sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Cena Breve no Teatro da Caixa


O Teatro da CAIXA apresenta a V Mostra Cena Breve, que reúne 14 grupos teatrais de Curitiba, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Durante seis dias eles apresentarão cenas curtas, possibilitando que o público tenha, numa única noite, contato com três concepções diferentes. Nestes cinco anos de realização, a Mostra vem se consolidando como um espaço de troca e experimentação entre os grupos e principalmente com o público, que tem a oportunidade de conhecer uma diversidade de propostas estéticas, apresentadas em formatos teatrais completamente diversos.

Além da apresentação diária das cenas, também oferece aos participantes oficinas e debates nas manhãs seguintes das apresentações. Este ano, novamente, a Mostra mantém a conexão com o Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto, trazendo para o encerramento a Cia. do Chá de Belo Horizonte, vencedora do Festival mineiro em 2009.

Uma novidade nesta edição será a ampliação da Mostra com apresentações na região metropolitana de Curitiba. De 25 a 27 de novembro, as quatro cenas mais votadas pelo público e pelos convidados da Mostra serão reapresentadas no Teatro da Praça, em Araucária.

Abertura com a Cia dos Atores

O espetáculo “Apropriação” abre esta edição. Concebido por Bel Garcia, com a ajuda de Marina Vianna, Leonardo Netto e Thierry Tremouroux, esta montagem inédita discute temas como livre arbítrio, autoria e impotência do homem perante o seu criador. “Apropriação” se inicia a partir do encontro de dois homens em um bar, que tentam descobrir como se preenche o tempo de uma pausa. Com a presença do autor, eles trocam experiências e memórias questionando através de viés bem-humorado suas identidades e funções.

Oficina

Como em suas outras edições a Mostra também oferece aos grupos participantes uma oficina, que promove o encontro e a reciclagem dos artistas e grupos. Este ano será realizada a “Oficina Teatro Físico” que trabalhará parte do treinamento da Cia dos Atores e será ministrada pelo Português Nuno Gil, que está no Brasil trabalhando com o grupo carioca. Mais informações sobre a Mostra e sobre os grupos através do site www.ciasenhas.art.br


Espetáculo: 5ª Mostra Cena Breve Curitiba


Local: Teatro da Caixa


Endereço: Rua Conselheiro Laurindo, 280 – Curitiba


Data: de 18 a 23 de novembro


Horário: quarta 19h e 21h, quinta a sábado 21h, domingo e segunda 19h


Ingressos: R$ 6,00 e R$ 3,00 (meia)


Bilheteria: (41) 2118-5111 (de terça a sexta, das 12 às 19h, sábado e domingo, das 16 às 19h)


Lotação máxima do teatro: 125 lugares (02 para cadeirantes)


www.caixa.gov.br/caixacultural


Temporada das Cenas mais Votadas


Local: Teatro da Praça


Endereço: Praça São Vicente de Paulo, 1091 - Araucária


Data: de 25 a 27 de novembro

Horário: 20h


Ingressos: Entrada Franca


Informações: 3901-5213 / 3901-5378


Teatro da Caixa

Rua Conselheiro Laurindo, 280 www.caixa.gov.br/caixacultural


Ingressos 6,00 e 3,00 (meia com 1kg de alimento)



PROGRAMAÇÃO DA V CENA BREVE


Dia 18.11 às 19h e 21h Abertura espetáculo convidado APROPRIAÇÃO ® Companhia dos Atores RJ

Dia 19.11 às 21h E ela abriu os olhos embaixo d'água Companhia de Alguém PR Coração de Congelador Súbita Companhia de Teatro PR Burlescas Boogie-Woogie Companhia Silenciosa PR

Dia 20.11 às 21h Desejos Cia. Stravaganza RS Coração acéfalo/Boca desgarrada Companhia Subjétil PR Altos e baixos Cia dos Palhaços PR

Dia 21.11 às 21h Pecinhas para uma tecnologia do afeto - O Teste Teatro de Ruído PR Meu sonho é participar de um filme do Pedro Almodóvar Círculo de Encenação e Pesquisa Pé no Palco PR Suba na vida Casa de Passagem MG

Dia 22.11 às 19h 5 cabeças à espera de um trem Cia 5 cabeças MG Looners Elenco de Ouro PR Prêtà-Porque Cia. Portátil PR Dia 23.11 às 19h - entrada franca Conexão - Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto MG Cena Convidada A Mudança Cia do Chá MG Bate-papo “Em Cena: a Cena” com Leonardo Lessa MG, Nina Rosa PR, Paulo Biscaia Filho PR, Cia do Chá MG mediação: Chico Medeiros SP


Programação paralela - Curitiba Debates diários de 20 a 23.11 às 11h n

o Espaço CiaSenhas, Rua São Francisco, 35 com: Francisco Gaspar PR, Francisco Medeiros SP e Gladis Tridapalli PR Festa dia 21.11 a partir das 23h no Original Beto Batata Rua Professor Brandão, 678 com discotecagem de André Abujamra Blog Participe da Mostra através do blog

mostracenabreve.blogspot.com 25 a 27 de novembro de 2009 às 20h - entrada franca Teatro da Praça

Araucária Temporada das Cenas mais votadas Teatro da Praça l Praça São Vicente de Paulo, 1091 Araucária Informações: 3901-5213 e 3901-5378 Entrada Franca Programação: www.ciasenhas.art.br

Chica Polka

CHICA POLKA

Sofri, chorei e tive muito amores

Depois que uma mulher compôs a primeira marchinha de carnaval em 1899, o Brasil nunca mais foi o mesmo. Chiquinha Gonzaga misturou os ritmos europeu e africano, para criar uma música popular e brasileira, ao mesmo tempo em que abria caminho para a mulher do século XX.


Dias
13, 14 e 15 de Novembro

Sexta, sábado e domingo às 20h no Teatro Cleon Jacques (Parque São Lourenço)

Elenco: Alessandro Ferreira, Ana Paula Machado, Carolina Moreschi, Carolina Shulman, Elton Krug, Mariana Cazella, Pollyana Hoffmann, Paulo Rosa e grande elenco.

Direção: Gabi Olsen

ENTRADA FRANCA!!

Todos Convidados!!


http://www.youtube.com/watch?v=mIGiJM2cVYE

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Mais quatro encontros como Roberto Alvim

A Oficina permanente de Dramaturgia, do Núcleo de Dramaturgia do SESI Paraná, terá mais quatro encontros com o Roberto Alvim este ano. Vão acontecer nos dias 17 e 24 de novembro e 01 e 15 de dezembro no Teatro José Maria Santos, para as turmas da tarde e da noite.


Dramaturgia em movimento

Samir Yazbek é autor de "O Fingidor"


Workshop com Samir Yazbek - Dramaturgia em Movimento


Serão abertas, em breve, pelo Núcleo de Dramaturgia SESI Paraná as inscrições para o Workshop Dramaturgia em Movimento com o autor e diretor Samir Yazbek. O workshop acontece nos dias 9, 10 e 11 de dezembro de 2009 e nele será apresentado um estudo de conceitos, abarcando as mais variadas correntes estéticas e ideológicas, culminando nas possibilidades da dramaturgia contemporânea. No dia 8 de dezembro (terça-feira) Yazbek dará palestra , aberta ao público em geral e com inscrições antecipadas também a serem feitas diretamente no site do Núcleo de Dramaturgia do SESI Paraná.


As inscrições para o workshop - restrito aos participantes da oficina regular de dramaturgia do SESI Paraná - serão feitas no próprio site do Núcleo de Dramaturgia, onde, também, poderá ser gerado o boleto para o pagamento da taxa de inscrição.


Dias 8 - palestra às 20 horas;

Dias 9, 10 e 11/12 - workshop das 19 às 23 horas.

Teatro José Maria Santos


Quem é Samir Yazbek


Samir Yazbek é dramaturgo e diretor teatral. Consolidou sua formação com o diretor Antunes Filho. Escreveu "O Fingidor" (Prêmio Shell/99 de melhor autor; distribuída pelo Ministério da Educação para 475.000 alunos da rede pública de ensino); "A Terra Prometida" (entre os dez melhores espetáculos de 2002, segundo o jornal O Globo); "A Entrevista", "O Invisível" e "A Noite do Barqueiro", entre outras. É organizador de "Uma Cena Brasileira", da Editora Hucitec, coletânea de depoimentos de Eva Wilma, Laura Cardoso, Paulo Autran e Raul Cortez, entre outros atores e atrizes. Também é autor de "O Teatro de Samir Yazbek", lançado pela Coleção Aplauso, da IMESP, com a edição de suas peças "O Fingidor", "A Terra Prometida" e "A Entrevista". Escreve artigos para jornais e revistas de circulação nacional, como Folha de S. Paulo, O Estado de São Paulo e Revista Bravo!. Ministra oficinas de dramaturgia em instituições como SESC e outras. Em 2009 publicou a peça inédita "Os Gerentes", pela Editora Unicamp, fruto do Programa Artista Residente, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), para o qual foi convidado. Recentemente foi ao ar pela TV Cultura, em parceria com a Rede SESC TV, o teleteatro "Vestígios", que escreveu e dirigiu, e uma adaptação de sua peça "O Fingidor", que também dirigiu. Prepara, para 2010, com a Cia. Arnesto nos Convidou, o espetáculo “Canto para um Pai Ausente”, inspirado na imigração libanesa.


Leia entrevista de Samir Yazbek ao JORNAL DA UNICAMP:


http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/outubro2007/ju374pag11.html


Leia entrevista para o site DRAMATURGIA CONTEMPORÂNEA


http://www.dramaturgiacontemporanea.com.br/artigos.php?autor_id=25&art=2&texto=38

sábado, 7 de novembro de 2009

Encontro de estudos

Estudos sobre a obra de Michel Vinaver

Na próxima terça-feira, dia 10 de novembro, das 14 às 18 horas, vamos promover um encontro de estudos entre participantes da Oficina de Dramaturgia SESI - PR. Os temas a serem estudados são: o teatro de possibilidades e as muitas instâncias de tempo e de espaço nas obras de Armand Gatti, Michel Vinaver, Sarah Kane e Heiner Muller. Serão discutidos os textos A PROCURA DE EMPREGO (Michel Vinaver), QUARTETO (Heiner Muller).

Os participantes interessados poderão confirmar presença através do e-mail

rogeriobviana@yahoo.com.br


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Teatro das possibilidades – Simultaneidade e fragmentação

(extraído de LER O TEATRO CONTEMPORÂNEO de Jean-Pierre Ryngaert – Martins Fontes – São Paulo – 1998 – pág. 127 – 133)

6 – O teatro das possibilidades

Armand Gatti denomina “teatro das possibilidades” uma dramaturgia em que o espaço-tempo gera simultaneamente várias dimensões e épocas para dar conta do homem que se cria de maneira perpétua. Ele foi um dos que fragmentaram muito cedo a percepção tradicional do tempo e do espaço no teatro. Confrontado com um grupo de garis na cidade de Paris convidados para assistir a uma representação de LA VIE IMAGINAIRE DE LÉ ÉBOUER AUGUSTO G. (A vida imaginária do gari Augusto G.) (Seuil, 1962), ele conta, em uma entrevista publicada no periódico La Nef em 1967:

Como eu lhe perguntasse se as diferentes formas de temporalidade não os tinha incomodado (a mistura dos tempos era, na verdade, o que mais se criticara), eles conversaram e me deram esta resposta, que acho excelente (…): não sabemos se entendemos direito mas é isso: alguns de nós têm televisão, no noticiário nos mostram coisas que aconteceram ontem, outras que aconteceram hoje, em Paris, Moscou, Londres, e tudo isso em sequência: é isso sua temporalidade? - É isso.

Gatti escreve teatro “fragmentado” quando toma consciência de que o teatro burguês não está em condições de dar conta “dos dramas que o homem contemporâneo estava vivendo”, e ele coloca sua tomada de consciência na experiência nos campos de concentração que a linguagem teatral tradicional é incapaz de restitui. Chama o tempo “normal” do teatro de “tempo-duração”, “tempo de relógio”, “tempo-continuidade” e “tempo-fatalidade” na análise que dele fazem Gérard Gozlan e Jean-Louis Pays (Gatti aujourd´hui, Seuil, 1970). A experiência da deportação o leva a refletir sobre a História e inventar para ela um outro tempo teatral:

Se no mesmo instante eItálico ao mesmo tempo podemos dar uma injeção de passado em um presente e partir para o futuro, damos conta de um procedimento muito mais verdadeiro. A sucessão das imagens, dos pensamentos, é a linguagem do homem que é perpetuamente criada.

(entrevista para o periódico Les Lettres Françaises, agosto de 19654, citada por Gozlan e Pays)

Gatti parte, pois, de uma experiência política e humana e não de um capricho formal, para forjar uma ferramenta adaptada a “estas possibilidades que se encontram no homem”, e que ele utilizará na maioria de suas peças, fazendo a mesma análise para o espaço e para o tempo, denunciando a cena única que engendra um teatro “senil” e propondo substituí-la por um espaço que dê conta de um mundo que vive simultaneamente em várias dimensões e épocas:

O fato de criar um tempo-possibilidade levou quase obrigatoriamente a um espaço-possibilidade, isto quer dizer que há um espaço dado que cria todos os espaços possíveis.

Em Auguste G., o personagem central do gari brilha; cinco atores diferentes, com idades de 9 a 46 anos, são responsáveis por ele. A cena se divide em sete lugares que situam momentos do passado, do futuro sonhado por Auguste G. E diferentes momentos do presente. Em Chant public devant deux chaises électriques (Canto público diante de duas cadeiras elétricas – Seuil, 1964), existem cinco espaços-possibilidade representando salas de espetáculo em Lyon, Hamburgo, Turim, Los Angeles e Boston, em que espectadores assistem simultaneamente à representação de uma peça sobre o caso Sacco-Vanzetti, o que dá à execução e suas consequências uma dimensão mundial. Em La passion du général Franco (A Paixão do General Franco – Seuil, 1968), ele inventa trajetos geográficos que estruturam a peça e ilustram a situação do espanhol errante, exilado político ou econômico.

Gatti é um autor pouco encenado hoje, talvez devido ao engajamento político de seu teatro. No entanto, sua dramaturgia teve uma influência duradoura e quase subterrânea na percepção do tempo e do espaço no teatro.

Sobre Armand Gatti, leia mais em http://www.eca.usp.br/salapreta/PDF02/SP02_040_bezerra.pdf

7 – Aqui e alhures: simultaneidade e fragmentação

O espaço-tempo fragmentado nem sempre tem tais pressupostos ideológicos. Em várias de suas obras, Michel Vinaver imbrica diferentes conversas que prosseguem ao longo de toda uma sequência. Desse modo, ele entrelaça discursos que poderiam advir de espaços-tempo diferentes e faz com que sejam ouvidos simultaneamente. Em La demand d´emploi (A procura de emprego – 1972), “peça em trinta partes”, quatro personagens – Wallace, diretor de recrutamento de executivos, CIVA; Fage; Louise, sua mulher: Nathalie, filha deles – são captados entre uma conversa familiar e a continuação de um questionário de admissão. “Eles estão em cena sem interrupção”, define Vinaver, que, por outro lado, não fornece nenhuma indicação cênica e, principalmente, nenhum indicação espacial. Este é o início da primeira parte, intitulada UM:

(Utilizei aqui o texto na tradução que foi publicada em 2008 em São Paulo e que remeti a todos da Oficina de dramaturgia do SESI Paraná por e-mail)

UM

Wallace – O senhor nasceu no dia 14 de junho de 1927 em Madagascar

Louise – Meu bem

Fage – Sou fisicamente

Wallace – É óbvio

Louise – Que horas são?

Nathalie – Pai não faça isso comigo

Fage – É um ideal que a gente constrói junto quer dizer que não se trabalha só pelo holerite

Louise – Você deveria ter me acordado

Fage – É o que eu ia fazer mas você dormia tão relaxada

Wallace – O que faziam seus pais em Madagascar em 1927?

Fage – Com teu braço dobrado ficava um belo quadro

Nathalie – Se você fizer isso comigo pai

Louise – Não engraxei teus sapatos

Fage – Meu pai era médico militar

Louise – Você saiu com lama nos sapatos

Nathalie – Pai me responde

Fage – Na época estava servindo num quartel em Tananarive

Wallace – Na nossa empresa

Fage – Mas não guardei nenhuma lembrança

Wallace – Nós damos muita importância ao homem

Nessa forma de conversa múltipla, dispomos de poucas indícios espaciais. Podemos imaginar um local privado, íntimo, o da família, e um local externo, social, o do escritório de uma empresa. Nesse caso, Louise e Nathalie estão ligadas ao primeiro, Wallace ao segundo, e Fage garante a conexão, já que é ele que fala nesses dois locais ao mesmo tempo. Nada torna esses lugares realmente indispensáveis à representação. Talvez se trata de um local único, o de Fage ou de sua consciência, atravessado pelos dois discursos. Mas podemos imaginar outras soluções, inclusive uma “instalação” da família na empresa ou uma incrustação do diretor de recrutamento no local privado. Do ponto de vista temporal, podemos imaginar um retorno ao lar após a entrevista (uma parte das réplicas concernem ao período da manhã, antes de Fage sair), mas ainda assim nada é evidente e nada data, por exemplo, as intervenções de Nathalie. Lógica demais na separação dos espaços levaria a um reexame do diálogo entrelaçado. Mas o interesse do texto reside precisamente nos entrechoques das falas, na confrontação entre o discurso profissional que se tornará impiedoso e o enfraquecimento progressivo do discurso familiar.

Em Oeuvres complètes (Obras completas), Vinaver apresenta a peça:

Desempregado há três meses, um diretor de vendas procura um novo emprego. Ao mesmo tempo que se submete a questionários aplicados como máquinas infernais, ele encara sua filha, esquerdista, e sua mulher, que não lida bem com a perda de um modo de vida seguro. Esta trama simples serve de suporte a uma escrita dramática fora de esquadro: ausência de lugar, ruptura de cronologia, encavalamento de motivos e ritmos. Nos espaços misturados, os personagens entrecruzam seus tempos e se fala. Não sem realismo: como sempre, cada um aqui está sozinho com todos e em todos os lugares.

Mesmo que a chave esteja dada (o encavalamento), nada está resolvido do ponto de vista da representação, mas uma coisa é certa: a escolha da forma está, aqui, totalmente ligada ao modo de narrar e àquilo que poderíamos chamar de ideologia da narrativa. A complexidade é inerente à obra e não deve absolutamente ser analisada como uma preocupação voluntária de parecer “moderno”.

O caráter musical da construção do diálogo, observável em Vinaver, é acentuado por Daniel Lemahieu em Viols (Violações – 1978), em que toda relação com um espaço e um tempo identificáveis desaparece em benefício único dos fragmentos do diálogo para duas vozes de mulheres. Nesse caso, a simultaneidade é mais formal, menos ancorada ainda no espaço e no tempo, e o texto se assemelha a um oratório.

Nesses dois exemplos o diálogo prevalece sobre todas as marcas espaço-temporais; o texto em fragmentos atinge limites em que a enunciação é privilegiado, o que torna o trabalho do leitor particularmente delicado por falta de apoios concretos concernentes à situação. É preciso, então, que ele aceite abandonar seu sistema habitual de observação, que desconsidere o que seria da ordem de uma situação tradicional e que se entregue aos fragmentos do diálogo. Esse é o preço para se encontrar a unidade profunda de textos em que as variações do espaço e do tempo são tantas e tão repentinas que é preferível ficar na superfície da fala, no ponto em que o choque das réplicas fragmentárias produz sentido quando se aproximam umas das outras e podem ser compreendidas em sua continuidade.

A grande liberdade dramatúrgica que se instaurou nas relações com o tempo e o espaço é marcada por uma observação pelo presente, qualquer que seja a forma que assumam esses diferentes “presentes”, e por uma desconstrução que embaralha as pistas da narrativa tradicional fundada na unidade e na continuidade. O “aqui e agora” do teatro se torna o cadinho em que o dramaturgo conjuga em todos os tempos os fragmentos de uma realidade complexa, em que os personagens, invadidos pela ubiquidade, viajam no espaço, por intermédio do sonho ou então, mais ainda, pelo trabalho da memória.

Tudo se passa como se um teatro atual voltasse obstinadamente a hoje e como se todos os acontecimentos convocados fossem revividos e julgados novamente à luz do presente. Pode-se ver nisso o indício de uma espécie de imperialismo da consciência contemporânea que ainda se alimenta de acontecimentos passados sob condição de aproveitá-los sem demora, da impaciência de uma época em que a percepção do instante teria primazia sobre o longo trabalho de reconstituição precisa da História. Talvez também se deva buscar na influência da psicanálise esta relação com um presente revisitado pelo passado ou assombrado por ele. De qualquer forma, os acontecimentos colocados no teatro são incansavelmente questionados, confrontados, ligados entre si e como que movidos por uma agitação que transcende as incertezas. Na falta de um ponto de vista ideológico seguro, a narrativa se entrega à dúvida. A consciência é admitida como inteiramente subjetiva quando a busca individual é submetida às vacilações da memória. Ela recorre aos pontos de vista múltiplos e à refração prismática para compreender um mundo instável, considerado entre a ordem e a desordem. A fragmentação não é uma palavra de ordem de cunho modernista, mas na maioria das vezes é a expressão de um questionamento, até mesmo de uma angústia, sobre a verdade dos fatos e seus desdobramentos. Ao passo que Gatti mostrava otimismo ao falar das “possibilidades” dessa ubiquidade narrativa, a desconstrução agiu jogando a responsabilidade para o campo do leitor e submetendo-o, por sua vez, às incertezas da decifração.

Textos citados podem ser acessados no GRUPOS, no link abaixo:

http://groups.google.com.br/group/dramaturgiasesi_tarde/files?upload=1

VOCABULÁRIO

Imbrica = sobrepõe

Ubiquidade = onipresença - onipresente

sábado, 31 de outubro de 2009

Uma novela de rádio

Neville orienta Lucas Komechen, o ascensorista João

Patrícia Kamis e Lucas Komechen ensaian sua cena

O diretor prepara a gravação no elevador

Komechen, Cláudia Brito e Eberson Galiotto ensaiam

Neville grava o ensaio da cena de Eliane Karas e Lucas Komechen

Últimas orientações aos atores antes de gravar

A gravação da última cena da novela no elevador

O diretor David Ian Neville fez, hoje, um exercício com os participantes do Workshop de Dramaturgia e onde foi criada uma novela para rádio a partir dos personagens criados no exercício proposto por ele ontem.

Os personagens escolhidos foram: João, ascensorista; Branca, funcionária de um escritório; Keli, estagiária de um escritório; Rafael, office-boy de um escritório; Arlete, faxineira do edifício.

Local da ação: um dos elevadores do edifício.

O dia em que o ascensorista
desceu do elevador para subir na vida

O enredo: João fica sabendo naquele dia que havia ganho 25 milhões na Mega Sena. Resolve que vai abandonar o emprego e, antes, começa a "cantar" algumas das passageiras do seu elevador. Tenta, primeiro, com Branca e é rechaçado imediatamente, mesmo quando diz que ganhou a "bolada". Branca deixa João sozinho no elevador. Dentro do elevador, João assiste aos insistentes pedidos de Rafael para que Keli o namore. Keli esnoba Rafael e não aceita namorá-lo. Mesmo pedindo a ajuda de João, Rafael não é aceito por Keli. João, então, decide insinuar-se para Keli. Ela não leva nada a sério e despacha João com um sonoro "não". Decidido abandonar seu posto de trabalho antes do final do dia, uma sexta-feira, véspera de feriado, apressados funcionários das empresas do edifício pedem para que João os transporte rapidamente para baixo. Dentre os passageiros está Arlete, a faxineira do prédio. João nega-se a atender os pedidos e revela que não vai mais trabalhar como ascensorista pois acabara de ganhar uma bolada de 25 milhões na Mega Sena. Nenhum dos passageiros acredita. A sonhadora Arlete, que quer ser cantora de música "gospel" diz que acredita em João e que ele é o homem que ela tanto esperou. João deixa todos no elevador e, Arlete corre atrás dele. No corredor do edifício, João se vinga das recusas de todas as mulheres em cima da sonhadora Arlete. Ele a destrata, a chama de "baranga" e diz que com 25 milhões na conta vai poder escolher melhor as mulheres que quiser.

O autor e diretor escocês orientou os improvisos dos atores que participaram das cenas e gravou, dentro de um elevador, os diálogos entre os personagens. Tudo foi feito com toques de humor.

Elenco: João - Lucas Komechen; Branca - Patrícia Kamis; Keli - Cláudia Brito; Rafael - Eberson Galiotto (Pretto); Arlete - Eliane Karas. Passageiros - Douglas Daronco, Paulo Renato Oliveira e Cynthia Becker.

Fotos e versão do enredo aqui apresentados: Rogério Viana