terça-feira, 20 de abril de 2010

Uma certa manhã de abril

Como nascem as idéias? Victor Machado Faria encontra
uma passagem sob a cadeira do terceiro avô.

Marcela Viana Franzol, Rogério Viana
e Ernesto Piccoli Viana. Como nascem idéias
que estão tão longe? Como não se inspirar
com novos e talentosos atores reais?

Primeiro ato - Uma certa manhã de abril

Alguns dias antes eu recebera um telefonema do amigo e advogado Ricardo Balestra. Venha para Curitiba. Venha e tente participar de uma concorrência para um projeto editorial de comemoração dos 50 anos da (vou omitir a empresa). Na busca por novos caminhos e os inevitáveis desafios, eu vim. Tinha 56 anos. Um homem de 56 anos aceitando novos desafios. Cheguei a Curitiba às 6h30 da manhã de 20 de abril de 2004. Já fazia um friozinho ao qual eu não estava acostumado. Mas me preparara para ele, no outono paranaense. Encontrei-me com meu amigo que passeava com seu cachorro Jabú (de Jabuticaba) pelos lados do Mercado Municipal. Horas depois eu já estava na agência de propaganda do Maurício Betti que havia cedido um espaço lá para que eu pudesse, em dois dias, conhecer o "edital" para a produção editorial comemorativa e apresentar uma proposta de trabalho. Antes, tinha que ir na tal empresa e receber o referido "edital" e as instruções básicas de como proceder. Na agência, comecei a pensar e a montar o projeto na mesma tarde de 20 de abril. Aproveitei o feriado de Tiradentes e, no dia 22, preparei a apresentação e encadernei minha proposta. O projeto ficou, digamos, consistente, objetivo, realístico. Eu arriscara um só tiro, no único tiro disponível na minha arma imaginativa. Era acertar ou acertar. Antes do final da tarde eu estava na tal empresa para entregar meu projeto do referido livro comemorativo dos 50 anos da tal empresa que prefiro não indicar qual seja. Tive que correr para a loja Pernambucanas e Renner para comprar roupas mais pesadas. A temperatura havia caído bastante naqueles dias de abril e foi inevitável pegar um resfriado, complicado pela alergia respiratória provocada pelo ambiente do quarto de hotel onde eu estava hospedado, na região central de Curitiba. O sonho fora lançado e eu tinha que esperar uns dias para ver se o projeto emplacara. Tossi e sonhei muito.

Segundo ato - Nesta manhã de abril, 6 anos depois

Hoje, 20 de abril de 2010, levantei na mesma hora que eu chegara a Curitiba naquela distante manhã de 2004. Não tinha nenhum amigo me esperando na Rodoviária - nem ele nem seu Jabú. Não faz frio neste outono seco. A luz desta manhã está muito bonita vendo daqui do décimo terceiro andar do prédio onde moro no Bigorrilho. Acordei, levantei, beijei minha mulher discretamente para não despertá-la e vim para meu escritório escrever este post para meu blog. Seis anos se passaram. Anos fundamentais para mim. Anos que me fizeram ver Curitiba de outro jeito. Uma cidade com desafios maiores que os imaginados naquela manhã que aqui aportei no outono de 2004. Olho para os anos que se passaram e percebo que todas as dificuldades iniciais aqui encontradas foram tão menores que o apoio e a acolhida que recebi de tantas pessoas. De tantas famílias, de tantos velhos amigos e amigas de infância e de adolescência que aqui pude reencontrar. E das pessoas que aqui conheci. Das que reconheci talentosas. De outras que viram algum potencial em mim, também. O tempo passou por mim e sinto como foi importante certas coisas não terem dado certo, mesmo aquelas que pareciam perfeitas, definitivas. Depois de ter navegado por águas agitadas por sonhos em outras rodoviárias, portos e aeroportos - São Paulo, Brasília, Salvador - Curitiba foi, confesso, um misto de sonhos e pesadelos; de decepções e de grandes descobertas; de um quase amor que se perdeu em quem simplesmente passou, por um amor maduro, gentil, companheiro, inspirador que me fez, ainda mais, acreditar em sonhos e em possibilidades que eu não imaginava estar ainda diante de mim. Esse amor maduro, diria mesmo, quase improvável pela forma como aconteceu e que veio até mim, que me deu uma nova e enorme e alegre e festiva e unida família que somei, aos poucos, passo a passo à minha família de origem, tudo com muito carinho e respeito, somando a elas novos sonhos, novas realizações. Ganhei nos seis longos anos três netos. Dois meus - a Marcela e o Ernesto - ela, filha de Juliana, minha filha. Ele, o herdeiro do meu sobrenome, filho de Rafael Viana, meu filho. Aqui, onde convivo e vivo cercado de uma família italiana que adora cantar - e como cantam bem todos os Favetti - fui contaminado por tamanha italianidade (existe essa palavra?) que por questões do destino fui presenteado lá no interior de São Paulo, em Piracicaba e na vizinha Rio Claro, com dois netos de meu sangue que se misturaram com o sangue italiano do parceiro de minha filha e da mulher do meu filho, aquele um Colleone Franzol (Fábio) e ela uma Piccoli (Cassiana), neta de um avô italiano de olhos azuis. A mesa dos almoços e jantares, agora, nunca mais será a mesma sem uma referência e a presença de algum prato italiano sempre tão alegre, sempre tão acolhedor e nutritivo. Ah, mas não fui abençoado apenas com os netos que meus dois filhos me deram. Tem um terceiro, também importante em minha vida. Também virei um terceiro avô - sim, sou o terceiro avô que ele tem - de um menininho de nome Victor. Ele, o Victor, legítimo neto de minha mulher Vera, a única da cantante família Favetti (pelo lado da mãe) que diz não saber cantar mas que aprendeu e veio para o mundo para aplaudir seus tios que adoram cantar e já gravaram alguns CDs com excelentes composições e bem aceito pelo público. Ele, o Victor, agora com um ano e cinco meses, tem substituído em mim a ausência dos outros dois netos que estão no interior paulista, a Marcela que dia 15 fez 5 anos e o Ernesto, que completou seu primeiro ano no dia 10 de março e que começou a andar recentemente. Um resumo da ópera curitibana que se transformou a minha vida depois que para cá vim atrás do sonho de contar a história de 50 anos de uma empresa. O tal livro da tal empresa não saiu do papel muito embora meu projeto tenha sido escolhido. Mas não saiu nenhum outro projeto de nenhum outro papel, pois parece que foi coisa deliberada para que a história dos 50 anos da tal empresa não saísse mesmo em livro. Não pude escrever nenhuma história real. Mas completei vários contos que se somaram a outros tantos contos que já tinha escrito em São Paulo, Piracicaba, Salvador e que já são um livro de contos prontinho para ser publicado. Também escrevi muitos novos haikais - alguns nem tão haikais quanto possam parecer - e um monte, muitas novas poesias que aqui nasceram e que também podem se transformar no meu segundo livro de poesias (o primeiro é TRINTA TOQUES, publicado em 1999). Aqui nasceram mais textos, em vários formatos: uma peça de teatro musicado e inspirado no universo do circo-teatro-mambembe-caipira, oito peças de teatro (já tinha escrito uma, em 2003, em Salvador), duas outras peças de teatro que traduzi de autora argentina que reside na França, um roteiro de um curta metragem (já tinha escrito um roteiro de longa iniciado em Piracicaba e concluído em Salvador). Algum saiu do papel? Seria uma pergunta de vocês. Não! Nenhum AINDA saiu do papel. Alguns dos meus textos poderão sair do papel para ganharem palcos ou telas este ano. Minha única certeza, porém, é que já estão em estado embrionário novos textos para teatro, para cinema, novas poesias também. O processo criativo continua. Ganha mais incentivos. O pensamento não para e os dedos seguem agitados na procura das letras certas para as incertas palavras que vão surgindo a cada nova manhã. E em cada nova manhã que eu acordo ao lado de quem eu amo e de quem me faz acreditar que sim, é possível, que, sim, eu posso, que sim, eu posso, que, sim, eu posso...

Terceiro ato - Nas próximas manhãs de abril, maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro... janeiro, fevereiro, março...

Que venham os novos desafios. Hoje, com quase 62 anos... Um homem de quase 62 anos que aceita e que enfrenta novos desafios. Que venham os novos desafios. Que venham os novos projetos. Nenhuma dificuldade por maior que seja vai suplantar minha vontade, minha coragem, meu desejo de continuar produtivo, mesmo que tantas pessoas possam considerar que não é produtivo um homem de 62 anos que vive e que escreve contos, haikais, peças de teatro, roteiros de cinema, poesia...

(as fotos acima foram feitas por Vera, avó do Victor e terceira avó da Marcela e do Ernesto, meus netos)

11 comentários:

  1. PAI, SIMPLESMENTE.......MARAVILHOSO!
    TE AMO
    BJS NO CORAÇÃO

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  2. Estou orgulhosa de viver com você!!
    te amo! Vera "Morcotinha"

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  3. PAI, QUE VENHAM MAIS 6 ANOS....12...18.....24...
    PORQUE LONGEVIDADE É O FORTE DESTA FAMÍLIA!
    E QUEM CONTA UM CONTO AUMENTA UM PONTO, E PONTO PRA VOCÊ!
    TE AMAMOS
    BEIJOS
    RAFA, CASSI E PICO

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  4. Estou emocionada, com os olhos cheios de lagrimas porque apesar de tudo vc nao sabe mas e meu pai torto pois sou irma verdaeira de Sefora
    bjssssssss
    magali

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  5. Grande Rogério, muito boa sua história..tenha orgulho de tudo isso..apenas gostaria que fosse mais langa a descritiva do 1º ato vc me deixou curioso por não ter terminado o conto e revelado o resultado do teste na empresa, e achava que vc ia deixar no ar!!rss..sou marinheiro de primeira viagem,,mas vc nos leva a sonhar e reviver os momentos da vida..abraço e sucesso sempre em sua caminhada..(Reginaldo Araujo)

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  6. Chris Monteiro Machado20 de abril de 2010 13:19

    Lindo texto, Rogério! Parabéns, e aproveito para agradecer também por todo o carinho com o nosso Victor. Beijo,
    Chris

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  7. muito bonito tudo isso... que venham mais e mais anos, ideias e criatividade sempre...PARABÉNS!!

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  8. parabéns,realmente o senhor nasceu para escre ver, sempre soubemos disso.Estou emocionada pois veio a tona muitas lembranças boas. sucesso e abraços. GUITA,MILTINHO, NETO E MARILIA.

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  9. Rogério, caro
    Voce sabe da estima e admiração que temos por você. Os fluidos positivos de seus pensamentos, postura e criações, sao motivo de orgulho para todos. A arte agradece. Bjs. nas crianças e na Vera. Forte abraço. TIO TITI

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  10. Rogério. Eu estava lá no primeiro ato. Lhe acolhi na minha empresa, lhe apresentei meus amigos, minha esposa e minha filha Manuela. Sou parte dessa história e que não difere muito da minha que em meados de julho de 1994 aportei em Curitiba e corri para comprar sapatos com lã de carneiro, o frio era intenso, frio desses só vividos em Campos do Jordão. Pés aquecidos fui para minha longa caminhada, cheia de obstáculos e barreiras. Rogério, parabéns pela sua trajetória e pela familia que vc encontrou aqui nessa fria Curitiba, que é aquecida hoje por diversos Italianos, Paulistas e Paulistanos. Viva!!

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  11. Rogério. Eu estava lá no primeiro ato. Lhe acolhi na minha empresa, lhe apresentei meus amigos, minha esposa e minha filha Manuela. Sou parte dessa história e que não difere muito da minha que em meados de julho de 1994 aportei em Curitiba e corri para comprar sapatos com lã de carneiro, o frio era intenso, frio desses só vividos em Campos do Jordão. Pés aquecidos fui para minha longa caminhada, cheia de obstáculos e barreiras. Rogério, parabéns pela sua trajetória e pela familia que vc encontrou aqui nessa fria Curitiba, que é aquecida hoje por diversos Italianos, Paulistas e Paulistanos. Viva!!

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