sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Damaceno na revista BRAVO!

Marcos Damaceno e cartazes de suas peças
(foto de Patrícia Stavis)

Marcos Damaceno


Saiu na revista BRAVO! Edição de agosto de 2009.

Nossa Aposta - Marcos Damaceno

O diretor e dramaturgo se destaca em Curitiba com peça que ironiza nomes caros à cidade, como o ator Luís Melo

Por Cecilia Arbolave

A cidade de onde o ator Luís Melo e o encenador Felipe Hirsch partiram para ganhar relevância nos palcos brasileiros está gerando um novo talento. O diretor e dramaturgo Marcos Damaceno ainda colhe os frutos da ótima repercussão que obteve em março durante o Festival de Curitiba, uma das mais importantes mostras teatrais do país. Paulista de 28 anos, ele mora na capital paranaense desde a infância. Com o monólogo Árvores Abatidas ou Para Luís Melo, virou sucesso de crítica: a peça se destacou entre as 290 montagens que participaram do Fringe, o evento paralelo ao festival. Por conta do desempenho exemplar, Damaceno — que coordena o Núcleo de Dramaturgia Sesi Paraná, voltado para a formação de novos autores — vai trazer o espetáculo a São Paulo em novembro.

Não errará quem disser que suas produções devem ser vistas com os ouvidos. Na contramão do teatro tradicional, que privilegia a ação e o enredo, o diretor preocupa-se em ressaltar a palavra. Burila intensamente o texto na tentativa de encontrar uma linguagem mais adequada à oralidade e prioriza, acima de tudo, o ritmo das frases. É pela musicalidade dos diálogos que almeja fisgar a plateia. Por isso, prefere se apresentar em lugares pequenos, quase sem elementos cênicos, para que as falas do elenco estabeleçam uma relação íntima com os espectadores.

Geralmente, Damaceno exibe suas peças nos fundos da casa onde mora, em São Francisco, bairro boêmio de Curitiba. O sobrado de 70 m2 recebe entre 40 e 60 pessoas por sessão. "Para mim, a escolha do espaço é fundamental, já que o público tem de ficar na mesma pulsação dos atores", afirma. Essa comunhão com a plateia revela-se especialmente forte em Árvores Abatidas ou Para Luís Melo. Na mais recente criação do dramaturgo, baseada em livro do escritor austríaco de origem holandesa Thomas Bernhard (leia resenha sobre uma obra do autor na página 76), o elenco atua praticamente ao lado dos espectadores. A atriz Rosana Stavis — veterana com 20 anos de palco — protagoniza o monólogo. Durante um jantar com artistas para homenagear um ator famoso, sua personagem conclui estar rodeada de gente medíocre e, desapontada, dá início a uma penosa reflexão.

Oscilando entre o sombrio e o sarcástico, o texto desfere sutis estocadas em profissionais que se lançaram nacionalmente a partir de Curitiba. A protagonista imita vários dos presentes na reunião — entre eles, uma escritora que se julga sucessora de Virginia Woolf e que é chamada de Nena. Trata-se de uma alusão à diretora e produtora Nena Inoue. A atriz também arremeda o ator homenageado, um célebre intérprete do teatro nacional "que até faz telenovela", e critica sua soberba. Igualmente ferina, zomba de Felipe Hirsch. Embora o nome de Luís Melo só apareça no título da peça, fica claro que o ator da Globo, egresso da trupe de Antunes Filho, é o convidado de honra daquele jantar.

Um ataque pueril contra os que alcançaram o sucesso? "De jeito nenhum. Não desejo provocar por provocar", explica Damaceno. "Pretendo apenas refletir sobre a nossa condição de artistas e o ambiente cultural de Curitiba. Não dá para levar a sério quem não sabe rir de si mesmo." Ao menos em público, Luís Melo demonstra ter absorvido bem as provocações. Ele diz admirar a trajetória do diretor. "Seu diferencial é justamente a persistência em procurar uma nova estética. Eu acredito no Damaceno."


Cecilia Arbolave é jornalista.


Sobre Damaceno na revista BRAVO! veja o link:


Pouco amor, excesso de desejos

Assisti, ontem, no Miniauditório do Teatro Guaira a estréia da montagem "Uma História de Pouco Amor", texto de Edson Bueno, dirigida por Moacir Chaves e com Zeca Cenovicz, Laura Haddad, Sidy Correa e Patrícia Kamis.

A partir do título já dava para presumir que jogo aconteceria no palco. Onde há pouco amor, sobra espaço para tantas coisas. Se falta amor, ultrapassa o limite do que possa ser desilusão, insatisfação, solidão. Se falta amor, há um excesso de desejos, ânsia pelo que não se sabe o que possa ser. Quando falta amor, a arrogância ganha contornos insustentáveis. Onde não existe amor, aprisiona-se sentimentos mais saudáveis, a existência se limita pelo que ilimitado seja possível. Dinheiro e poder substituem o amor? O que excede, então, evidencia o que pouco existe ou se existiu minimamente, pouca semente deixou para florescer e ocupar o necessário espaço de paz e de consciência.

Moacir Chaves, nas cenas iniciais, deu o tom exagerado de tudo que equivocado e ruim havia na vida dos personagens. A voz empostada e artificial, o tom discursivo, frio, ausente, distante do que se poderia entender como real e pretensamente saudável, caracteriza não o pouco amor que possa existir entre Erik, Hilda, Max e Ana, mas o tanto de amor que não existe entre os parceiros que se formam entre tapas e beijos sem o menor sentido. O autor – Edson Bueno – escolheu bem os nomes dos personagens. Nomes curtos, minimalistas, nomes que soam duros, diretos, como tapas na cara, como beijos em si mesmos.

O cenário de Fernando Marés tem a mesma característica minimalista. O figurino, também. Os tons escuros – predomina o preto, o cinza – deixa evidente, também, que poucas luzes podem sair daquelas pessoas já sem brilho próprio e que podem fulgurar, em breves momentos, pelo falso brilho das drogas, das bebidas e do sexo inconsequente. Mesmo o “criativo e arrogante” Max, o máximo de cor que ele consegue atingir é o marrom. Uma cor muito difícil de combinar com o espírito criativo do personagem, mas, ao mesmo tempo, marrom combina com todas as cores, se a palheta deixar de simbolizar pessoas e for apenas para o vestuário, a moda, o que possa ser ou não “fashion”, passageiro, efêmero. O preto e o cinza sugam a luz, engolem a luz. Assim como são engolidos os personagens naquele ambiente de tanto desatino. E de brilhos ocasionais. O que seria sucesso para quem adora um tapão na fuça? Sexo, poder, beleza são ingredientes para a felicidade? O prazer pode ser alcançado apenas pelo que vai além da conta? Falando em conta, quanto vai custar a cada um o que cada um toma emprestado da falta de consciência ou do excesso de arrogância que, para eles, tem um sentido: para se ter prazer, vale tudo.

Ana (Patrícia) manipula com seu tipo exótico. Quando quer e como quer, pede para levar uns tapas. E leva. É a forma que ela tem de mostrar que é forte, que domina. Max (Sidy) quer, a todo custo, revelar nos seus anúncios, que só o sexo tem o poder de vender – e de convencer sobre qualquer coisa que se venda ou se compre, ou que tenha sentido. Erick (Zeca), sente-se ultrapassado, mas transfere suas inseguranças para a suposta força que tem Ana e Max, e deixa-se controlar pela rigidez de sua companheira. Hilda (Laura), toda rígida, insatisfeita – ela nunca conseguiu um orgasmo? - e focada apenas no amor e prazer que ela nunca teve, joga tudo para o trabalho e para o poder que imagina ter, demitindo, diminuindo, menosprezado a todos e a tudo que não signifique dinheiro, posição, sucesso.

A música de Vadeco é mesmo o som ideal para tantos desencontros. A guitarra solo, os blues, a batida sincopada, os sons levemente distorcidos, contrastam com a total distorção da perspectiva do real e reforçam que “Uma História de Pouco Amor” somente poderia ser contada com talento, com rigidez formal, com exageros e, sobretudo, com a demonstração de que amor é amor, mas pouco amor, nunca será amor. Nunca.

Rogério Viana

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Estudo de novos inícios

Sem querer que uma nova viagem de leitura seja marcada por um roteiro pré estabelecido e sem
desejar que novas compreensões fiquem presas a modelos, sugiro aqui a leitura de outros textos de teatro a partir das primeiras réplicas, como fez Jean-Pierre Ryngaert em seu livro “Ler o Teatro Contemporâneo”.
Apenas para recapitular o que prescreveu Ryngaert na obra citada: Iremos dedicar-nos a um ato de leitura breve e sintético, limitando-nos estritamente ao fragmento citado. (…) Estudaremos
prioritariamente o sistema de informações e o modo como se instaura o diálogo entre autor e leitor em função de suas respectivas “enciclopédias” … (…) As narrativas se estabelecem em diferentes níveis de informação e com subterfúgios muito contrastantes sem que se possam classificar automaticamente essas diferentes escritas em função de uma estética.
É o que também está sendo proposto, desta vez com uma escolha aleatória de textos que estão ou não em nossas mãos, frutos de uma pesquisa que fiz. Os textos originais e completos, caso interessem, poderão ser fornecidos a pedido.

Vamos aos textos:

BILHETE
Marici Salomão

Montagem patrocinada pelo Centro Cultural Banco do Brasil (2002). Temporadas no
Teatro do Banco do Brasil (22003) e no Centro Cultural São Paulo. Direção: Celso
Frateschi

ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE UMA PEQUENA CIDADE. VÊ-SE APENAS UM
BANCO DE MADEIRA E UM POSTE DE LUZ TREMULANTE. ENTRA
MULHER, CERCA DE 30 ANOS, BEM VESTIDA, MAS COM APARÊNCIA
CANSADA. À CABEÇA, UM CHAPÉU, COM QUE SE DEFENDE DOS
INSETOS. PORTA UM CASACO COMPRIDO E UMA MALETA. DEPOIS DE
LIMPAR O BANCO, SENTA-SE PARA AGUARDAR O TREM. CHECA A HORA
QUE CONSTA NA PASSAGEM E GUARDA-A NO BOLSO DO CASACO.
APESAR DA OSCILAÇÃO DA LUZ, FOLHEIA SEU LIVRO - CARTAS A THÉO -
E TENTA CONCENTRAR-SE NA LEITURA. SUA FIGURA CONTRASTA DE
FORMA GRITANTE COM A INOSPITALIDADE LOCAL. ERGUE OS OLHOS,
SOBRESSALTADA, QUANDO A LUZ DO POSTE AMEAÇA APAGAR.
MULHER (LENDO, DIDATICAMENTE. DEPOIS REPETINDO.) “Esquecer-se de si, realizar
grandes coisas, atingir a generosidade e ultrapassar a vulgaridade na qual se arrasta a
existência de quase todos os indivíduos.”

(SURGE UMA MULHER VELHA, VESTIDA COM ROUPAS PUÍDAS E
ESCURAS. APROXIMA-SE DE MULHER, QUE EM PRINCÍPIO NÃO PERCEBE
SUA PRESENÇA.)

VELHA Posso me sentar um pouco? (MULHER OBSERVA-A) Aí, onde a senhora está.
(SENTANDO-SE) Os outros estão ocupados, de cachorro ou titica de passarinho. Ai,
ai, a velhice é como erva daninha, traiçoeira: primeiro um nozinho aqui, depois outro
mais acima e vai subindo, subindo... Mas a senhora não sabe do que estou falando; na
sua idade o sangue ainda é quente. (PAUSA) Parte hoje, filha?

MULHER Sim, hoje mesmo.

VELHA De volta pra casa?

MULHER Não, ainda não. Infelizmente.

VELHA Por que infelizmente?

MULHER Por nada.

VELHA Não está a passeio?

MULHER Não senhora.

VELHA A trabalho?

MULHER Também não.

VELHA Então vou adivinhar. Quer adivinhar alguma coisa sobre mim?

(…)

BORRACHARIA 24 HS
Ricardo Soares

CENA 1

Três mulheres em uma borracharia de beira de estrada. Uma é a cliente, a outra é a borracheira
Jandira e a última é a garota de pouca roupa do calendário. Barulho de muita chuva, esparsas
trovoadas. Atmosfera úmida, luz baça.

Cliente( olhando o trabalho da borracheira ) - Gozado que a propaganda vive dizendo que esses
pneus radiais não furam nunca... mas só nesse ano é a terceira vez que me deixam na estrada

Borracheira( lidando com o pneu) - Ainda bem que furam né ? se não a gente ia mais é ficar no
prejuízo , tá me entendendo ? íamos ficar na pior, sem serviço.... Até porque , hoje em dia, todo
pneu de carro novo já sai de fábrica radial...

Cliente - E o que é isso ?

Borracheira - Sei explicar não princesa ... mas é uma pegada assim de que o pneu vai murchando
aos poucos tá me entendendo ? não arria assim direto não... não vai pro chão como o peito de umas colega tá me entendendo?

Cliente - Ahhhh tá... mas furar o pneu três vezes num ano que mal começou fica ruim né ???

Borracheira - Podes crer... é muito sim , é muito furo. E esse pregão aqui (mostra o prego ) pegou
seu pneu de jeito ...quase rasga tudo ! olha aí !!!

Cliente - E eu nem imagino onde posso ter passado por cima desse prego. Com a chuva que tá
caindo !!!??? sei lá onde foi isso...

Borracheira - Éééé ... esse ano o inverno tá bravo mesmo ...

Cliente – Eu ouvi que esse ano veio um vento minuano lá do sul ...

Borracheira – Mino o que ????

Cliente- Minuano, do sul...

Borracheira - Ahhhh... uma parada gaúcha ...tô ligada nessas paradas não... aqui é tão longe
princesa, mas tão longe que nem esse mino chega aqui... ele se perde nas quebradas...

(…)