana (Patrícia) manipula com seu tipo exótico. Quando quer e como quer, pede para levar uns tapas. E leva. É a forma que ela tem de mostrar que é forte, que domina. Max (Sidy) quer, a todo custo, revelar nos seus anúncios, que só o sexo tem o poder de vender – e de convencer sobre qualquer coisa que se venda ou se compre, ou que tenha sentido. Erick (Zeca), sente-se ultrapassado, mas transfere suas inseguranças para a suposta força que tem Ana e Max, e deixa-se controlar pela rigidez de sua companheira. Hilda (Laura), toda rígida, insatisfeita – ela nunca conseguiu um orgasmo? - e focada apenas no amor e prazer que ela nunca teve, joga tudo para o trabalho e para o poder que imagina ter, demitindo, diminuindo, menosprezado a todos e a tudo que não signifique dinheiro, posição, sucesso.

A música de Vadeco é mesmo o som ideal para tantos desencontros. A guitarra solo, os blues, a batida sincopada, os sons levemente distorcidos, contrastam com a total distorção da perspectiva do real e reforçam que “Uma História de Pouco Amor” somente poderia ser contada com talento, com rigidez formal, com exageros e, sobretudo, com a demonstração de que amor é amor, mas pouco amor, nunca será amor. Nunca.

Rogério Viana

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Estudo de novos inícios

Sem querer que uma nova viagem de leitura seja marcada por um roteiro pré estabelecido e sem
desejar que novas compreensões fiquem presas a modelos, sugiro aqui a leitura de outros textos de teatro a partir das primeiras réplicas, como fez Jean-Pierre Ryngaert em seu livro “Ler o Teatro Contemporâneo”.
Apenas para recapitular o que prescreveu Ryngaert na obra citada: Iremos dedicar-nos a um ato de leitura breve e sintético, limitando-nos estritamente ao fragmento citado. (…) Estudaremos
prioritariamente o sistema de informações e o modo como se instaura o diálogo entre autor e leitor em função de suas respectivas “enciclopédias” … (…) As narrativas se estabelecem em diferentes níveis de informação e com subterfúgios muito contrastantes sem que se possam classificar automaticamente essas diferentes escritas em função de uma estética.
É o que também está sendo proposto, desta vez com uma escolha aleatória de textos que estão ou não em nossas mãos, frutos de uma pesquisa que fiz. Os textos originais e completos, caso interessem, poderão ser fornecidos a pedido.

Vamos aos textos:

BILHETE
Marici Salomão

Montagem patrocinada pelo Centro Cultural Banco do Brasil (2002). Temporadas no
Teatro do Banco do Brasil (22003) e no Centro Cultural São Paulo. Direção: Celso
Frateschi

ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE UMA PEQUENA CIDADE. VÊ-SE APENAS UM
BANCO DE MADEIRA E UM POSTE DE LUZ TREMULANTE. ENTRA
MULHER, CERCA DE 30 ANOS, BEM VESTIDA, MAS COM APARÊNCIA
CANSADA. À CABEÇA, UM CHAPÉU, COM QUE SE DEFENDE DOS
INSETOS. PORTA UM CASACO COMPRIDO E UMA MALETA. DEPOIS DE
LIMPAR O BANCO, SENTA-SE PARA AGUARDAR O TREM. CHECA A HORA
QUE CONSTA NA PASSAGEM E GUARDA-A NO BOLSO DO CASACO.
APESAR DA OSCILAÇÃO DA LUZ, FOLHEIA SEU LIVRO - CARTAS A THÉO -
E TENTA CONCENTRAR-SE NA LEITURA. SUA FIGURA CONTRASTA DE
FORMA GRITANTE COM A INOSPITALIDADE LOCAL. ERGUE OS OLHOS,
SOBRESSALTADA, QUANDO A LUZ DO POSTE AMEAÇA APAGAR.
MULHER (LENDO, DIDATICAMENTE. DEPOIS REPETINDO.) “Esquecer-se de si, realizar
grandes coisas, atingir a generosidade e ultrapassar a vulgaridade na qual se arrasta a
existência de quase todos os indivíduos.”

(SURGE UMA MULHER VELHA, VESTIDA COM ROUPAS PUÍDAS E
ESCURAS. APROXIMA-SE DE MULHER, QUE EM PRINCÍPIO NÃO PERCEBE
SUA PRESENÇA.)

VELHA Posso me sentar um pouco? (MULHER OBSERVA-A) Aí, onde a senhora está.
(SENTANDO-SE) Os outros estão ocupados, de cachorro ou titica de passarinho. Ai,
ai, a velhice é como erva daninha, traiçoeira: primeiro um nozinho aqui, depois outro
mais acima e vai subindo, subindo... Mas a senhora não sabe do que estou falando; na
sua idade o sangue ainda é quente. (PAUSA) Parte hoje, filha?

MULHER Sim, hoje mesmo.

VELHA De volta pra casa?

MULHER Não, ainda não. Infelizmente.

VELHA Por que infelizmente?

MULHER Por nada.

VELHA Não está a passeio?

MULHER Não senhora.

VELHA A trabalho?

MULHER Também não.

VELHA Então vou adivinhar. Quer adivinhar alguma coisa sobre mim?

(…)

BORRACHARIA 24 HS
Ricardo Soares

CENA 1

Três mulheres em uma borracharia de beira de estrada. Uma é a cliente, a outra é a borracheira
Jandira e a última é a garota de pouca roupa do calendário. Barulho de muita chuva, esparsas
trovoadas. Atmosfera úmida, luz baça.

Cliente( olhando o trabalho da borracheira ) - Gozado que a propaganda vive dizendo que esses
pneus radiais não furam nunca... mas só nesse ano é a terceira vez que me deixam na estrada

Borracheira( lidando com o pneu) - Ainda bem que furam né ? se não a gente ia mais é ficar no
prejuízo , tá me entendendo ? íamos ficar na pior, sem serviço.... Até porque , hoje em dia, todo
pneu de carro novo já sai de fábrica radial...

Cliente - E o que é isso ?

Borracheira - Sei explicar não princesa ... mas é uma pegada assim de que o pneu vai murchando
aos poucos tá me entendendo ? não arria assim direto não... não vai pro chão como o peito de umas colega tá me entendendo?

Cliente - Ahhhh tá... mas furar o pneu três vezes num ano que mal começou fica ruim né ???

Borracheira - Podes crer... é muito sim , é muito furo. E esse pregão aqui (mostra o prego ) pegou
seu pneu de jeito ...quase rasga tudo ! olha aí !!!

Cliente - E eu nem imagino onde posso ter passado por cima desse prego. Com a chuva que tá
caindo !!!??? sei lá onde foi isso...

Borracheira - Éééé ... esse ano o inverno tá bravo mesmo ...

Cliente – Eu ouvi que esse ano veio um vento minuano lá do sul ...

Borracheira – Mino o que ????

Cliente- Minuano, do sul...

Borracheira - Ahhhh... uma parada gaúcha ...tô ligada nessas paradas não... aqui é tão longe
princesa, mas tão longe que nem esse mino chega aqui... ele se perde nas quebradas...

(…)