terça-feira, 26 de abril de 2011

Tradução de texto que vai estrear em Buenos Aires

"África" vai estrear em Buenos Aires no
dia 22 de maio no Teatro do Povo

Na semana passada concluí a tradução de “A cumplicidade da Inocência”, texto de Adriana Genta e Patricia Zangaro, que está em cartaz no teatro Celcit em Buenos Aires. Enviei o texto para as autoras e recebi de Patrícia Zangaro a autorização para divulgar a tradução como também ela aproveitou para me enviar mais sete de seus textos teatrais.

Perguntei para a Patrícia se aqueles textos eram um desafio ou ela o enviara para que eu conhecesse mais profundamente seu trabalho. Ela, então, respondeu-me que não teria coragem de propor ou sugerir que eu traduzisse todos os textos, mas eu disse que aceitaria ir traduzindo um por um, até porque, assim, poderia dar um mergulho na dramaturgia dela e entender um pouco mais como se produzem textos de teatro na Argentina.

Foi assim que optei por traduzir o primeiro texto da lista de sete peças. E escolhi, então, “África (um continente...)”. Para minha surpresa, o texto vai ganhar os palcos pela primeira vez a partir do próximo dia 22 de maio, no Teatro do Povo em Buenos Aires e tem direção de Alejandro Ullúa. Portanto, fiz a tradução de um texto ainda inédito nos palcos argentinos.

Segue abaixo a sinopse de “África (um continente...)” que foi desenvolvida pela própria autora.

Sinopse

No terraço de um arranha-céu em uma cidade qualquer. O encontro inesperado de um homem, uma mulher, uma moça e um rapaz. Atravessam a noite discorrendo com alguma hostilidade, com certo enfado. Muito embora um homem negro agonize lá em baixo. Como um continente que se funde no esquecimento, África... um continente se articula em torno a este outro que não se vê nem se ouve, silenciado pelo palavreado vazio da cidade.

Patrícia Zangaro comenta sobre a origem do texto

África... um continente nasceu como uma exploração sobre a linguagem, como uma pergunta sobre aquilo que falamos, sua necessidade, seus limites e impossibilidades. Em meio ao palavreado urbano, acreditei identificar quatro vozes, a de uma mulher, de um homem, de uma moça e de um rapaz. Imediatamente suas silhuetas se recortam no terraço de um arranha-céu e, ao tropeçar um no outro, conversam. Invadi suas palavras, e o mundo de África... um continente começou a ser criado.

O diretor Alejandro Ullúa fala sobre a montagem de África

Esta nova obra de Patrícia Zangaro fala do horror como algo cotidiano, porém muito longe de normalizá-lo, o olhar é ferozmente crítico. Os personagens de África... um continente são devorados por algo que os angustia e os impede de comunicar-se entre si, porque cada um permanece preso em seu próprio inferno. O desafio da montagem é fazer com que os diálogos estourem e nos perturbem.

Ficha artística e técnica

Autora: Patricia Zangaro
Elenco: Salo Pasik, Stella Matute, Verónica Hassan, Matías De Padova
Assistência de Direção: Florencia Ravera
Assistência de produção: Sofía Kiguel
Assistência de Cenografía e Figurino: Laura Muñoz e Camilo Caycedo
Fotos: Fuentes2Fernandez Fotografías
Música e trilha sonora: Sergio Vainikoff
Desenho de Iluminação: Matías Iaccarino
Desenho de Cenografia e Figurino: Valentina Bari
Produção Executiva: Andrea Montaldo
Assessoria de Imprensa: Simkin & Franco
Direção: Alejandro Ullúa

Duração aproximada: 60 minutos

Os interessados pelo texto poderão solicitá-lo através do meu e-mail: rogeriobviana@yahoo.com.br ou deixando seu pedido nos COMENTÁRIOS.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A cumplicidade social

Cena de "A cumplicidade da inocência"
Foto de Soledad Ianni

A peça "A cumplicidade da inocência" tem seis cenas, seis histórias, doze personagens. Na Cena IV (com um pequeno trecho abaixo) - dá para perceber o que dá para ser cúmplice com uma pretensa ingenuidade. A peça está em cartaz em Buenos Aires, foi escrita este ano e eu a traduzi durante o feriado da Páscoa. Vejam parte do texto e como as duas autoras - Adriana Genta e Patricia Zangaro - trabalharam cada uma com três das histórias da peça. Dramas, em pequenas doses, que tornaram muito grande a tragédia que se abateu sobre o povo argentino durante a última ditadura militar, logo após o desaparecimento de Perón e, em seguida, com a queda de sua Isabelita.

Na foto, imagem da cena abaixo.


A Cumplicidade da Inocência 

Cena IV – A cumplicidade social

Por alguma coisa

De Adriana Genta

A copa-cozinha de uma casa popular na região de Cuyana. Há objetos de decoração de aniversário e sobre a mesa um bolo de criança. São mostrados elementos de costura: um manequim, uma máquina de costura, caixa de costura, tesouras. Entra Dona Berta orientando Clara.

(...)

Clara – (interrompendo-a) As pessoas são maldosas e vivem comentando.

D. Berta – As pessoas são maldosas e... (enfática) inventa!

Clara – Quando o rio faz barulho, traz água.

D. Berta – E às vezes traz lama.

Silêncio.

D. Berta – Ouça, se eu decidir contar é para que não acredite em tudo o que vai ouvir por aí.

Clara – Mas, o que é mesmo que dizem?

D. Berta – Vão dizer que... que... Os militares o levaram por ser subversivo.

Clara reprime-se e tapa na boca uma exclamação de surpresa e susto.

D. Berta – Mas não é certo, não se assuste. Bem, mas que os militares o levaram, sim. Mas que seja um subversivo, não. Um homem trabalhador. Uma benção de Deus.

Clara – Porém ele deve ter feito alguma coisa.

D. Berta – Não... Somente estava como catequista com os padres, estes que não usam batinas, sabe? Queriam fazer uma cooperativa agrária em terras abandonadas. E claro, armou-se uma confusão, porque esta gente tem seus costumes e seus patrões há muitos anos.

Clara – Está preso?

D. Berta – Sim... Deve estar... Porém não sabemos nada.

(...)

domingo, 24 de abril de 2011

Tradução de texto do teatro argentino contemporâneo: A Cumplicidade da Inocência


Patricia Zangaro, Carlos Ianni e Adriana Genta.
(foto divulgação - Diário Página 12 - Argentina)

Através do foro do CELCIT pude acompanhar todo o trabalho de preparação e de divulgação da montagem de "La complicidad de la Inocencia", na cidade de Buenos Aires. O tema, logo de início, chamou a minha atenção. E com este interesse, quis conhecer o texto escrito por Adriana Genta e Patricia Zangaro, autoras argentinas.

A razão do meu interesse, além das questões óbvias de conhecer alguns aspectos das estratégicas dramatúrgicas empregadas pelas autoras no texto, havia, também, a curiosidade de saber como as duas trataram a questão central do texto que é a última Ditadura Militar naquele país, naqueles anos de triste memória e após o retorno e a queda de Perón e de sua Isabelita.

Esta semana baixei o texto diretamente do site do CELCIT e o estudei com detalhes. Interessou-me, então, traduzi-lo também. E o fiz com muita alegria, aproveitando os dias de feriado.

O texto com as seis cenas, seis histórias, seis dramas, torna muito claro a dimensão do que foi a ditadura militar em terras argentinas. Revela muito mais que as seis histórias. Nos mostra, de uma maneira muito objetiva que grandes tragédias só acontecem quando pequenas tragédias se multiplicam pelo tecido social de um país. E são estas pequenas tragédias, estas inocentes tragédias que tornam cidadãos comuns, cúmplices de um drama de dimensões incalculáveis.

Encaminhei o texto traduzido para Adriana Genta e Patricia Zangaro e ambas autorizaram que eu publicasse o trabalho que fiz e que tem o título de "A Cumplicidade da Inocência", cujo subtítulo é "Terror e Miséria da Classe Média Argentina".

A peça "La complicidad de la inocencia" que está em cartaz no teatro do CELCIT em Buenos Aires, tem a seguinte ficha técnica e artística:

Texto de Adriana Genta e Patricia Zangaro

 Com
Julieta Bottino
Carolina Erlich 

Teresita Galimany
Juan Lepore
Andrea Magnaghi
Hugo Men
Josefina Recio
María Svartzman
Fotos:
Soledad Ianni
Música
Osvaldo Aguilar
Assessoramento cenoplástico
Jorge Ferro

Cenografía,  figurino, iluminação e direção:
Carlos Ianni

Espetáculo sem intervalo
Duração: 65 minutos
Temporada 2011

Sobre "A Cumplicidade da Inocência"

Em seu célebre artigo de 1934 - "Cinco dificuldades para dizer a verdade", Brecht havia escrito: "Se em nossa época é possível que um sistema de opressão permite a uma minoria explorar a maioria, a razão reside em uma certa cumplicidade da população, cumplicidade que se estende a todos os domínios".
Um ano mais tarde começaria a escrever os vinte e quatro episódios de "Terror e misérias do Terceiro Reich", onde baseando-se em testemunhos e notícias publicadas pela imprensa, relata um punhado de pequenas histórias de covardia, cumplicidade e violência da sociedade alemã dominada pelo nazismo.
Adriana Genta e Patricia Zangaro comentam sobre o trabalho que desenvolvera: "Quando Carlos Ianni - o diretor da montagem - nos convocou para conceber a dramaturgia de um espetáculo que levantava questões sobre o terror e a miséria de nossa própria sociedade durante a última ditadura militar, começamos a enxergar o modo como o medo deslizou-se pelas tramas de um tecido social arrebentado, impregnando o imaginário de cidadãos comuns e percorrendo até seus vínculos mais íntimos, para engendrar silenciosas cumplicidades com a repressão e domésticas reproduções de submetimento. Dessas indagações surgiram as seis histórias do texto ´A cumplicidade da Inocência´, histórias tão insignificantes e obscuras como as criaturas que as habitam".


As seis histórias divididas em seis cenas são:


Cena I - O dia do golpe - Bico Fechado (de Patricia Zangaro)


Cena II - O extermínio da "Subversão" - Privadas (de Adriana Genta)


Cena III - O medo se instala na sociedade - Marchem (de Patricia Zangaro)


Cena IV - A cumplicidade social - Por alguma coisa (de Adriana Genta)


Cena V - A censura - Este são os contos (de Patricia Zangaro)


Cena VI - Do estado geral do medo para a delação - O cheiro (de Adriana Genta) 

Os interessados poderão solicitar a peça traduzida através do meu e-mail:

rogeriobviana@yahoo.com.br

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Cinco perguntas sobre o final do texto

José Sanchis Sinisterra provoca
reflexão sobre o final do texto dramatúrgico
No artigo publicado na edição 37-38 da "Revista Teatro-Celcit", em Buenos Ayres, o autor espanhol José Sanchis Sinisterra provoca uma reflexão acerca do final do texto dramatúrgico e a faz através de cinco perguntas que formula e responde:

Por que  o final da obra dramatúrgica propõe ao autor um acúmulo de responsabilidades ainda maior que em outros gêneros literários?
Quem decide o final do texto?
Onde termina o texto e quando começa o final?
Como acaba o texto?
Por que acabar o texto?

O texto de Sinisterra tem o seguinte começo na tradução que fiz:

Cinco perguntas sobre o final do texto

José Sanchis Sinisterra

Todo escritor conhece este momento em que a obra chega ao seu final. Este momento em que a última frase, a última palavra, abre espaço no branco da página ao silêncio da escritura. O conhece, o deseja e o teme, com frequência a partir de um estado de excitação em que se mesclam num emaranhado a soberba do demiurgo – que no início da obra pronunciou seu “fiat lux” e ao concluir-la murmura “fiat tenebrae” – e a impotência do aprendiz de feiticeiro que pressente o destino incontrolável de sua criatura, que lhe concede a contragosto uma autonomia relativa, oferecendo-a ao mundo como um mundo paralelo.
Mundo, por outro lado, que o escritor de gabinete, neste momento desejado e temido, com a gravidade de quem sabe até que ponto sua aceitação ou recusa no universo literário dependem em grande parte das últimas decisões, das últimas disposições; e assim, prevendo e prevenindo tão injusta decisão – julgar o todo pela parte -, o escritor se esmera para dar a este último segmento de sua obra o melhor de si mesmo.
Não há nesta figura demasiada retórica sobre o “heroico” ofício de escrever. Recorrendo simplesmente a nossa experiência de leitores, podemos constatar quantas vezes uma obra literária se redimiu ou nos decepcionou somente por sua parte final. Como se a drástica interrupção do fluxo discursivo, a súbita – embora prevista – caída no vazio semântico, super dimensionara a significação e o valor da sequência antecedente, que parecia irradiar um efeito retroativo até a totalidade do texto já lido.
Ressonância é como chamam os narratólogos a este efeito, que não depende apenas dos conteúdos e recursos técnicos empregados pelo autor para acabar o texto, senão também de sua posição à beira do silêncio: nessa interrupção que todo final produz na sucessão de estímulos semânticos desencadeada pela leitura, neste vazio receptivo que deixa ao leitor só consigo mesmo e o induz a incrementar e prolongar a importância da última sequência lida.
(...)

Para conhecer todas as perguntas e suas respostas, os interessados no texto completo poderão solicitá-lo via e-mail para: rogeriobviana@yahoo.com.br

O texto será enviado no formato PDF.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Inscrições para o Núcleo de Dramaturgia de SP vão até o dia 29 de abril

Visite o site do Núcleo de Dramaturgia SESI São Paulo
O Serviço Social da Indústria, Departamento Regional de São Paulo – SESI-SP – e o British Council, a organização internacional do Reino Unido para oportunidades educacionais e relações culturais, dentro das diretrizes de uma ação cultural que busca a democratização do acesso à cultura e da produção de bens culturais, encerram as inscrições de novos autores para o projeto Núcleo de Dramaturgia SESI-British Council no próximo dia 29 de abril de 2011. Para tanto, informa aos interessados os procedimentos e as condições necessárias para a referida inscrição.
Processo de seleção
O processo de seleção é dividido em três etapas:
  • Primeira etapa – todos os textos inscritos serão avaliados por profissionais selecionados como avaliadores e preparados pela coordenadoria literária do projeto.
  • Segunda etapa – os autores dos textos que forem selecionados passarão por uma entrevista com a coordenação geral e coordenação literária do Núcleo de Dramaturgia.
  • Terceira etapa – os novos autores selecionados na entrevista passarão por um processo de aprimoramento e desenvolvimento das técnicas dramatúrgicas, sob supervisão da coordenação literária do projeto, durante o período de um ano.
Condições de participação
Os textos que não estiverem de acordo com as condições deste edital serão automaticamente desclassificados. Os novos autores deverão respeitar as seguintes condições de participação:
  • Ter idade acima de 16 anos;
  • Não ter texto teatral publicado ou encenado profissionalmente até o primeiro dia de aula da turma 2011/2012;
  • Preencher todos os campos da ficha de inscrição corretamente;
  • Ter disponibilidade para frequentar as aulas e oficinas de agosto/2011 a junho/2012. Os encontros são quinzenais, normalmente às quartas-feiras à noite, sabendo-se que uma vez por mês haverá uma atividade extra (palestra, debate ou workshop);
  • Enviar um texto na íntegra, entre 15 e 20 laudas* (21 mil a 28 mil caracteres);
  • Não podem participar desta seleção os funcionários, estagiários ou colaboradores do British Council, FIESP, CIESP, SESI, SENAI, IRS de qualquer unidade da Federação e de empresas direta ou indiretamente envolvidas na sua organização.
* De acordo com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, uma lauda equivale a 1.400 caracteres com espaços.
Informações importantes
  • Peças teatrais infantis e musicais serão aceitas;
  • Não serão aceitas adaptações ou reescrituras de obras;
  • Não serão aceitos textos escritos por mais de uma pessoa;
  • Autores que já participaram de festivais, mas que não estrearam profissionalmente, serão aceitos como inéditos;
  • O Núcleo de Dramaturgia SESI-British Council disponibiliza material de estudo, profissional treinado e curso gratuitamente, porém, não se responsabiliza por gastos pessoais dos participantes do projeto, como transporte, alimentação e hospedagem.
Como ser um Novo Autor: 
Os interessados deverão preencher a ficha de inscrição e enviar um texto na íntegra, com no mínimo 15 e no máximo 20 laudas (21 mil a 28 mil caracteres). O prazo final para o recebimento dos textos de Novos Autores será no dia 29 de abril de 2011. Todo esse material deve ser encaminhado unicamente pelo correio para:
Serviço Social da Indústria
Divisão de Desenvolvimento Sociocultural
Avenida Paulista, 1313 – Andar Intermediário
Cep: 01311-923 – São Paulo – SP

Escrever na frente do envelope: 
“Núcleo de Dramaturgia SESI - British Council”.
Dúvidas e Informações: ccfproducao@sesisp.org.br 

terça-feira, 12 de abril de 2011

Dando a cara a tapas na "arena das vaidades extremas"


Thadeu Peronne e Mazé Portugal em "Amores (re) Partidos"
O triângulo entre Mazé, Peronne e Ana Paula Taques
Encaminhei para Douglas Daronco o seguinte e-mail. Nele, algumas considerações acerca do que é ter a chance de participar do jogo na "arena das vaidades extremas".


Foi assim, enviado a ele.


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Douglas,

Uma expressão, um dito popular, veio à minha cabeça quando terminei de ler a severa crítica do Valmir Santos sobre a montagem de "Amores (re) partidos".

Fiquei ruminando algumas ideias e fui buscar a tal expressão - super conhecida - para comentar com você.

Apareceu então:

Dar cara a tapas
dar a ca.ra a ta.pas
1.     enfrentar (algo), por-se à prova.


Quando empreendemos alguma coisa, em qualquer campo de atividade, corremos riscos. Podemos agradar, podemos ter sucesso, podemos não agradar e podemos fracassar. O pior, no entanto, é não arriscarmos, é nos omitirmos, é fugir da raia, é não tentar, é "não dar a cara a tapas".

Quem entra num jogo sabe que pode marcar um gol, fazer uma cesta, marcar o ponto na disputa da final de basquete da Olimpíada. Pode - e como pode - jogar mal, marcar um gol contra, chutar o pênalti para fora, errar o último lance livre. Além disso tudo, pode ter câimbras antes de tocar a borda da piscina, pode levar um forte chute na canela, pode levar um empurrão. Pode tudo isso e um pouco mais.

Quem tem coragem pode ganhar uma medalha de ouro, mas pode - e como pode - ficar em último lugar, mas, mesmo assim, completar a prova duas horas e meia depois que o último colocado foi aplaudido arrastando-se no estádio na final de uma Maratona olímpica.

Quem entra em qualquer jogo dá, simbolicamente, "a cara a tapas". É assim e sempre será assim.

Antes da estreia de seus textos, os dois que deram o título de "Amores (re) partidos", você entrou no jogo. Literalmente assumiu o risco de chegar ao primeiro lugar ou de ser vaiado por ter sido expulso da partida final por um simples equívoco do juiz. É o jogo. E para jogar é preciso coragem para entrar em campo. Tem que ter, também, esta oportunidade de ser convocado para integrar uma equipe, para treinar, para se esforçar, para, só então, se preparar para entrar em campo, para ser aceito no jogo e para jogar. O jogo é jogado, assim. Tem que se cumprir determinadas etapas. Sem elas, corre-se o risco de não se preparar adequadamente e de entrar em campo e, nos minutos iniciais do jogo, sentir uma antiga lesão e ter que ser substituído quase nos primeiros lances da decisiva partida. É o jogo, e o jogo é assim mesmo.

Então, desejando e com muita vontade de entrar no jogo - e como esse jogo é ardiloso, meu caro Douglas - você se esforçou, se preparou, reuniu forças, abriu mão de tantas coisas, não é? Pois você queria participar oficialmente de um jogo de gente grande. De gente grande que não tem o mínimo escrúpulo de chutar sua canela, de entrar de carrinho por trás, de empurrá-lo para fora do gramado, de afogá-lo nas braçadas finais dos 400 metros golfinho, de enfiar o dedo no seu olho na disputa daquele lance - de vários jogos - onde o juiz não vê a falta e, se vê, finge que não viu. É o jogo, e o jogo é assim mesmo.

Você se preparou, teve seu texto escolhido para integrar uma coletânea de peças de teatro ao lado de tantos outros eleitos para participarem da seleção de dramaturgos iniciantes do Paraná. Depois viu aquele mesmo texto ter uma leitura dramática no palco. As personagens ganhando vida, nas vozes de duas atrizes e de um ator. Todos eles orientados por um experiente, renomado e premiado diretor. E o resultado disso tudo você sabe qual foi. Você estava lá e sua voz dramatúrgica ganhava, finalmente, o campo do jogo, fazia-se presente, "dava a cara para bater".

Comentários a parte, mesmo com tudo o que aconteceu com seu texto, você, ainda, timidamente, estava participando de um jogo de amadores, de iniciantes. De um jogo onde se aceita as regras, não se impõe nada e, por sorte, sai do jogo sem nenhum arranhão ou chute na canela. Mas um primeiro estágio você cumpriu. Credenciou-se para tentar um passo mais adiante, para subir um degrau mais alto, para ser aceito num jogo com mais pessoas capacitadas a jogar com você e, outras, para impedir que você tivesse êxito no seu intento, ou, mesmo tendo, que seu êxito não fosse considerado válido. Até que pudessem - e como podem - anular sua força, sua vontade, sua dedicação. Pior, anular o seu sonho. O sonho amador do menino que pela primeira vez veste uma camisa oficial e participa de um jogo oficial de um esporte qualquer pela primeira e definitiva vez.

Então chegou a oportunidade de entrar em campo num grande cenário, num campo maior, no estádio das vaidades e onde, nele e por ele, vale tudo, de xingarem sua mãe, de poder xingar a mãe dos outros, de ser ético ou de receber, no meio da multidão, um chute bem forte, não na canela - que dói, como dói - mas no meio da cara.

Uma companhia escolheu seu texto, aquele mesmo que você abriu mão de qualquer remuneração, apenas para ter a oportunidade de ver o seu trabalho encenado - entrar no jogo oficial, mesmo na programação da beirada, do tal Fringe - num renomado festival de teatro brasileiro.

Então, no jogo, agora, você ganhou a companhia de outros tantos jogadores. De muita gente bem mais experiente na arte de jogar com a palavra e a emoção. Você, enfim, foi aceito para integrar um time e seu time, com muitos outros participantes, iria estrear sua peça que foi "saudada" com uma bela matéria (matéria de sonho, se quer saber) no mais importante jornal do Paraná.

Antes de o jogo começar todos os demais participantes do mesmo festival invejaram sua "sorte de principiante" - a sua, não a do Thadeu ou da Mazé, experientes e tarimbados atores e produtores teatrais. E você, meu caro Douglas, ganhou as páginas da mídia e sua atuação, no limite do que você deveria chegar ao ser o autor de um texto teatral, agora iria enfrentar, definitivamente, o olhar e a crítica de um estádio lotado, com a maior parte de um público que ia torcer contra você e seus companheiros. É o jogo, e o jogo é assim mesmo.

Literalmente "dando a cara para bater", expondo-se, iluminado por todos os refletores possíveis, aos olhos atentos e desejosos de sangue na "arena das vaidades extremas", seu texto ganhou destaque e foi um dos escolhidos para ser objeto de uma análise crítica de um dos mais consagrados críticos teatrais brasileiro dos últimos tempos.

E o crítico, como um simples espectador foi ver o seu "Amores (re) partidos". Entrou e sentou-se como todos os demais espectadores que prestigiaram a montagem. Foi lá, viu, anotou.

E você, meu caro Douglas, mesmo não esperando isso acontecer assim tão rápido, foi novamente premiado, foi escolhido, ganhou a atenção de gente de peso.

Mas nós sabemos que assim como "não há almoço de graça", não há "crítica de graça" também. Se o chamado para que mais pessoas fossem ver e testar sua coragem de se expor com seu texto na tal "arena das vaidades extremas", estava quase que combinado - e combinado está mesmo - que um olhar mais atento e impiedoso estaria lá, naquele dia, pronto para enxergar o que ninguém enxergou e para apontar o que ninguém apontou antes do jogo efetivamente ser iniciado. É o jogo, e o jogo é assim mesmo.

Findo o jogo, computados os tentos a favor e os gols contra, num empate, numa vitória ou numa derrota, uma resenha deveria mesmo ser feita, uma crítica deveria ser publicada, os comentários - bons ou ruins - teriam que ser divulgados. E a voz potente decretou o que decretou. Disse o que ela tem o direito de dizer. Colocou as coisas como devem ser colocadas. Às claras, sem disfarces, ali, na lata! É o jogo, e o jogo é assim mesmo.

E o que aconteceu, e o que vai acontecer depois da "sentença" do Valmir Santos?

Foi um primeiro jogo - claro, um jogo importante - mas só um jogo, o primeiro de uma série infinita de novos jogos e de novas possibilidades de acertos e de erros, neste campeonato onde se joga como nunca na tal "arena das vaidades extremas" e onde se deve aceitar, várias vezes, mudanças de regras em pleno jogo, mas onde, nas regras, a mais clara delas é que não é permitido, nunca, nunca mesmo, abandonar o campo de batalha em pleno jogo, nem se deve deixar o campeonato, apenas porque o juiz, rigoroso, decidiu mostrar-lhe um "cartão amarelo", aquele de advertência.

Você, meu caro Douglas, teve a coragem de "dar a cara a tapas". Infelizmente e isso tem que ficar bem claro, você não sabia se seria um leve tapa, um tapa um pouco mais forte ou um murro. E não sabia, nem poderia saber, claro, se o murro era um murro um pouco mais forte ou um potente golpe desferido por um "peso pesado". Se doeu - sempre dói, mesmo - a dor passa. Se ficou com um olho roxo - o tempo retira todas as marcas visíveis. Se muitos da platéia vaidosa no extremo de seu prazer estão rindo às suas costas e à custa de um trabalho executado com coragem e amor pelo jogo, lembre-se que a batalha pela conquista do campeonato apenas está começando. Coisas ruins, muito piores ainda virão, tenha certeza absoluta. Mas, também, aos poucos, devagar, sem pressa virão, não os aplausos frágeis, mas a certeza de que para estar no jogo e ser reconhecido como um real participante dele, é preciso sem medo e com muita coragem aprender um pouco mais de como se entra no jogo e como se aprende a enfrentar e aceitar vitórias, empates ou derrotas. Em resumo, como se aprende a viver no mundo do teatro, nesta "arena das vaidades extremas", para então, definitivamente aprender uma lição real, válida. Como se dá a cara a tapas.

Um forte abraço

Rogério Viana

domingo, 10 de abril de 2011

"Um Lugar Estratégico", tradução de texto de Gracia Morales, autora espanhola

A ponte é um lugar estratégico que faz voar fora da realidade.
Conclui, na tarde de sábado, dia 9 de abril, a tradução do segundo texto - Um Lugar Estratégico - que me foi enviado pela professora, atriz e autora espanhola (de Granada) Gracia Morales. O texto ganhou, na Espanha, o prêmio Miguel Romero Esteo, em 2003.

Um Lugar Estratégico

O texto trata do encontro, numa ponte que se divide por uma linha fronteiriça e que separa duas comunidades inimigas, de um casal pertencente a estas duas comunidades e que chegam a esse lugar proibido e símbolo do rompimento da guerra e que estabelece um diálogo cheio de desconfiança, receio e rancor sobre o outro, fruto do isolamento e do desconhecimento mútuos.

O leito do rio está seco e o desejo de que volte a levar água, representa a esperança de mudar a situação. Se enfrentam otimismo e ceticismo nas posturas de ambos personagens, também a agressividade, representada pela mulher, frente ao desejo conciliador do homem. Estes sentimentos se intercambiam ao longo do texto.

A ponte é apresentada como "um lugar estratégico" que faz voar (sonhar) fora da realidade ou, pelo menos, fora de uma série de regras estritas e preestabelecidas; um lugar simbólico (o simbolismo joga um papel primordial na linguagem dramática do texto) onde o tempo passa de outro jeito, numa espécie de torvelinho que comunica passado, presente e futuro, testemunha de todas as guerras e sobrevivente delas. As feridas de guerras passadas, que ameaçam constantemente com a possibilidade de voltarem, são difíceis de cicatrizar, porém falar sobre elas é um primeiro passo, cheio de esperança.

O casal protagonista mostra as intervenções de outros casais no mesmo espaço, porém em tempos diferentes: no passado, um casal de soldados inimigos com a missão de explodir a ponte; no futuro, um casal de adolescentes apaixonados simboliza a possibilidade de que algo está mudando. Toda a história aparece atravessada pela rítmica intervenção de uma personagem, a Andarilha, que não pertence a nenhum lugar, não conhece fronteiras e transita como quer pela ponte, cruzando fronteiras espaciais e temporais. À margem de regras, tenta pescar, porém só consegue pescar no rio botas de números e cores distintas, que não formam nunca um par, até que... o vento começa a mudar.

O texto

As pessoas interessadas em lerem "Um Lugar Estratégico" poderão solicitar o texto pelo e-mail:
rogeriobviana@yahoo.com.br

Ele será enviado no formato PDF.