segunda-feira, 12 de abril de 2010

Um telefonema, um e-mail e uma lata de banha

Mas, de vez em quando, me dá saudade de cozinhar
com banha. Daquelas que vinham em latas de 20 quilos.
Mas eu penso no tal homem e meu olhar solidário de
criança me diz para não comprar,
de ninguém, uma lata de banha.

Durante várias semanas ele esperou um telefonema. Ele queria mesmo que além do telefonema viesse um e-mail antes. Não veio. Nada. Nas últimas 48 horas ele ficou grudado no monitor de seu computador. Abria e fechava sua conta de e-mail. Várias vezes. Nenhuma mensagem. Zero. O ouvido ligado nos dois telefones. O celular bem ao lado do monitor do computador. O telefone fixo, à direita, ao alcance da mão. Bastava espichar um pouco. Nada. Nenhum som diferente. Ele continua esperando e não havia som nenhum nessa espera. Talvez o coração batesse mais aceleradamente. Talvez. Mas não sentia nada além da respiração, vez ou outra, mais profunda. A inquietude dele por um telefonema. Ou um e-mail.

A inquietude era mesmo real. O que o deixava inquieto, porém atento, atento demais, o que era? Ele não queria mesmo o tal telefonema, ou um possível e-mail. Não era isso que ele queria. Tudo era bem mais simples que um telefonema ou um mero e-mail. Ele queria o que não é muito comum nesses tempos de cada um por si... Queria atenção. Talvez não atenção. Queria algo um pouco mais complexo. Queria pertencer. A quê? Pertencer não é algo tão simples. Para pertencer, além de atenção, alguém deve reconhecer o outro. Se não reconhece, não presta atenção e, portanto, não dá, ao outro o sentido necessário e vital do pertencimento. Se alguém pede atenção, pode fazê-lo por muitos jeitos. Uns até engraçados.

Uma vez um cara roubou uma lata de banha numa pequena cidade do interior do Paraná. Sabe o que o delegado da cidade fez? O homem ficou duas horas caminhando com a lata de banha na cabeça, dando voltas e mais voltas na quadra onde ficava o armazém do qual ele pegara a lata de banha. Não é engraçado? Não, de engraçado não tem nada. É triste. O cara, o tal homem, roubou a lata de banha. E ele não queria atenção. Ele queria é um emprego. Um salário. Um trabalho. Alguma coisa que pudesse dar a ele dinheiro suficiente para ele, naquela época, ir no armazém e comprar a lata de banha. Também poderia comprar arroz, feijão, açúcar, cebola, linguiça, um pedaço de carne seca, sal. Pimenta. Farinha. Farinha de trigo, não. Ele poderia querer só farinha de mandioca. No máximo, farinha de milho, fubá... essas coisas que dá para fazer polenta. Poderia também comprar azeite de oliva. Umas 200 gramas de azeitonas pretas, daquelas bem grandonas e perfumadas.

Mas o que tem o tal pertencimento com a história do homem que roubou uma lata de banha?Como o homem não pertencia ao mundo normal do trabalho, como ele fora, de algum modo, excluído do mundo, da sociedade, do trabalho com carteira assinada, dessas coisas, ele, ao roubar tinha dado um aviso. Pessoal, pessoal, eu preciso de um trabalho. Nem que seja, apenas para carregar latas de banha na cabeça. Então, ele, mesmo carregando, naquela tarde tão distante no tempo, sentiu um pouco o quão difícil é pertencer. E quanto é fácil ser criticado, ser menosprezado, ser excluído da vida.

E o que o homem fez? Olha. Pelo que eu posso imaginar, ele nunca mais passou por aquela quadra, muito menos entrou mais naquele armazém. E qual é o sentido dessa história? Ainda bem que hoje eu só cozinho com azeite de oliva. Mas, de vez em quando, me dá saudade de cozinhar com banha. Daquelas que vinham em latas de 20 quilos. Mas eu penso no tal homem e meu olhar solidário de criança me diz para não comprar, de ninguém, uma lata de banha.

Diálogos impossíveis dentro de uma realidade possível

Você sabe para onde vai?

A princípio, sim.

Então, sabe.

Mas posso não ir para onde imaginei.

Imaginou?

Sim. Mas não vou para lá.

Mudou ou preferiu escolher outro lugar?

Nem uma, nem outra.

Não é questão de mudança, muito menos de escolha.

Agora você sabe para onde vai?

Agora, não.

Mas como? É absurdo assim...

Nem tanto, nem tanto...

Na primeira pergunta, você disse que a princípio sim.

Na segunda, disse agora não.

E agora?

Eu vou.

Para onde?

Para onde não tinha pensado antes. Prefiro ir por onde não imaginassem que eu iria.

Então não vai para lá?

Não. Nem para cá...

Vai para onde?

Vou por onde eu vou.

Sem rumo, é isso?

Você não devia se preocupar pelas minhas escolhas.

É que você diz uma coisa, acaba indicando uma outra e vai numa direção completamente diferente.

Não posso, sempre, caminhar pelo lado previsível do caminho.

Mas para lá é para lá. Para o outro lado, é o outro lado.

Mas eu posso voar e chegarei onde desejo.

Com que asas?

Eu penso, não penso?

Sim, então sabe que não voa.

Mas eu imagino, não imagino?

Mas isso não torna o caminho real.

Mas eu tenho coragem.

Mas isso não facilita a jornada.

Mas eu tenho fé.

Não me consta que você seja um homem de fé.

Mas eu acredito numa estranha força que vez ou outra aparece estar em mim.

Mas isso não facilita em nada os embates de sua vida.

Mas eu não existo.

E eu não sei?

Então...

Comecei a escrever um nome e surgiu o seu

Mas as duas letras, dos dois nomes estão na
mesma linha de teclas. Separadas por duas letras.

Comecei a escrever um nome e surgiu o seu. Havia pensado nele antes? Não. Não? Não. Um nome é só um nome. É? Pode ser. Pode? Sim. Sim? Como surgiu meu nome, então? Comecei a escrever um nome e surgiu o seu. Não havia pensado nele. Nem se seria um nome de mulher. Poderia ser um nome de homem. Talvez fosse de algum antepassado. Seria de um filho, ou de um neto. Comecei a escrever um nome e surgiu o seu. É apenas o que posso dizer neste momento.

A primeira letra foi por puro acaso. O dedo deslizou para o lado esquerdo. Era uma letra que estava no território direito do teclado. Minha mão direita deslizou para a esquerda, quase no limite da última letra que tenho que digitar com meu dedo indicador da mão esquerda. Você não está sendo correto. Não. Meu nome não começa com nenhuma letra que está no lado direito do seu teclado.

Assim, não podia ter escrito meu nome com seu dedo indicador da mão direita. Nem poderia ser com qualquer outro dedo dessa mão. Você se esqueceu que eu escrevo, melhor dizendo, que eu digito com todos os dedos das duas mãos. Sou de tempos em que as pessoas tinham aula de datilografia. Hoje ninguém quase pratica a datilografia. Hoje todos digitam, apenas. Uns só com dois dedos.

O indicador de uma mão e o indicador da outra. Eu, não. Eu digito, datilografo, com todos os dedos e o dedão é usado para acionar a barra de espaço. Quando estou digitando palavras com a mão esquerda, a barra é acionada com o dedão da direita. Quando há palavras com a mão direita, eu posso usar a tal barra com a mão esquerda. Entendeu? Agora você tem um referencial maior para saber que seu nome foi escrito conforme eu disse.

O nome de sua mãe você escreve com que mão? E o do seu pai? De suas irmãs? Dos seus filhos, dos seus netos, da sua mulher? Com qual mão? A mãe, o nome da mãe é digitado com a mão direita. O pai, com a esquerda. Mas as duas letras, dos dois nomes estão na mesma linha de teclas. Separadas por duas letras. Uma do meu nome e a outra do nome do meu avô materno. Interessante é que o nome do meu avô paterno também está na mesma linha de teclas.

Sim, mas e meu nome? Não explicou. Expliquei sim. Meu dedo indicador da mão direita deslizou para o lado esquerdo do teclado e... pronto. Aparecia a primeira letra do seu nome. Não é uma letra, para mim, comum para nomes femininos. Conheço poucas mulheres cujos nomes comecem com essa letra. Letra que está ao lado da letra do nome de minha filha do meio. Por coincidência, veja só – é só pular mais três teclas que tem a primeira letra do nome da minha filha mais velha.

Os nomes, quando nascem, são difíceis da gente explicar. Meu nome, eu sei. Era o nome do avô do meu pai. E meu pai foi além, juntou o nome do avô dele com o nome do meu avô, o pai dele, entendeu? Então tenho o nome do meu bisavô e do meu avô. E o sobrenome do meu avô materno, na verdade, um sobrenome emprestado pelo padrinho do pai de minha mãe, que na família dela foi utilizado apenas por ela e por outra filha mais nova do meu avô.

Não tenho registro de nenhum outro neto do meu avô materno que tenha o mesmo nome que o meu. Mas sei que tenho um primo que tem o mesmo nome que meu avô materno, mas ele não usa o sobrenome dele e sim o sobrenome que meu tio, irmão de minha mãe, usa. Nomes são coisas de família. Há muitos nomes que aparecem por influência de nomes de artistas ou de jogadores de futebol. Hoje em dia é muito comum utilizar nomes de personagens de telenovelas. Já não vejo, mais, a citação de personagens de livros.

Antigamente as famílias usavam, tinham costume, de usar nomes de personagens de livros. Hoje... bem, fiquei sabendo que o porteiro do meu prédio registrou o nome da filha dele com o nome de uma daquelas moças que ficavam balançando a bunda num desses programas de televisão. Não que ele gostasse da moça, ou da bunda dela, mas gostou do nome. Como? Não, não registrei o nome, mas também não me lembro da bunda da tal moça, que, aliás, nem sei que cara tem.

Foi difícil completar o meu nome? Olha, tenho que confessar que foi. Pois, até agora, ainda não sei se a segunda letra dele seria com essa ou com aquela outra letra. Mas o som, dependendo da pronúncia, poderia ser o mesmo. Ou não. Terei que pesquisar melhor. Ah! Agora você me confundiu! Não, por favor. Não entenda assim. Não é que eu esteja confundindo-a. Apenas não sei mesmo explicar como foi que apareceu seu nome e nem qual a referência dele para existir.

Você acredita que nossa mente percorra caminhos que sequer imaginamos possíveis? Sim, é mesmo! Tem vezes que estou pensando uma coisa e basta colocar o dedo no tal teclado que surge uma letra, depois vem outra, há um espaço, outras letras. E pronto! Surgiu um primeiro parágrafo. Comecei a escrever um nome e surgiu o seu.

E, aqui, tenho que terminar, pois eu sei que há poucas pessoas interessadas em saber por que cargas d´água eu comecei a escrever a frase e antes de surgir um nome surgiu isso que agora eu termino. O nome? Quer mesmo saber? Olha, eu não sei se depois da primeira letra “H” vem um “a” ou um “e”. Se você me ajudar, hei de contar uma história a partir dele. Um abraço e até outro dia.

domingo, 11 de abril de 2010

Brincando com o Wordle


Brinquei com a ferramenta WORDLE e a apliquei
em um dos monólogos do meu texto
"Parent(es)is-Fábula para seis ou mais vozes".

Wordle: Prólogo na Sala de Máquinas

Brinquem com a ferramenta RANDOMIZE. É bem legal.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Da palavra não dita à palavra mal dita

"Você acha que eu me prestaria a tocá-la com meu dedo?"

Três pessoas discutem um depoimento que foi dado há tempos. Matheus e sua chefe, a Anália, querem que Ricardo repita, integralmente, o que dissera no depoimento. Ele se nega a repetir, a relembrar o que disse. Afirma que do que disse não vai retirar nada. Assim, quer que prevaleça sua primeira palavra.

Esse é o texto que escrevi esta semana e que é mais um texto onde a tal "palavra não dita" vai até a "palavra mal dita", ou explicando, a palavra que não se diz vai até, dependendo das circunstâncias, a palavra dita de um jeito equivocado, errado, dita de um modo incorreto, errado, com vício ou, indo para o popular, uma "merda de palavra".

O texto integral "Da Palavra Não Dita à Palavra Mal Dita", é só cliclar no título e ler em PDF.

Aqui, uma parte do diálogo. E algumas considerações sobre o que foi dito, as vozes que foram ouvidas.

(...)

Matheus – Você e os critérios, de novo? Condição é critério? Critério é regra? Regra é condição? Tudo parece convergir para um só ponto. Aceitar ou não. Ficou claro?

Ricardo – Não é critério o que estamos discutindo. Eu falava em vozes. Há um imenso espectro de vozes que podem surgir dentro de um pensamento, de uma ação. Se há uma voz, há uma emissão. Se há emissão, só é válido tendo alguém para receber. A voz não pode se calar apenas porque alguém não a quer ouvir. Alguém, em algum tempo, em algum lugar vai ouvir o que possa ter ficado perdido no ar, no tempo, no espaço...

Anália – Você vem até aqui para justificar as vozes que você se apropria para justificar o que disse, o que tem dito, nos últimos tempos... Não é esse o critério. Acho que deixamos bem claro isso. Não usar a voz do outro, nunca. É a regra, é o critério, é a condição que não se pode burlar, nem alterar.

Ricardo – Essa condição, que vocês chamam de critério eu desconhecia. Quando falo não falo por mim só. Não está em mim essa condição de ser único. De ser uma só voz. Um só. Sou múltiplo. Ampliam-se em mim todos os sentidos. Além das vozes. Estou tentando, desde o início do processo deixar bem claro que não falo apenas pelo que eu falo. Pela necessidade que se impõe. Eu falo pelo que outras vozes precisam falar. Não é tom de voz, nem é timbre, nem é emissão, nem é meramente sotaque ou vício de linguagem. Eu falo de algo mais profundo e que vem de uma consciência. Uma latente consciência que se soma a outra consciência latente. Uma que se esfrega na outra. Outra que alavanca outra, que provoca sinergia, confronto. Que faz outra eclodir, nascer. Que bate, que recebe o baque de volta, que retorna com mais força e solta, salta, pula, amplia, vai além, explode em outras vozes, que alcançam outra voz, mais alta, mais perceptível. Uma que provoca, que sai, outra que brota, que se soma, que se amplia, que se torna uníssona para, lá na frente, se fragmentar e rebrotar, re-somar, re-ampliar, re-virar, re-transformar, virar um duo, depois, um quarteto, um octeto, uma orquestra, um coral imenso, vários corais, várias orquestras, na sinfonia da voz primeira, do grito primitivo. Daquele eu que gritou de dor, mais adiante vai gritar mais forte é de prazer, de um prazer imenso de poder ser ouvido, sem interferências, sem pré-condições, sem regras, nem critérios, nem nada que atrapalhe que imponha barreira, que prenda, que estanque, que confunda, que afunde, que aprisione, que guarde, que proteja, que salve, que encarcere numa gravação ou na forma mais primitiva de eco ou de reverberação atonal... Não, as vozes não nascem das palavras, nem as palavras nascem das vozes. A voz é palavra quando ela é sentimento, é razão. A voz é sentimento quando é palavra e palavra ouvida, que se possa ouvir. Voz é isso. Deixem as vozes serem ouvidas, não aprisionem as vozes, as razões e os sentimentos nos tais critérios que não estão claros, está bem?

(...)

Anália – Ficar se lamentando não é o que eu esperava de você...

Matheus – Mas as promessas...

Anália – Você acreditou nelas?

Matheus – Não eram de verdade?

Anália – Quanta ingenuidade... Assim pode parecer que você é um idiota.

Matheus – Mas ingênuo posso ser. Idiota, jamais!

Anália – Não aparente, então. Segure sua onda, rapaz!

Matheus – Eu pensei...

Anália – Eu já havia dito antes. Você não foi contratado para pensar. Está fora de cogitação qualquer ideia que possa sair dessa cabecinha de melão...

Matheus – Sinto-me traído. Enganado. Parece que você me usou e que tudo o que fez foi de caso pensado.

Anália – Mas eu só faço coisas pensando muito bem cada centímetro do caminho que teria que percorrer.

Matheus – Eu era um simples objeto em tudo isso? Um instrumento para você usar nos momentos certos?

(...)


Não fugindo da luta

“Não tenho medo de lutar, mas temo as regras que não conheço.”

Fala do personagem O CLIENTE em “Na Solidão dos Campos de Algodão”, de Bernard-Marie Koltès

domingo, 4 de abril de 2010

Quando acertei com a agenda errada

Lembra-te que és mortal!


No ano passado, em abril, recebi um convite do Andrew Knoll para assistir a exibição do curta-metragem “Com as próprias mãos” do Aly Muritiba, na loja das Livrarias Curitiba do Shopping Estação. Aconteceria, depois, um bate-papo com o diretor. O convite chegou dia 28 e a apresentação seria naquela mesma noite. Fui para lá curioso, pois queria assistir ao filme no qual o Andrew fazia um dos personagens. Cheguei no horário e percebi, no entanto, que nada estava programado para uma exibição de vídeo.

Eu acabara de iniciar minha participação na Oficina de Dramaturgia com o Roberto Alvim. Era mais do que normal eu me interessar por assistir ao tal curta, ter oportunidade de conhecer seu diretor e, também, prestigiar o Andrew, o ator que integrava a mesma oficina, só que na turma da noite. Além de teatro, eu também gosto de cinema. Gosto de ler roteiros de cinema, de escrever também. Teatro e cinema. Coisas em comum, com textos, com idéias. Com vontade e coragem.

Discretamente conversei com uma das atendentes da livraria. Não? Foi ontem? Sim, o convite chegara com a data errada. Lá havia muita gente, as cadeiras estavam colocadas diante de uma pequena mesa e nela uma conhecida figura – eu sempre o via em programas de televisão - ia iniciar uma palestra. Quem era ele?

Mario Sergio Cortella, o filósofo e doutor em educação, ia falar sobre seu mais novo livro: Qual é a tua obra? Inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética. Não havia lugar para sentar. Fiquei em pé e me postei atento. A palestra, curta, proferida com humor e inteligência, me cativou. Cortella tem um estilo muito particular de tratar das questões. Solta uma frase e, em seguida, explica a frase, coloca-a num contexto histórico, ilustra-a, dá exemplos, ilumina sua exposição e facilita o entendimento para quem o ouve. Não é porque é filósofo, doutor em educação que ele teria que falar difícil, se fazer distante, inacessível. Cortella é de uma clareza ímpar. Tanto para falar, quanto para escrever as tais “inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética”, o que ele abordou no livro a ser lançado aquela noite.

Se eu tinha ido para a livraria para ver uma coisa, não me frustrei por ter visto outra, completamente diferente. Se eu queria ver um diretor falando sobre sua obra, o curta-metragem onde o colega de oficina de dramaturgia – o Andrew – fazia o personagem torturado, pendurado de cabeça pra baixo por uma mulher ensandecida – com ou sem razão, não sei, a palestra do Cortella foi, digamos assim, um contraponto oportuno para um acerto diante de uma agenda equivocada.

O possível desconforto de, em pé, assistir a uma palestra, me fez prestar mais atenção e me ligar no que o palestrante dizia. Fui, assim, ligando-me mais e mais no que Cortella dizia. Quase ao final, ele contou sobre o que na Roma antiga, os generais vitoriosos, ao retornarem, desfilavam triunfantes e eram ovacionados pelo povo. Os generais eram levados em biga conduzidas por escravos. Eram conduzidos até o Senado. Lá, receberiam a honra maior: uma bandeja de prata com folhas de palmeiras.

Cortella, ao falar sobre essa cerimônia de reconhecimento dos heroicos feitos dos generais romanos, perguntou para os presentes qual era o sinônimo de bandeja. Imediatamente, no fundo da platéia, eu disse: É salva, salva de prata, bandeja de prata. Ele agradeceu e, vendo-me, comentou: Alguém de minha faixa etária – numa alusão aos meus cabelos brancos, meus 60 anos à época. Cortella deve ser uns anos mais novo do que eu, com certeza.

Então falou que, a honraria, a tal bandeja de palmas, que se transformou na expressão salva de palmas, foi substituída, hoje, nas homenagens, pelo que conhecemos como salva de palmas, os aplausos, as duas mãos fazendo aquele som, de batidas ritmadas e fortes, das palmas de nossas mãos, uma contra a outra.

Mas, os generais homenageados com a honra máxima da bandeja de prata com folhas de palmeiras e entregue a eles no Senado romano, não era o mais notável dessa história, dessa tradição. Durante o desfile, sendo ovacionado pelo povo romano, os generais, no desfile na biga, num determinado espaço percorrido – quinhentas jardas – quinhentos passos, um outro escravo, que seguia a pé, subia na biga e soprava no ouvido do general a seguinte frase: “Lembra-te que és mortal” - Memento te mortalem esse. E assim, a cada quinhentos passos, o escravo repetia a frase. Até o cortejo chegar ao Senado.

Muito aplaudido, com uma intensa salva de palmas, Cortella agradeceu e, depois foi receber a homenagem justa que todo escritor deseja. Foi autografar o seu livro, o que estava sendo lançado naquela noite. Comprei um exemplar – acho que custou 15 reais – entrei na fila e fui pegar meu autógrafo.

Quando chegou minha vez, falei que era jornalista, que também morara em Londrina – Cortella morou lá e em outras cidades do interior paranaense como eu na minha infância, adolescência e até os 20 anos – e que gostara da palestra. O autor agradeceu minha participação e, então, disse-me que em todos os lançamentos de seus livros, tem o costume de escrever uma palavra, que repete, naquela ocasião, em todos os autógrafos que dá. Então ele escreveu, assim: Rogério: Coragem! E assinou meu exemplar.

Confesso que o episódio da agenda errada e do acerto em ter assistido a palestra, comprado o livro e conversado com o Mario Sergio Cortella foi, para mim, muito mais que um erro que se transformou num acerto. A palavra que o autor colocou, para mim, no seu autógrafo, tinha que ter algum significado e que isso, devia servir de lição: Qual é a tua obra, Rogério? Foi o que me perguntei.

Dias depois, estudando, lendo tudo o que o Roberto Alvim ia indicando como leitura e como tarefa de comentar e analisar textos dramatúrgicos de vários e distintos autores de renome internacional, a palavra “coragem” do Cortella mexeu comigo. O título do seu livro, também. Qual é mesmo a tua obra, Rogério? Qual é seu objetivo dentro da oficina de dramaturgia? O que pretende realizar? O que vai escrever? O que tem para mostrar? Como vai fazer isso?

Eu havia escrito, meses antes, alguns contos. Há anos venho guardando alguns contos. Na minha pequena biblioteca, porém desfalcada de outros livros importantes que me subtraíram ao longo dos anos, alguns livros, sem que eu me desse conta, também sopravam mensagens aos meus ouvidos. Vários livros. Até a coleção “História da Arte”, de Sheldon Cheney, que me foi presenteada por meu pai, em dezembro de 1964 e na qual, no volume III, ele escreveu outra importante mensagem, que agora eu resgato: “Para meu filho Rogério Otávio, para que sirva de estímulo no futuro” (Paranavaí, 31/12/1964 – Elzeário Santos Viana). Sim, vários livros, sopravam mensagens, desafios, estímulos.

A palavra “coragem” do Cortella foi o estopim. A pólvora acumulada. As experiências, as frustrações, os muitos erros, os poucos acertos, tudo isso me obrigava a colocar para fora, com muita cara de pau, confesso, mas com muita coragem, também, tudo aquilo que estava em mim e que necessitava, com urgência, se transformar, agora por força da minha opção pela dramaturgia, em textos para teatro.

Contando com aguda orientação do Roberto Alvim durante os encontros quinzenais da Oficina de Dramaturgia, não perdi a oportunidade de anotar muito, observar ainda mais, ler com avidez e escrever muito, todos os dias, sem método, sem freios, sem ressalvas, sem medo, sobretudo. Assumi-me corajoso. Com coragem passei a escrever e a me dedicar, com afinco, ao estudo da dramaturgia. As pequenas explosões tiveram início. Idéias estouravam aqui, ali. Todos os dias, estourando.

Hoje, dias antes de completar um ano daquela noite de agenda errada e do acerto que foi ter assistido a palestra do Cortella, apresento o resultado do estímulo que me foi dado pelos livros, pelas mensagens de estímulo, pelas leituras e estudo e, sobretudo, pela comprovação de que querendo, tendo um sonho, nós conseguimos mostrar nossas obras, mesmo pequenas, sem reconhecimento aparente, sem significados para tantos. Hoje, aqui, declaro que de abril de 2009 até agora consegui escrever sete peças de teatro, reescrevi outras duas que eu escrevera em 2003 e 2007, traduzi duas peças teatrais em espanhol – da autora Susana Lastreto, e, também, verti para o português textos teóricos sobre dramaturgia e teatro dos autores de língua castelhana José Sanchis Sinisterra, Gustavo Ott, Nestor Cabalerro e Domingo Ortega.

Qual é a tua obra, Rogério?

Espero que meus onze textos de teatro sejam um começo. Outros textos estão vindo. Com ou sem o estímulo de quem, nos últimos dias, fez com que eu quase desistisse de me ver com potencial para escrever dramaturgia. Não vou desistir do meu sonho. Não vou deixar de lutar e, muito menos, permitir que ocupem um lugar que é meu por direito e pelo que meu esforço e dedicação apresentou como resultado.

Qual é a tua obra?

A minha, embora pequena, eu já sei qual é.

A de vocês, que venham. Estou aberto a conhece-las.