terça-feira, 31 de maio de 2011

Só pode ser!

Nossa História tratada como se fosse "estória da Carochinha"
Notícia publicada no site do Yahoo! Leia a matéria clicando aqui.

Possível comentário de uma adolescente diante da fala do Sarney numa exposição no Senado Federal, ontem. Seria cômico se não fosse mesmo trágico. Apagar da história um fato como o "Impeachment de Collor" é dar um tapa em nossa cara, aquela que pintamos de verde e amarelo e que agora tem que ficar vermelha pela ofensa, pela agressão à nossa memória e à História que escrevemos.

A descoberta de um sonho da infância

Montagem argentina de "Tiempo de Aguas" em  2008:
A velha é interpretada pela atriz Maria Ester Mazza 
e a Jovem por Griselda Gugliati


Na parte final do texto "Tempo das Águas", da autora argentina Patricia Zangaro e que fiz a tradução, a personagem da Velha revela para a personagem da Jovem um sonho que teve quando era criança. O texto aparece assim:

(...)


Velha – Mas não posso. Não reconheço as letras. Como no sonho.
Jovem – Que sonho?
Velha – O último sonho... antes que deixasse de dormir.
Jovem – Nunca me contou este sonho.
Velha – Sonhei que a água havia levado para o outro lado da montanha tudo o que eu havia escrito quando era uma menina.
Jovem – Então não estava perdido!
Velha – Não. Cruzava a montanha e se encontrasse estes escritos, as portas de um mundo se abririam para mim...
Jovem – Que tipo de mundo!
Velha – Somente saberia ao abrir aquelas portas...
Jovem – E o que fez?
Velha – Sonhei que cruzava a montanha, mas no final do caminho um corvo comia meus olhos.
Jovem – Então acordou?
Velha – Não. Uma menina que brincava no vale escutou meus gemidos e se aproximou para curar minhas feridas. Perguntou-me de onde vinha e por que havia cruzado a montanha. Quando eu lhe contei meu sonho ficou assombrada.
Jovem – Por quê?
Velha – Ela havia sonhado que quando fosse velha um novo mundo se revelaria do outro lado do vale.
Jovem – Era você mesma?
Velha – Talvez. Compreendi que aquela revelação me esperava do outro lado e voltei a cruzar a montanha. Quando cheguei a minha casa, encontrei todos meus livros abertos em uma página, mas eu estava cega para lê-los.
Jovem – Não pode reconhecer seus próprios livros?
Velha – Não.
Jovem – Mas os livros estavam abertos...
Velha – Todos.
A Velha e a Jovem olham demoradamente para a entrada.
Jovem – Alguém, então, poderá lê-los...
Velha – Sim. Alguém, quem sabe, contemple algum dia aquela visão...
A Jovem, muito fraca, tenta se levantar.
Jovem – Tem lápis e papel?
Velha – Em algum canto... O que vai fazer?
Jovem – Estou sentindo vontade de escrever...
Velha – A seu pai?
Jovem – Não... Agora meu pai se foi debaixo da água...
Escuridão




Sobre a montagem da versão original em espanhol de "Tiempo de Aguas", veja detalhes aqui.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

"Tempo das Águas", um tempo de chuva, de livros e de lembranças

Na fala da Jovem: Não... Agora meu pai se foi debaixo da água...
Terminei de traduzir o sexto texto da autora argentina Patricia Zangaro: "Tiempo de Aguas". É uma peça de teatro onde duas mulheres - uma velha e uma jovem - falam de coisas relacionadas ao passado, à leitura de livros, à escrita. Falam da impossibilidade de atravessarem para o outro lado de um vale que está inundado por uma chuva, uma tempestade, que pode durar mais de cinco anos. Deste lado, as duas sozinhas. Do outro, o que deixaram - famílias, amores, dores, pesares, lembranças, o que é bom e o que sempre foi ruim, muito ruim.
A tradução de "Tempo das Águas" poderá interessar a alguém. A mim, interessou muito. Além da tradução em si, do ato de encontrar as palavras corretas e da emoção exata de cada frase e intenção das duas personagens, "Tempo das Águas" mexeu comigo por se tratar de um assunto sempre presente em minha vida. A perda de alguém importante logo após você - no caso eu - ter lido um livro. Há exatos 40 anos - foi no dia 27 de maio de 1971 - que perdi meu pai, então com 49 anos, que morreu logo após eu ter lido para ele um trecho de um dos seus livros preferidos: "Sermões", do padre Antonio Vieira.

Quem se interessar pela leitura de "Tempo das Águas" pode solicitar que enviarei o arquivo em PDF.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A essência da música caipira no Paiol

Zé Mulato e Cassiano


Bom humor, ingenuidade e romantismo são alguns dos ingredientes da obra da dupla caipira Zé Mulato e Cassiano que se apresentam nos dias 3 e 4 de junho, sexta e sábado, às 21 horas no Teatro Paiol (Praça Guido Viaro, s/nº). Na ocasião o Trio do Trem – formado pelos músicos Oswaldo Rios, Nélio Spréa e Junior Bier – serão os anfitriões da mais autêntica dupla caipira do Brasil e prometem uma noite com muitos causos e, melhor de tudo, com muita música raiz como toadas, modas-de-viola, batuques, valseados, cururus, xotes e pagodes-de-viola.

Zé Mulato e Cassiano completaram trinta anos de carreira. São herdeiros de uma tradição que sintetiza o humor de duplas famosas das décadas de 20, 30 e 40, como Jararaca e Ratinho, Alvarenga e Ranchinho, entre outras. O Trio do Trem é formado por três violeiros-cantadores que tem na bagagem uma história de dedicação à música caipira.

A dupla participa ainda de um bate papo no Conservatório de Música Popular Brasileira, localizado na Rua Mateus Leme, 66 - Largo da Ordem, fone 3321-3208.

As apresentações fazem parte do Edital Música no Teatro Paiol. Projeto apoiado pelo Fundo Municipal de Cultura de Curitiba – Programa de Apoio e Incentivo à Cultura.
Trio do Trem


Serviço: 
Trio do Trem convida Zé Mulato e Cassiano.
Show de música caipira. 
Sexta e sábado, dias 3 e 4 de junho, às 21 horas no Teatro Paiol (Praça Guido Viaro, s/nº). 
Ingressos R$15 e R$7,50 (meia-entrada). 
Informações: (41) 3213-1340. 
Classificação: Livre.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A tradução de "O Leitor por Horas", de Sinisterra

Concluí a tradução de "O Leitor por Horas", do escritor espanhol José Sanchis Sinisterra. O texto, cuja tradução não sei por quem foi feita, talvez pela própria diretora, já foi montado e dirigido em 2006 por Christiane Jatahy (leia referência sobre a montagem aqui), no Rio de Janeiro com Ana Beatriz Noguei, Luciano Chirolli e Sebastião Vasconcelos. Jatahy ganhou o prêmio de melhor cenário com "O leitor por horas" (leia matéria aqui).

A relação entre um pai violento, rico e super protetor (Celso), um professor desempregado (Ismael,o que faz as leituras) e a filha cega (Lorena) para quem são lidos vários romances, é trabalhada por Sinisterra que inclui no seu texto algumas citações de grandes autores, como Laurence Durrell, Giuseppe Tomasi di Lampedusa, Joseph Conrad, Juan Rulfo, Arthur Schnitzler e o próprio Sinisterra que cita seu trabalho numa das leituras que o personagem Ismael faz para a arrogante Lorena.

Abaixo uma das cenas, na parte final da peça - são 17 cenas.

(...)


14


Celso – (lendo) “...já que os três somos outras tantas ilusões que ele engendrou; e suas ilusões formam parte de você, o mesmo que a carne, os ossos, as recordações... Estaremos reunidos no tormento, já não será necessário recordar-se do amor e a impureza, e pode ser que no tormento já não se lembre do porque que ali está. E se não recordamos tudo isto, o suplício não há de ser tão terrível.” (pausa) É um plágio. Um plágio descarado.

Ismael – Há coincidências, sim...

Celso – Um plágio vulgar... que, além do mais, ofende ao original.

Ismael – Eu não diria tanto.

Celso – E não é que eu goste especialmente de Faulkner, pelo contrário. Mais de um livro dele caiu em minhas mãos. Porém...

Ismael – Haveria que distinguir o plágio, como você o chama, de outras... de outras formas de influência... A pegada que todo grande autor... As marcas... inevitáveis, claro, dos mestres sobre... E não somente dos mestres. Às vezes, autores medíocres, obras de segunda ou terceira categoria... exercem uma... Pense, por exemplo, em Dujardin... Quem se lembra dele, hoje... à parte, os críticos, claro?... Sim: Édouard Dujardin, um autor dos mais medíocres. Ninguém o lê hoje... E este romance, Les lauriers sont coupé, o quê? Nada? Um romancezinho sim... Mas aí está... Inventou, por casualidade, o monólogo interior e... Sim, pelo menos foi Joyce quem o leu... Há outras formas de... Isto tem um nome... Quero dizer: estas marcas, esta... penetração de uns textos em outros, entende? Tem um nome: intertextualidade. É mesmo a vida da literatura... Em toda obra há... outras obras. Os textos circulam... há fluxos, entende?... Intertextualidade, sim... É mais que uma influência concreta... Ou menos... Penetrações... involuntárias, inconscientes, se quiser... Mas, plágios? Eu não diria tanto. (pausa) As grandes obras, os mestres, deixam como... como rastros a cada passo... É inevitável que... Nem tudo é inspiração, nem talento... É inevitável que as leituras deixem... um resíduo, um fermento. Às vezes são... texturas concretas... Quero dizer... paisagens, ritmos, configurações que... A originalidade não... Ou seja: absoluta. A originalidade absoluta é uma ilusão, ninguém a... Sempre há leituras, texturas concretas que vem de... É inconsciente, claro... A inspiração muitas vezes necessita... Todo escritor sabe o que isto... Estes momentos... Anos, às vezes anos inteiros em que... (pausa) Como o encontrou?

Celso – Um dos meus assessores, livreiro de velhos...

Ismael – Todo escritor conhece estes momentos, estes períodos de... Inclusive os grandes, não é? Inclusive os gênios. Períodos em que parece que já a inspiração... ou como queira chamá-la... Buscas, buscas dentro de si... ou fora... E somente há medo... A gente acredita que escrever é... Eu não entendo estes jovens romancistas... Bom, você diz que não os lê. Mas é incrível: produzem um romance por ano... E todos são magníficos, segundo a crítica... Um romance por ano, você imagina isto? Como podem...? Claro: o tempo os vai varrer, como se fossem... Mas as lê e... não estão mal escritas, não: há perspicácia, imaginação, desenvoltura... Nada mais, claro. Não passarão para a história. O tempo os varrerá... Mas são editas, vendem, sim, e se fala deles... Claro: arranhando um pouco e descobre-se que leram tudo, que aprenderam a lição, que estão em dia... Mas ninguém fala de plágio. É curioso, não é? (pausa) Não é o famoso medo da página em branco. Ou, então, tudo é uma página em branco... A sinistra brancura de Melville...

Celso – (depois de uma pausa) Falei de você... E me veio a lembrança do seu nome. Parece que o editor mandou recolher todos os livros, quando se levantou o assunto. (pausa) Há parágrafos inteiros quase copiados.

Ismael – Eu não diria...

Celso – E sabe por que me lembrei do seu nome? (ri) Porque seus outros dois romances, os primeiros, se ofereciam por quilos... É verdade isso?

Ismael – Tive problemas... com a distribuição.

Celso – Desculpe-me, vai pensar que brinco com você, mas...

Ismael – Não me compreende... Este medo o volta a um... É como um pânico que dura e dura... Os anos passam e... Sim: escreve, não para de escrever, mas percebe que aquilo não... não interessa a ninguém. Não interessa nem a você mesmo. Nasce como cinzas. E vai o envolvendo... não sei: permeável? Lê como um louco, buscando não sabe o que, e deixa que tudo aquilo o... o penetre... Essa escrita vigorosa, conquistada... Já que o seu não vale, já que você não é ninguém, deixa impregnar-se por...

(...)

O melhor da música caipira, da música de raiz

Pelo menos é o que percebo pela ilustre presença dos irmãos Zé Mulato e Cassiano com os outros músicos daqui de Curitiba, nos dias 3 e 4 de junho, às 21 horas, no Teatro Paiol. Vou pegar mais informações sobre o programa das duas apresentações e do encontro dos músicos lá no Conservatório de Música Popular Brasileira.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A estreia de "África ... um continente", em Buenos Aires

Stella Matute e Alejo Ortiz
Recebi de Patricia Zangaro, o seguinte comentário sobre a estreia de "África ... um continente" ontem a noite, no Teatro del Pueblo, em Buenos Aires. Patricia é a autora do texto que, no mês passado, fiz a tradução para o português. Para ver as fotos da estreia, acesse aqui pelo Facebook.

Umas poucas palavras sobre a estreia

Domingo chuvoso em Buenos Aires. É o crepúsculo, a hora da melancolia. Um punhado de espectadores toma a sala pequena do Teatro del Pueblo. Quatro atores se prepararam durante vários meses sob o olhar atento de Alejandro Ullúa e sua equipe de colaboradores para dar vida a um mundo que até então somente existia nas evocações da letra. A luz acende sobre "África ...um continente". Um território que alguma vez foi meu e que agora, graças a este pacto sagrado entre atores e público, conquistou sua autonomia. Seus, a tensão e o silêncio. Suas, a perturbação e algumas lágrimas. E, a partir de agora, o aplauso, comovido, do final.

   
Patricia Zangaro    

Stella Matute, Verónica Hassan, Matias De Padova e Alejo Ortiz

Ficha artística e técnica de "África ...um continente"

Autora: Patricia Zangaro
Elenco: Alejo Ortiz, Stella Matute, Verónica Hassan, Matías De Padova
Assistência de Direção: Florencia Ravera
Assistência de produção: Sofía Kiguel
Assistência de Cenografía e Figurino: Laura Muñoz e Camilo Caycedo
Fotos: Fuentes2Fernandez Fotografías
Música e trilha sonora: Sergio Vainikoff
Desenho de Iluminação: Matías Iaccarino
Desenho de Cenografia e Figurino: Valentina Bari
Produção Executiva: Andrea Montaldo
Assessoria de Imprensa: Simkin & Franco
Direção: Alejandro Ullúa
Sofia Kiguel, Valentina Bari, Matias de Saavedra,
Patricia Zangaro, Alejandro Ullúa, Flor Ravera e Andrea Montaldo
Fotos cedidas por: Fuentes2Fernandes Fotografias - Buenos Aires